Julio Cesar se despede do futebol em partida do Flamengo: 'Eu tenho que me orgulhar'

Julio Cesar se despede do futebol em partida do Flamengo: 'Eu tenho que me orgulhar'

Antes de atender o EXTRA, goleiro Julio Cesar fez alguns minutos de massagem na coluna. Mais do que qualquer atacante, o problema físico foi o que o fez assumir que era hora de parar, aos 38 anos. E de falar pela última vez em uma entrevista como profissional.

Como essa semana passou?

Turbilhão de sentimentos e emoções. Várias entrevistas com retrospectiva da minha história, o que eu conquistei em 21 anos de carreira. Envolve família, amigos. Já chorei em todos os canais. Só estou chorando. As pessoas me conhecem não é de hoje. Já apelam.

Você teria parado antes se não tivesse vindo?

Sim, teria pendurado as luvas. Como o clube aceitou o projeto, fiquei feliz. Muitos amigos e parentes falaram que eu não poderia encerrar sem ser no Flamengo.

Alguém específico te convenceu?

Meu irmão, meu filho Cauê. Disse: “Pai, quero te ver vestir a camisa do Flamengo uma vez”. Isso pesa.

Como você lidou nos últimos anos com o seu problema na coluna? Foi o principal motivo para se aposentar agora?

Desde 2002 lido com isso. Requer muito foco manter o nível. E realmente estava complicado. Sentia dor mesmo com prevenção de academia, alimentação, massagem. Praticamente antecipei a minha parada por causa disso. Foi o fator primordial.

Você pensou em desistir e voltar para Portugal depois do desabafo da Susana? Como fizeram para contornar?

Foi uma situação que ela expôs, eu entendi, mas não gostaria de mexer. Sou reservado. Eu já tinha assinado contrato. Respeitei o momento dela. Não quis levar à frente para não dar assunto. Ficou o que ela disse.

Em entrevista ao "Sportv" você disse que imaginava a chamada no "Jornal Nacional" sobre a sua morte como “O goleiro do 7 a 1”. Mas qual seria a sua chamada e você fosse o editor?

"Morre o ex-goleiro Julio Cesar, ídolo da torcida do Flamengo e que jogou na seleção. E goleiro do 7 a 1, risos". Eu gostaria que em vida lembrassem de mim como um cara amigo, profissional, extrovertido.

Sobre o 7 a 1, curiosidade: não ocorreu na cabeça dele a ideia de cair? você era o único que poderia parar o jogo na avalanche de gols. Alguém sugeriu? Ele que não quis usar tal artifício?

Pensei uma série de coisas. Mas o momento é complicado. Quando você está num assalto de repente, não sabe como reagir, se vai correr, dar tudo. Fica congelado. Foi isso que aconteceu. Não tivemos frieza para raciocinar.

Gostaria de uma despedida também pela seleção por tudo que fez?

Já me despedi, né. Foi um período bacana. As Copas não foram o que eu esperava, mas já passou. Não faria uma despedida da seleção.

Você vai para a Copa do Mundo?

Tenho recebido convites para comentar a Copa do Mundo. Não quero ser comentarista, mas é uma oportunidade.

Vai virar empresário, certo?

Empreendedor. Trabalhar com atleta, mercado imobiliário. Agregar conhecimento e informação para me impor nesse ramo de investimentos. É empresariar realmente, gestão. Tenho uma incorporadora, aqui no Brasil. E o que mais gosto é o mercado financeiro.

Alisson é o melhor nome para o Brasil na Copa? Levaria alguém que não tem sido chamado?

Em todas as Copas sempre o Brasil tem grandes nomes. O terceiro goleiro fica em aberto. O Alisson vive grande momento. Chega para jogar a Copa com confiança. O Ederson eu acredito que está no mesmo nível. Por fora o Cassio, Vanderlei, o Grohe. Tem o Neto. O Diego Alves se lesionou e perdeu espaço, infelizmente.

Qual seleção tinha mais condição de ganhar a Copa? 2010 ou 2014?

A de 2010, porque fez uma boa eliminatória.

Qual seu lugar na história do futebol? A altura de quem, por exemplo?

Por tudo que vivenciei, de desce e volta para o topo, só não me coloco entre os feras porque não ganhei uma Copa do Mundo. Se tivesse ganho me colocaria. Ao lado do Buffon, Cassillas, Neuer, etc. Apesar de não dever nada tecnicamente. As conquistas ditam e te posicionam na história. Se o Messi ganhar a Copa vão comparar ao Maradona e dizer que foi melhor. Não igualam por isso. No Flamengo, vale o mesmo. A idolatria seria como a geração de 1981. As pessoas dizem que sou o ídolo depois do Zico, mas não me considero. Vários conquistaram coisas mais grandiosas. Se tem 40 mil na despedida é pelo que eu segurei no passado. O goleiro chama atenção por isso. É mais de destaque, positivamente e negativamente. No 7 a 1, as pessoas não me ligam a derrota porque eu podia fazer pouco. Mas o goleiro fica marcado, não tem jeito.

O que foi o Flamengo na sua vida?

Tudo.

Gostaria de ter sido mais ídolo?

Gostaria de ter ganho uma Copa do Mundo. Essa coisa da idolatria não me envaidece. Não tenho noção. Principalmente no Flamengo. E eu tenho que me orgulhar.