Autor: Marcio Neves - RJ
Amigos rubro-negros, semana bastante conturbada depois de mais um insucesso na Libertadores, deixando-nos no CTI da competição mais importante do ano. Digo mais importante na minha opinião e, acredito, na maioria dos nossos torcedores, mas não na visão da nossa diretoria e da comissão técnica. Portanto, a vitória sobre o Vasco nada muda nossa situação.
É normal que a torcida solte os bichos em cima da presidente Patrícia Amorim, do técnico Joel Santana e do Ronaldinho Gaúcho. Faz parte da nossa cultura e não temos muito como fugir disto. Que a presidente cometeu seus erros é inegável, mas falar em renúncia ou impeachment é golpe, a menos que se comprovem fatos de improbidade administrativa. Sempre reclamávamos dos salários atrasados, da falta de estrutura, das engenharias financeiras envolvendo nossos jovens valores e outras coisas. Pois bem, os salários de jogadores e funcionários em sua gestão estão em dia, com exceção dos direitos de imagem do Deivid que ficou alguns meses sem receber por estratégia da diretoria em querer forçar uma negociação, o CT já apresenta condições para treinamento em tempo integral e o módulo definitivo para o time profissional estará concluído até o final do ano e nossos jogadores da base não foram envolvidos em nenhuma negociação. Concordo que o futebol está sem comando, mas atribuir isto apenas a esta gestão parece até que o Flamengo nos anos anteriores havia ganho muitas Libertadores e Brasileiros. Nossos problemas são muito mais complexos do que uma simples troca de presidente, de treinador ou de jogadores pode sugestionar.
Por que cada treinador que chega com mudanças na estrutura de treinos da equipe não dura muito? Foi assim com Cuca em 2005 e em 2009, assim como com outros treinadores, inclusive o próprio Luxemburgo teve dificuldades neste sentido nas suas últimas duas passagens pelo clube, em 1995 e no ano passado. Entendam que isto não começou na gestão da Patrícia nem com a chegada do Ronaldinho. Provavelmente, esta será mais uma gestão que passou e não conseguiu mudar isto que vem de anos, ou quem sabe, décadas e se não revertermos será muito difícil termos novamente um time competitivo e que esteja sempre disputando os títulos das principais competições.
Não preciso gastar muitas linhas para mostrar que já está mais do que provado que o esporte de alto desempenho exige muita preparação física, muito treinamento e muita aplicação. Camisa não ganha mais jogo; torcida pode ajudar num jogo, mas para ganhar campeonato precisa-se de mais. O jogo é resultado do que se treina. Para quem se interessa pelo assunto posso dar duas recomendações de leitura, os livros “Outliers – Os Fora de Série”, de Malcolm Gladwell, e “Transformando Suor em Ouro”, do Bernadinho.
É lógico que temos algumas carências individuais no nosso elenco, mas não vejo nosso elenco abaixo dos demais times grandes do país. Apenas o Santos tem um elenco melhor em quantidade e qualidade de jogadores. Nossa maior carência é de treinamentos, em todos os sentidos. Trabalho, trabalho e trabalho. Para quem ainda não entendeu o que quero dizer, basta ver que nos últimos Campeonatos Brasileiros nosso desempenho sempre cai na fase do campeonato quando temos jogos domingos e quartas pela queda do nosso preparo físico. Muitos jogadores que já passaram pelo clube afirmam que lá se treina pouco em relação aos demais clubes, tentando justificar porque não renderam no Flamengo.
A imagem abaixo é uma das que mais me irritam e revoltam. Sempre às vésperas dos jogos vemos estas fotos nos principais blogs. O tal do rachão. Uma ressalva, ontem véspera do jogo contra o Vasco não vimos esta foto porque simplesmente não tivemos treinamentos. Para quem nunca assistiu, eu já tive a oportunidade de estar na Gávea num dia desta autêntica pelada, na qual jogadores atuam fora de sua posição sem qualquer ganho para o desempenho coletivo da equipe. Com a desculpa de que em véspera de jogo não pode expor jogadores ao desgaste físico, esta pelada é disputada num ritmo que daria muito bem para um treino de posicionamento de defesa, de jogadas ensaiadas e muito mais.

Por que jogar contra o Bangu com o time titular sabendo-se que três dias depois teríamos um jogo decisivo pela principal competição, de novo na minha modesta opinião, ainda com uma longa viagem? Para quem não sabe, Vasco, Inter e Santos, que também tinham jogos na Libertadores no meio de semana, jogaram com times mistos na última rodada do estadual para pouparem suas principais peças. O Fluminense também tem sempre poupado seus jogadores mais desgastados por priorizar a Libertadores.
Este foi, a meu ver, o grande erro da nossa trajetória na fase de grupos desta competição. Sem querer desmerecer um título estadual, comparar um título internacional com um regional é uma amostra do quanto estamos longe do profissionalismo que queremos. É simples: no primeiro semestre, a principal competição é a Libertadores ou, para quem não a disputar, a Copa do Brasil; no segundo semestre o Campeonato Brasileiro ou o Mundial de Clubes, se for o caso. Esta é a regra nos principais clubes do país.
Na coluna passada, defendi que não jogássemos com os titulares contra o Bangu pela Taça Rio por já ter percebido em vários jogos uma acentuada queda de desempenho no segundo tempo dos jogos. Isto mais uma vez aconteceu no próprio jogo contra o Bangu e mais uma vez no jogo contra o Emelec. Não posso garantir que ganharíamos da equipe equatoriana, mas não seria mais produtivo ter treinado forte no sábado, domingo e segunda, viajado na terça e jogado na quarta?
Quanto ao treinador, quem acompanha minhas colunas sabe que não morro de amores pelo Joel Santana, ou melhor, pela sua concepção de jogo. Serei eternamente grato a ele pelo milagre de 2005 quando estávamos virtualmente rebaixados e, mesmo assim, ele teve coragem de assumir o desafio e reverter a situação. Falar dos seus erros na partida de quarta-feira é repetir tudo o que já foi dito e escrito por aí. Uma observação importante é quanto ao seu estado físico. Fruto do seu problema no quadril, Joel está bastante acima do peso e com muita dificuldade de locomoção. Será que isto não prejudica o seu desempenho nos treinamentos?
Independente da classificação para as Libertadores e finais do Carioca, a diretoria deve definir agora se Joel é ou não o treinador com o perfil desejado para o time de modo a promover uma eventual troca o mais cedo possível e não esperar o início do Brasileiro para efetuar esta troca. Confirmando a eliminação da Libertadores, teremos até o mês de julho jogos apenas no final de semana. Esta é a grande oportunidade de treinar forte e preparar o time para o Campeonato Brasileiro.
Em relação ao Ronaldinho, não quero entrar no mérito se ele vale tudo que ganha, pois se assim fosse teríamos que dispensar quase que todo o elenco. Definitivamente os clubes brasileiros estão fora da realidade ao pagar estes salários sem ter uma estrutura de receita consolidada, criando uma verdadeira bolha. Por isso, se a decisão fosse se vale a pena contratar um jogador na fase atual do Ronaldinho pagando o salário que ele ganha e com seu comportamento, minha resposta seria não. Não vale a pena, a exemplo do que opinei em relação ao Adriano.
Mas a questão não é essa. Temos um jogador com contrato até o meio de 2014. Pelo histórico, vemos que nestas situações de rescisão o Flamengo sempre é quem sai perdendo. Lembrem-se do caso Romário e Pet, quando o clube saiu com uma imensa dívida. Portanto, temos que saber como viabilizá-lo com a diretoria cobrando um comportamento mais profissional dentro e fora do clube.
Não devemos esperar o Ronaldinho do Barcelona, no seu auge, mas queiram ou não tem qualidade técnica muito acima da grande maioria dos jogadores. Também não podemos atribuir a ele a responsabilidade por todas as mazelas que ocorrem ao nosso time, como opções equivocadas de treinador, erros na defesa e limitações do nosso meio-de-campo.
Em relação ao seu desempenho em campo, cabe ao treinador exigir que ele se movimente mais, saindo daquela faixa no lado esquerdo do campo buscando sair da marcação, que evite aqueles dribles desnecessários na nossa intermediária que tem constantemente gerado contra-ataques perigosos dos adversários e até o substitua durante as partidas, quando necessário. Lembrem-se que após o Luxemburgo tê-lo retirado de campo no ano passado que ele subiu de produção.
Como atleta, quando ele não for treinar ou se atrasar, a diretoria deve notificá-lo por escrito da falha e multá-lo em seus vencimentos. Sabe-se que isto tem pouco efeito no comportamento destes jogadores, mas pode legalmente ser útil num eventual futuro processo de justa causa. Quando ele comparecer para treinar alegando “dores” e optar por ficar na “musculação”, a comissão técnica (médicos, preparadores físicos, fisioterapeutas e treinador) deve avaliar se convém afastá-lo do próximo jogo visto não ter treinado adequadamente. Além disso, a diretoria não precisa ter a preocupação de esconder suas falhas, pelo contrário, deve deixar público de modo que não haja dúvida quanto à postura do clube.
Na parte financeira, como nosso Departamento de Marketing não funciona, precisamos fazer uma parceria com uma agência profissional de marketing, dando um percentual na ordem de 10%, do que conseguir como patrocínio do Ronaldinho. Apesar dos pesares, Ronaldinho ainda tem apelo comercial principalmente junto às crianças e nos mercados sulamericano e asiático.

Parece óbvio, e é mesmo. O que estou sugerindo é simples e básico num regime profissional. Se vai dar resultado ou não é outra história, mas vai ficar claro para os outros jogadores e para o próprio mercado que o clube tem regras e ordem. O que não pode é ter esta percepção de que nada é feito para impor limites a um funcionário do clube.
Saudações rubro-negras.
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Marcio Neves
19/05/2013