Análise: Vitória do Flamengo funciona como síntese do Estadual até aqui

Análise: Vitória do Flamengo funciona como síntese do Estadual até aqui

Um Raulino de Oliveira criminosamente vazio viu uma síntese do Campeonato Carioca até aqui. Salvo os minutos que sucederam o gol de Kieza, que fez pairar um mínimo de incerteza sobre a semifinal, o restante do clássico foi um monólogo do Flamengo. Um time que jogou metade da fase de grupos com juniores e reservas, foi acrescentando aos poucos seus principais jogadores e vai à final da Taça Guanabara quase sem ser incomodado, salvo no 0 a 0 com o Vasco. Um roteiro repetido neste sábado: o Botafogo não incomodou, simplesmente porque não tem forças para competir, neste momento, com o rival. Dois clubes em diferentes realidades econômicas e, por consequência, técnicas. Os 3 a 1 levam o Flamengo à decisão com o Boavista, no domingo, como natural favorito.

O Botafogo — que aparentemente promoveu um treinador caseiro sem convicção, perdeu peças importantes, tem pouco dinheiro para repor e apostou que a simples repetição da fórmula que funcionou com Jair Ventura daria os mesmos resultados — agora recomeça 2018. Demitiu Felipe Conceição com menos de um mês de temporada. Impossível dizer, hoje, que nível atingiria seu trabalho. Além de o contexto ser hostil para um iniciante, o tempo impede qualquer conclusão definitiva sobre seu potencial. Ontem, exibiu-se um Botafogo que não dá sinais de reação, de montagem de um time, como se fosse um choque de clubes de portes distintos. Mas é cedo para decretar se o problema é o jovem técnico ou a qualidade do elenco montado.

O Flamengo dá bons sinais. O 4-1-4-1 de Carpegiani privilegia a qualidade técnica, com a tentativa de reunir Éverton Ribeiro, Diego, Lucas Paquetá e Éverton, tendo apenas Cuéllar por trás. Diego e Ribeiro alternam posições pela direita: um mais aberto, outro mais pelo meio. Paquetá e Éverton fazem o mesmo pela esquerda, e o time ganha mobilidade, triangulações e opções de passe pela lateral ou pelo centro. É verdade que, apesar do domínio avassalador, demorou a ter chances claras que não fossem em cruzamentos, a maioria em bolas paradas, como a falta que Diego bateu para Éverton cabecear e abrir o placar. Por vezes, ainda falta atacar mais a área. Mas o volume era tamanho que o gol parecia questão de tempo diante de um Botafogo diminuído, impotente.

PAQUETÁ SE DESTACA

Carpegiani fez duas intervenções que impactaram o Flamengo. Uma, fazer Éverton recompor defensivamente pelo meio, usando sua vitalidade para compensar características de Diego e Éverton Ribeiro, por exemplo. Outra, dar liberdade a Paquetá na hora da armação. Seja atacando como ponta, seja construindo pelo meio. Ele e Cuéllar faziam a bola sair de trás bem jogada, mas são de Paquetá as atuações mais impressionantes deste início de ano. Num segundo tempo em que só o Flamengo jogava, ele participou do gol do estreante Henrique Dourado e duas jogadas que pararam em Jéfferson. O gol, aliás, começou em bom lançamento de Cuellar.

O Flamengo tem questões a resolver, ainda. Joga com uma zaga lenta e um volante de mais técnica do que força. Tenta ocupar o campo rival, defender-se com a posse de bola e pressionar à frente para ser menos incomodado atrás. Mas o estilo exige intensidade, algo que nem todos os meias do time têm. Resta saber como o Flamengo reagirá ao ser mais pressionado atrás.

Quando Renatinho achou Kieza, aproveitando a liberdade à frente da área e a lentidão defensiva do Flamengo — Réver, àquela altura, também sofria com um mal-estar —, o Botafogo achou seu gol e ensaiou uma reação. Fisicamente, o Flamengo sentia. Mas o alvinegro criou pouco e, gradativamente, perdeu a fé em suas possibilidades. Chegou ao fim do jogo exibindo, novamente, traços de um time abatido. Até Vinícius Júnior, com espaço generoso, acertar chute de enorme categoria e fechar o jogo. Na comemoração, resgatou o gesto do “chororô", irritou alvinegros e viu a semifinal terminar em ofensas e ameaças de agressão.


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