Amigos rubro-negros, ninguém gosta de perder, muito menos jogando em casa, muito menos ainda para o Atlético-GO, com todo respeito que esta equipe merece, e pior ainda tomando um sacode de 4 x 1. Como escrevi semana passada, num campeonato longo e equilibrado como este, foi uma façanha ficarmos dezesseis rodadas sem perder, o que significa que todos, torcida, elenco, comissão técnica e diretoria, deveriam estar preparados para que quando acontecesse, esta derrota não se transforme numa crise no Flamengo. Portanto, como muito bem falou o Ronaldinho para o restante do elenco, vamos levantar a cabeça, seguir em frente e, principalmente, aprender as lições deixadas por este jogo.
DESASTRE AÉREO
A derrota de quinta-feira pode ser comparada a um acidente aéreo no sentido de não haver uma causa única, mas um somatório de fatores que combinados resultaram no desastre que vimos. É inegável que o Luxemburgo, apesar de todo o crédito que tem pela nossa campanha, quis inventar ao escalar um time que praticamente não havia treinado; é evidente também que independente de esquema, nenhuma escalação funciona com um nível tão baixo de atuação individual dos 14 jogadores que entraram em campo. Entretanto, na minha modesta opinião, a causa principal deste desastre foi o cansaço sentido pelo time depois desta maratona que o time vem se submetendo, lembrando sempre que quando digo cansaço me refiro tanto ao físico como ao emocional.
Há muitos jogos o time vem caindo de produção. Não jogou tão bem contra o Coritiba, contra o Atlético-PR também não. Contra o Figueirense apesar de ter posto 2 x 0 no placar não estava jogando bem nem teve pernas para segurar o marcador e no último jogo foi aquela desgraça..
Como não vamos mudar a tabela de jogos daqui para frente, acho que o Luxemburgo é experiente o suficiente para saber que precisa fazer um rodízio de jogadores de modo que num espaço de 15 dias cada um atue no máximo em 4 partidas, mas aí ele esbarra na limitação de nosso elenco. Não temos reservas à altura (técnica e experiência) dos titulares no gol, nas laterais e no meio-de-campo, estes dois últimos os setores de maior desgaste. Falar do elenco fica como assunto para uma próxima coluna.
RONALDINHO É SELEÇÃO
Prefiro não perder tempo tentando responder às perguntas que não querem calar com relação à convocação da seleção brasileira. Seria coincidência a convocação, única inclusive, do Thiago Neves para seleção deixando-o de fora do jogo do Flamengo contra o Corinthians no primeiro turno? Da mesma forma, seria coincidência a convocação do Ronaldinho Gaúcho para seleção para um jogo amistoso contra a poderosa seleção de Gana, 36ª colocado no ranking da FIFA, dois dias antes, agora três, do importante jogo do Flamengo contra o Corinthians no segundo turno, num momento que o discurso é de renovação da seleção?
Independente das respostas a estas indagações e mesmo ciente dos riscos que esta convocação possa nos trazer, não apenas por não poder contar com nosso principal jogador no jogo contra o Bahia em casa, obrigação nossa de ganhar, como também por uma eventual acomodação do Ronaldinho ao saber que já é quase que unanimidade na seleção, temos que entender que para o Flamengo e para a visibilidade da marca Flamengo é muito bom ter nosso principal jogador vestindo a camisa 10 da seleção. Gostaria que outros nossos jogadores também fossem convocados. Comparando com os convocados pelo Mano Menezes, não seria injustiça se Leonardo Moura, Junior Cezar, Williams e Thiago Neves estivessem nesta última lista.
Por outro lado, se houvesse bom senso na CBF, combinação (CBF e bom senso) quase que impossível, para este amistoso não deveriam ser convocados os jogadores que atuam no Brasil, optando por experimentar jogadores que atuam na Europa até porque em setembro teremos dois amistosos contra a Argentina quando somente poderão ser convocados jogadores que atuam no Brasil. Para que submeter estes jogadores para uma longa viagem e ainda ao efeito de um fuso-horário para apenas uma partida ? Para que convocar 23 jogadores sendo 3 goleiros para uma partida ?
O erro maior, no entanto, não foi a convocação do Ronaldinho Gaúcho e de outros jogadores importantes de outros clubes que disputam o Brasileirão. O erro é ter a seleção competindo com os clubes; o erro é ter rodada do principal campeonato do país numa data FIFA, definida com muita antecedência, datas estas reservadas para jogos entre seleções.
CALENDÁRIO
Como vimos acima, a causa comum entre o cansaço do time e este conflito de interesse entre clubes e seleção é o nosso belo e querido calendário que impõe aos clubes e aos jogadores um regime quase de escravidão ao poder da CBF e da TV.
Mal eles sabem que estão matando a galinha de ovos de outro deles, sacrificando atletas a uma maratona de jogos e competições que resultam na queda de qualidade do espetáculo e consequentemente afastando do público não apenas do estádio como da frente da TV.
Quem não acompanha futebol de perto não consegue entender. Na quinta-feira tem Vasco e Palmeiras pela Copa Sulamericana e no domingo seguinte o mesmo jogo pelo Brasileirão. Ontem, teve Botafogo e Atlético-MG pelo Brasileirão e na próxima terça-feira tem o mesmo jogo só que pela Copa Sulamericana. Nos últimos 30 dias, o Flamengo jogou contra Palmeiras, Ceará, Santos, Grêmio, Cruzeiro, Coritiba, Atlético-PR, Figueirense e Atlético-GO. Quem suporta manter o mesmo nível durante toda esta maratona?
Nesta escravidão do futebol, tanto os clubes como os jogadores têm sua parcela de culpa por se sujeitar a este modelo. Se ambas as categorias fossem mais organizadas e unidas um basta já teria sido dado nesta situação que só faz despencar a qualidade de nossos jogadores e consequentemente dos nossos times e do nosso futebol. Vide nossa seleção.
Ano após ano, todos se queixam da janela de transferência para a Europa, mas ninguém propõe ou planeja alinharmos nosso calendário ao do futebol europeu que, gostem ou não, é o centro mundial do esporte e onde estão concentrados os clubes mais poderosos. Todos se queixam do baixo nível dos campeonatos estaduais, mas ninguém propõe uma alternativa de, senão eliminá-los, pelo menos reduzi-los em número de participantes e em duração. Não vou me estender agora numa análise sobre este calendário, ficando também como tema para uma próxima coluna.
Ninguém pode, portanto, reclamar desta situação, com exceção de nós torcedores, ou melhor, clientes deste mercado da bola que exige de forma irreversível um profissionalismo ainda muito distante da nossa realidade.
Infelizmente.
Saudações rubro-negras.