quarta-feira, 27 de abril de 2011

Como Páscoa é uma data para ser comemorada em família, resolvemos que este ano seria na nossa casa. Os convidados começam a chegar e o contingente da arco-íris a me assustar.
Primo tricolor DOENTE, prima contaminada pela mesma patologia e sobrinha que (possivelmente sob tortura psicológica) é capaz de cantar o hino inteiro desde os dois anos de idade. Hoje, aos seis, é pior de aturar que pai e mãe juntos.
Cunhado tricolor, cunhada, pai e mãe vascaínos, sogro botafoguense e minha mulher (que se dizia flamenguista quando conheci) torcendo pelo Flu, para que a sobrinha querida não se entristecesse. O que deveria ser uma família mais parecia um complô. E eu me sentindo adversário dentro da própria casa.
Minha sogra se atrasa, o almoço também. Início de temporal, e fica decidido que o melhor é todo mundo assistir a decisão onde está.
Termina o almoço, regado a vinho. A essa altura ninguém mais faz a menor cerimônia em torcer contra o time nem tampouco em tirar onda com a cara do dono da casa. Então, quando chega a notícia que o Ronaldinho está fora do jogo, começam a preconizar que o cacau presente nos ovinhos teria sido apenas o aperitivo para o GRANDE chocolate que estava por vir. Como bom anfitrião, eu apenas sorria. PUTO DENTRO DAS CALÇAS, mas sorria.
Começa o jogo e com pouco mais de cinco minutos nosso principal jogador em campo sofre uma contusão da qual, tive certeza, não se recuperaria. Se já não temos jogada alguma pela esquerda, agora, pela direita, também não sai mais. Mas o Galhardo é um bom jogador e continuam 11 contra 11, tento me conformar.
Ledo engano. Foi pensar isso e ficar parecendo que eram 12 contra 10. O INCORRIGÍVEL Welinton faz mais uma das suas IMENSAS cagadas e o juiz, para não expulsar nosso goleiro, não dá a falta e ainda mostra cartão amarelo para o atacante adversário.
Pensei comigo: “Já já ele compensa”. E compensa mesmo.
Impedimento ESCANDALOSO, ele finge que não vê e minha casa se transforma em festa de todos, menos UM.
Nesse momento, confesso, minha confiança fraqueja. Sem nossos dois principais jogadores e com Welinton, Alvin e Fernando a cada jogada me fazendo lembrar do outro significado da palavra “Bonde”, não há muito o que se esperar, a não ser uma morte rápida.
Chega o intervalo, Gustavão liga, como sempre faz, para trocarmos opiniões, mas meu primo toma o telefone das minhas mãos e o faz sentir uma pequena parcela de tudo que eu estava passando.

Mas, vem o segundo tempo, as substituições, a mudança de postura e, principalmente, de atitude. Logo no início, falta na meia lua da nossa área, um chute, dois e Felipe mostra que o jogo está longe de estar decidido.
A essa altura nossa equipe corre, enquanto eles se arrastam. Luta, enquanto eles tentam gastar o tempo. Se impõe, enquanto eles tentam apenas se defender.
O Flamengo cresce, as visitas silenciam e estremecem quando o nosso melhor jogador em campo, até aquele momento, faz algo totalmente fora do seu repertório e coloca uma bola na cabeça do Artilheiro dos Clássicos.
GOL DO FLAMENGO !!!
Meu grito solitário vem lá do fundo e deve ter sido ouvido até em outro prédio. Quem sabe até em outro bairro. O que parecia impossível toma forma, enquanto a expressão do meu rosto se transforma. Me sinto como se estivesse em plena arquibancada.
- É NO CORAÇÃO, PORRA ! Berro já em pé no meio da sala.
Minha sogra, na sala ao lado, se assusta e vem conferir se está tudo bem. Percebe minha expressão de êxtase e dá meia volta sem precisar ouvir resposta.
Fim de jogo e vamos para os pênaltis. A essa altura, os torcedores dos times alvinegros jogam a toalha, pois já estão cansados de provar deste veneno. Os tricolores não. Mas minha confiança neste momento é tamanha, que nem mesmo os erros de Renato e Thiago conseguem abalar.
Estava escrito que esta seria mais uma Páscoa rubronegra. Uma vitória do coração, da raça, da superação, da atitude e da mística que só o Manto Sagrado possui. Jogamos como sempre, mas ganhamos como nunca. Pelo menos este ano, não me lembro de uma outra vitória tão emblemática.
Saio pulando e cantando sozinho pelo corredor; entro no meu quarto e na cama está a sobrinha querida sendo consolada. Ainda de cabeça baixa ela levanta apenas os olhos, contempla minha alegria, ouve meus gritos de “MENGÔ” e faz beicinho prenunciando lágrimas. Meu coração se derrete como chocolate diante da sua tristeza; vou até ela, me abaixo e sussurro em seu ouvido:
- Não fica triste, não. Na próxima o Fluminense ganha.
Parece funcionar e ela desiste do choro. Mas já de pé, em um momento de pura perversidade, completo:
- Ganha do Vasco, do Botafogo, do Olaria. Pois do Flamengo, se não ganhou hoje, não ganha NUNCA MAIS!
Minha gargalhada a seguir parece tê-la contagiado, pois ela acabou esboçando algo próximo de um sorriso.
Os familiares conformados vão se retirando tentando me convencer de que o Carioca já está decidido, mas só mesmo quem não conhece nada de futebol poderia imaginar isso. Aliás, para falar a verdade, não estou nem um pouco preocupado com o jogo de domingo, ainda. Minha preocupação é o de hoje. É esse que faço questão de vencer. E estou certo que se a nossa equipe exibir a mesma determinação e o mesmo coração demonstrado no domingo passado, o “Horizonte” adversário ficará coberto por nuvens negras. Na verdade, vermelho e negras.
A arco-íris hoje, evidentemente, continuará tentando nos secar, mas desta vez, pelo menos na minha sala, vou estar sozinho. ANTES ASSIM !!!
PRA CIMA DELES, MENGÃO !!!