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sexta-feira, 18 de abril de 2008

Ensaio: Bairrismo

Um ensaio sobre bairrismo em tempos de “paulistização” da mídia”, com esperança de quem ver nascer publicações só nossas

Vinicius Paiva - Flamengo RJ
            Existem aqui no site jornalistas que certamente estudaram isto mais a fundo e poderiam versar melhor a respeito do tema, algo que inclusive incentivo-os a fazer. De qualquer maneira, com o pouco que sei sobre isto, me arrisco a escrever um pouco sobre a questão da imprensa esportiva brasileira, que de uns anos para cá mudou totalmente de lado, focando única e exclusivamente os times de São Paulo em detrimento dos cariocas e dos times do resto do país. Por fim, existe um sopro de esperança na reversão do processo, oriunda das boas campanhas recentes do Flamengo – principal produto e expoente do que é difundido pela imprensa carioca Brasil afora.
A questão de sermos o “Mais Querido do Brasil” é de complexa origem. Muita gente, equivocadamente, atribui à fase orgástica da década de 80, aliado a uma maciça exposição do clube pela Rede Globo de Norte a Sul do país. De fato, naquela época a TV dos Marinho era mesmo uma grande parceira e aliada do Flamengo, até pelo fato de sua cúpula ser rubro-negra. No entanto, não é isto que explica o fato de termos o maior contingente de correligionários do planeta Terra: o próprio adjetivo “Mais Querido” vem das décadas de 20 ou 30, muito antes de a televisão sequer se imaginar em estado embrionário.
Mesmo não indo tão longe, é mais compreensível o argumento de que o Rio, na condição de capital do Brasil até o começo da década de 60, detinha quase que a totalidade dos veículos de comunicação com abrangência nacional da época, ou seja, as rádios cariocas. Muito se atribui ao papel da Rádio Nacional os louros da intensa difusão dos clubes cariocas no Norte, Nordeste e Centro-Oeste. Ou seja, nas décadas de 40 e 50, quem ouvia rádio no país, ouvia um jogo do Flamengo, ou de algum dos outros três.
No entanto, a perda da condição de capital nacional fez com que o Rio de Janeiro perdesse além da influência política, também gradativamente a condição de centro econômico-financeiro do Brasil. Imaginem se não faz uma brutal diferença: Hoje o estado do Rio de Janeiro tem um PIB de R$ 246 bilhões, e o Distrito Federal um de R$ 85 bilhões (http://pt.wikipedia.org/wiki/Lista_de_estados_do_Brasil_por_PIB). Todo o nada desprezível PIB do DF é um “PIB perdido” pelo Rio. Este baque aos poucos levou a uma reconfiguração do próprio papel da mídia em território nacional, pois o enfraquecimento do Rio gerou um fortalecimento e uma concentração do poderia econômico no estado de São Paulo, especialmente na capital. Quando apenas uma cidade se torna a referência de todo um país (e a CIDADE de São Paulo é responsável por inacreditáveis 10% do PIB brasileiro hoje em dia), tudo vai pra ela: agências de publicidade, indústrias, prestadoras de serviço e os próprios meios de comunicação. Foi o que aconteceu: de uma hora pra outra, “anunciantes e anunciadores” estavam todos num mesmo lugar, e ao se esquecerem que existe todo um país fora daquela poderosa metrópole, passaram a difundir nacionalmente apenas aquilo com o que conviviam no dia-a-dia. Este processo, na minha opinião, explica o porquê de, especialmente nos últimos dez anos, a mídia ter voltado todos os seus holofotes na massificação dos clubes de São Paulo, especialmente Corinthians (põe especialmente nisso!!), São Paulo e Palmeiras, ou seja, os três clubes da capital.
Vejam se não é verdade. A Band, que até o meio da década de 90 transmitia nacionalmente o campeonato carioca (naquelas saudosas noites de segunda, com o “Ta lá um corpo estendido no chão!”) hoje o ignora e apenas transmite o Paulistão. A TV Manchete, que era uma prova dos tempos em que o Rio detinha poderio sobre os meios de comunicação, faliu e deu lugar à paulistíssima RedeTV. Record e Gazeta são outras que se esquecem que são nacionais e bombardeiam os torcedores do país inteiro com debates insuportavelmente bairristas e exclusivamente paulistas, muitas vezes ironizando e fazendo escárnio dos times do Rio de Janeiro de maneira antiética e antiprofissional. Por fim, a própria Rede Globo, nossa última trincheira de resistência, hoje se divide entre Rio e São Paulo em proporção semelhantes, e ainda se deixa render pela selvagem guerra do Ibope (que é medido apenas na cidade de São Paulo) para exaltar os clubes paulistas de maneira jamais vista antes, mesmo com os times cariocas. Ou alguém já viu coisa parecida com a “força” que a Globo deu em prol do não-rebaixamento do Corinthians para a Segunda Divisão, com legendas nas musiquinhas da torcida e tudo mais? Hoje a legendinha ta aí pra todo mundo, mas não começou assim não... O Flamengo brigou para não cair em quase todos os anos anteriores e jamais havíamos visto campanha tão acintosa.
E este processo, que eu denominei de “processo de corinthianização do Brasil” (mas que muitas vezes aparece pura e simplesmente como “processo de paulistização do Brasil”) é aceitável? Ora, é claro que é absolutamente impensável que se ignore o poder de compra e o retorno que possibilitam as torcidas de um estado que concentra 35% do PIB e mais de 20% da população do Brasil. No entanto, muitas destas instituições consideram que o Brasil é SÓ SP, ou seja, uma extensão pouco representativa deste estado. As campanhas, os patrocínios e a exposição de todos os times do resto do país, de acordo com eles, podem se dar de maneira “marginal”, ou seja, “passam de passagem” e olhe lá. E este sim é um erro colossal. Se 35% do PIB brasileiro vêm de um estado só, 65% dele está fora deste estado, ora bolas! Assim como 80% do “resto” da população. Assim como 69% das torcidas brasileiras são de times não-paulistas, com destaque para os times do Rio, com 25% do total (http://globoesporte.globo.com/ESP/Noticia/Futebol/Campeonatos/0,,MUL151430-4276,00-TIMAO+E+TRICOLOR+COLAM+NO+FLA+ENTRE+JOVENS.html).
Por fim, destes 25% de torcedores de times cariocas, 17% (nada menos do que 68% deste total) torce para um só clube: O Clube de Regatas do Flamengo. Como é possível que estes veículos ignorem tamanho contingente? Como é possível que um mercado potencial de 35 milhões de torcedores seja considerado secundário por quem quer que seja? Certamente o Flamengo tem grande concentração em regiões pobres e de pouco potencial de consumo neste país, o que não justifica tal tratamento, pois mesmo assim todas as pesquisas colocam o Fla no topo em todos (ou quase todos) os níveis sócio-econômicos e educacionais. E se existe um clube, ao menos no Rio de Janeiro, que não vem diminuindo de tamanho, este é o Mengão. Mesmo com toda a massificação da mídia paulista (algo que gera, SIM, reversão na expectativa de crescimento das torcidas para o futuro), o Fla continua no topo dos mais queridos entre os jovens de 16 a 24 anos. Com uma perigosa aproximação das torcidas de Corinthians e São Paulo, é claro. O que havia de se esperar mediante tamanho bombardeio midiático, afinal...?
 
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            Depois de falar pra cacete sobre o assunto (me desculpem, mas é algo que sempre quis abordar, pois se trata de um sufocamento a que todos nós certamente nos submetemos à revelia), eis o fio de esperança. O bom desempenho esportivo rubro-negro recente (particularmente desde 2006) começou a gerar iniciativas – até então inéditas em território nacional - em favor do Flamengo. E a mais legal delas foi o lançamento, quase que simultâneo, das duas publicações que tratam exclusivamente do Flamengo, como eu mesmo citei aqui neste espaço semana passada. O “Jornal Vencer”, do grupo Lance (que a propósito é presidido por um rubro-negro, Walter de Mattos Junior) e o “Jornal da Nação”, que erroneamente afirmei ser iniciativa da diretoria do Fla, mas que na verdade também é uma iniciativa de terceiros, do grupo do “Jornal dos Sports”.
Passeando pelos dois, pude verificar semelhanças e diferenças. De semelhante, além da abordagem maciça sobre o Mengão, temos também as seções de “zoação” contra os rivais, breves partes de notícias gerais (não-esportivas) e, como um veículo popular não poderia esquecer (pois ambos custam R$ 0,50), seção de mulheres seminuas. De diferente, pude notar no “Jornal da Nação” uma abordagem não tão focada no futebol, mas no clube como um todo (falando mais de uma vez sobre o Basquete, Ginástica, Remo e até Futsal), além de um grande espaço voltado para o torcedor comum, com transcrição de trechos do que é escrito na comunidade do Flamengo no Orkut. Já o “Jornal Vencer” se utiliza de expedientes próximos aos do diário Lance, como seções de interação com o leitor (fotos de torcedores, enquetes, etc), um colunista (Rodrigo Mandarini, ex-Lancenet e “Fanáticos por Futebol”) além de seções mais completas sobre o futebol nacional e notícias gerais. Para não fazer injustiça, o “Vencer” também fala sobre basquete, ginástica e afins. Publicidade, eu só vi uma, no “Jornal da Nação”.
Ao longo da semana, tentei entrar em contato com os responsáveis pelos dois jornais, por e-mail, mas não obtive resposta. Uma pequena entrevista, contando a respeito das expectativas dos empreendedores, a vendagem que os dois diários vêm conseguindo e etc. seria algo bastante interessante de ser colocado aqui neste espaço. Quem sabe para as próximas semanas? De qualquer maneira, reitero que são duas louváveis iniciativas que podem contar com o apoio na Nação Rubro-Negra. E que mostram o potencial que nossa torcida possui, muitas vezes só enxergado por alguns poucos profissionais excluídos da miopia coletiva que anda se difundindo por estas bandas, conforme tudo o que expus acima.
 
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Meu único receio com relação a esta iniciativa é que as vendagens têm relação direta e visceral com bons resultados. Com o time vencendo, todo mundo certamente sairá ganhando. Mas tempos de vacas magras podem trazer sérios problemas para publicações que falam de um só time (e que, portanto, não podem ser compensados com boas fases de times rivais). Ou alguém aí comprou algum jornal depois da nossa desagradável derrota de domingo passado....?
 
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          Mesmo com a vitória do Fluminense ontem à noite tendo praticamente sacramentado a eles a primeira colocação geral da fase de grupos da Libertadores, isso em nada muda nossa vida. Uma vitória simples contra o Coronel Bolognesi, quarta que vem, no Maraca, muito provavelmente nos levará à segunda colocação geral (apenas dependendo do resultado da partida Colo Colo x Atlas). Ou seja, teríamos a vantagem de decidir todas as partidas de volta na fase de mata-mata em casa, menos num possível encontro com o Fluminense. Mas os jogos contra eles, por natureza, já seriam realizados nos Maracanã! Sendo assim, ficar em segundo será o mesmo do que ficar em primeiro. 
 
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          Já que o Ricardo Perez gostou, e conforme eu já havia escrito em uma outra coluna de minha autoria (http://www.fanaticosporfutebol.com.br/falafanatico/noticia.asp?cod1_cod=112256&cod1_area=279&cod1_tipo=8), o Mengão é um T-Rex, minha gente. Predador. Precisa ir à caça, ter objetivos, sem que o alimento o seja entregue de bandeja, pois desta forma, ele a recusa. Essa de ganhar o campeonato com antecipação, ou mesmo de ser considerado favorito ao título, não é nem nunca foi nossa praia. Que os dois pequenos os Rio se degladiem neste domingo, e venham quentes. Nós, certamente, estaremos fervendo.
 
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          Conforme o grandioso Sidney Bastos adiantou em sua coluna, trocaremos de lugar, e eu passo a escrever às sextas, pois vinha encontrando dificuldades em postar meus textos aos sábados, por motivos pessoais. Agradeço à compreensão do Sidney e reitero que isso aqui é realmente uma família, onde usualmente os mais novos encontram refúgio, conforto e boa vontade na voz e nas atitudes dos mais experientes.

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