Quando iniciou o processo de saneamento das finanças e passou a se reforçar, o Flamengo tinha uma meta bem definida: conquistar a hegemonia do futebol brasileiro e sul-americano. Mas a temporada que deveria ser de consolidação teve caminhos tortuosos, seja pela ausência de torcedores na arquibancada devido à pandemia, seja pela saída de Jorge Jesus — a mudança na filosofia de jogo derrubou o sucessor (Domènec Torrent) e levou a torcida a questionar o atual (Rogério Ceni).

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Hoje, o Flamengo entra em campo no Morumbi para o desfecho de uma temporada acidentada, mas que ainda assim pode terminar em festa, corrigindo a rota desse time que encantou o continente em 2019. Mas, como nada tem sido fácil nesta jornada rubro-negra, o adversário é o São Paulo, de lembranças amargas recentes, e onde Ceni é ídolo. Se vencer, o Flamengo confirma o bicampeonato. Em caso de derrota ou empate, precisa torcer para que o Internacional não vença um jogo em que é favorito contra o Corinthians, no Beira-Rio — apenas dois pontos separam os dois (71 a 69).

Ontem, a torcida promoveu aglomeração, com muitos torcedores sem máscaras, no embarque do time para São Paulo.

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A radiografia do ano do Flamengo passa pela avaliação do trabalho de três técnicos. Jorge Jesus, que não terá seu nome escrito no possível título de 2020, deixou uma espécie de herança, que se solidificou como uma nova alma rubro-negra traduzida na forma de jogar. Dome e Ceni, seus sucessores, precisaram lidar com essa sombra, sabendo ser impossível de copiar.

 

A herança de Jesus

Igualar a campanha da edição passada do Brasileiro, quando o Flamengo foi campeão com incríveis 90 pontos, já seria tarefa árdua em condições normais. Após dois meses de paralisação por conta da Covid-19, que motivaram a saída do técnico, e a proibição da torcida no Maracanã, o parâmetro virou outro. Embora as expectativas do torcedor não tenham sido reduzidas, “Brasileiro é obrigação” foi o mantra mais uma vez.

O Flamengo encerrou o último campeonato com 78,9% de aproveitamento. Jesus comandou a equipe em 28 jogos, com 22 vitórias e apenas duas derrotas (83% dos pontos). Em 2020, o Brasileiro começou com o espanhol Domènec Torrent, que chegou com mais duas competições em disputa. Na prática, o ex-auxiliar de Guardiola não teve tempo nem capacidade de implementar suas ideias em meio ao insano calendário brasileiro, inchado pela pandemia. O estilo de jogo com intensidade, marcação alta e segurança defensiva de Jesus deu lugar a uma tática mais posicional, que demorou para ser compreendida pelos atletas. O time, então, se desajustou.

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Em 20 jogos no Brasileiro, Dome teve 58% de aproveitamento. O Flamengo com ele fez 33 gols (1,65 por jogo) e levou 29 (1,45 por jogo). É preciso ressaltar que o surto de Covid-19 no elenco afetou quase vinte atletas.

Quando chegou, em novembro, Rogério Ceni se deparou com o grupo todo recuperado, e contou com o retorno de Gabigol, que vinha de grave torção no tornozelo. Eliminado da Copa do Brasil em uma semana, e da Libertadores um mês depois, conseguiu se concentrar no Brasileiro.

Em 17 jogos, obteve 11 vitórias, três empates e três derrotas (70% de aproveitamento). Com Ceni, o Flamengo fez mais gols (2,1 por partida) e sofreu menos (1,05 por jogo). A equipe passou a atuar com Bruno Henrique aberto pela esquerda, mas com liberdade para se aproximar de Gabigol por dentro, semelhante ao esquema de Jesus. Outras alterações autorais foram as entradas de Diego Ribas no meio-campo e o recuo de Willian Arão, que está machucado, para atuar como zagueiro —  ontem, recuperado de lesão no tornozelo, Rodrigo Caio treinou normalmente e deve jogar.

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Ceni, assim como Dome, tentou dar a sua cara ao time. O primeiro teve mais tempo e mais respaldo para conseguir. Independentemente do resultado de hoje, Ceni tem boas chances de emplacar na temporada 2021. Além do desempenho no campo, pesa a favor do ex-goleiro o trabalho tático no dia a dia, a relação com os jogadores e o entendimento do futebol brasileiro. Jesus, pressionado no Benfica, só será opção se for demitido e o trabalho de Ceni não tiver a sequência esperada em 2021. Como a perspectiva é de um calendário apertado, não é possível dizer o treinador que acabará de esculpir o time do Flamengo em 2021. Quem quer que seja, terá o desafio de tirar do elenco o que não foi extraído em 2020. Ou de manter o clube na trilha dos títulos, ainda que não repita o ano mágico de 2019 em campo.

Paulistas coadjuvantes

O São Paulo, por sua vez, precisa da vitória, especialmente após a derrota para o Botafogo, para garantir a vaga direta na fase de grupos da Libertadores. Com 63 pontos e na quarta posição, está ameaçado pelo Fluminense, quinto com 61. Caso empate ou seja derrotado, o tricolor paulista precisa torcer para que o Flu não vença o Fortaleza, no Maracanã. Contra o Flamengo, o interino Vizolli não terá Reinaldo e Léo, suspensos. Wellington deve estrear.

No Beira-Rio, se o Inter fará o jogo mais importante de sua temporada, ao Corinthians pouco interessa a última rodada. Sem chances de se classificar à Libertadores e garantido na Sul-Americana, a única motivação para os paulistas é garantir uma boa colocação na tabela para melhorar a premiação. Vagner Mancini não está garantido e pode fazer o seu último jogo no comando.

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Mas se dentro de campo não há tanto interesse, fora existe a pressão da torcida para que o time vença a partida pela rivalidade com o Internacional, cultivada desde o Brasileiro de 2005.

Diante de dois coadjuvantes paulistas com ambições distintas, Flamengo e Internacional jogam seu destino. A CBF enviou ontem duas taças de campeão, uma para o Morumbi e outra para o Beira-Rio. Apenas uma será erguida. Seja por um time que tenta reconquistá-la após 41 anos ou por outro que, depois de uma longa jornada, pode reencontrar o caminho com que se habituou antes da pandemia: a alegria de empilhar títulos.