Cobramos tanto um futebol jogado em compasso com o que se vê na Europa e, nem sempre, é possível fazê-lo no plano da qualidade individual, o que se explica pela lógica financeira. Mas ideias não custam dinheiro. Um país aberto ao conhecimento pode elevar seu nível e jogo e ter mais duelos fascinantes como o de ontem, no Maracanã.

Ainda que com erros naturais de trabalhos iniciantes em um calendário atípico, aconteceu um jogo atraente, tática e estrategicamente riquíssimo. Talvez o torcedor do Flamengo tenha se desacostumado a lidar com resultados assim. Mas o jogo deixa duas mensagens.

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A primeira, de que Domènec Torrent parece mesmo disposto a propor mudanças gradativas. O que é boa notícia: enquanto teve mecanismos mais próximos aos de Jorge Jesus, o Flamengo foi melhor em boa parte do primeiro tempo e só saiu perdendo para o Atlético-MG por desperdiçar chances claras.

A outra mensagem veio na parte final: o time se complicou quando Torrent tentou conduzir o jogo para um terreno que lhe é mais familiar. Seu Flamengo terminou num ousado 2-3-5 ao atacar, mais próximo de um jogo posicional, distinto do que fazia Jesus, com dois pontas tentando abrir campo, laterais como meias e cinco homens ofensivos. Uma mistura de inadaptação à ideia e um aparente desgaste físico surgiram. Talvez tenha sido um remédio em dose muito alta. O Atlético-MG foi ligeiramente melhor na segunda etapa, mas o placar foi bem cruel com os rubro-negros.

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Havia, ainda, um contraste: perseguidor do Flamengo no ano passado e um obsessivo do jogo, Sampaoli provavelmente projetou o duelo de ontem por um ano. Tem este Flamengo na cabeça. E Torrent acaba de chegar.

O primeiro tempo teve muitas disputas entre saídas de bola e pressões no campo ofensivo. Por 15 minutos, o Flamengo se viu preso. Sampaoli usou Gabriel num híbrido de volante e zagueiro e foi atrevido como de hábito. Seus dois pontas pressionavam Rodrigo Caio e Léo Pereira, enquanto Nathan, falso centroavante, bloqueava Arão. Os meias cuidavam dos laterais e quebravam-se as conexões do Flamengo.

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Torrent, que mantinha o sistema de Jorge Jesus, aos poucos fez seus meias, em especial Everton Ribeiro, moverem-se para o centro, no espaço às costas de atacantes e meias atleticanos que pressionavam na frente. Deu certo, e o Flamengo se fartou de atacar em velocidade uma defesa avançada: Gérson, Everton ou Arrascaeta faziam Bruno Henrique explorar sua velocidade contra um exposto Igor Rabello. O rubro-negro também passou a sufocar a saída de bola rival, em especial Gabriel, desconfortável na função. Mandava no jogo quando sofreu o gol.

Tanto é verdade que Sampaoli, ainda antes do intervalo, tirou Gabriel e colocou Jair, este um meio-campista de origem. O Flamengo ainda criava, até outra mudança deste jogo de pranchetas. Sampaoli colocou um terceiro zagueiro em campo e protegeu Igor Rabello, ganhou um time mais sólido e controlou o jogo. Até Torrent decidir mexer e expor algo com que Jesus conviveu: o elenco rubro-negro não tem meias ofensivos reservas.

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Ao tirar Arrascaeta e Everton Ribeiro, o catalão apresentou um novo jeito de pensar ao Maracanã: um 2-3-5 ao atacar, algo habitual, por exemplo, nos times de Guardiola. Mas teve que fazê-lo com Rafinha e Filipe Luís como meias junto a Arão. Michael e Bruno Henrique eram os pontas, com Pedro e Gabigol no centro do ataque, mais a aproximação de Vitinho. Mas o time já não jogava bem.

O resultado foi pior do que o desempenho do Flamengo e o estranhamento com as substituições parece mais um choque cultural de parte a parte. Este, só o tempo vai curar. O Atlético-MG pode até vir a ser um rival direto pelo título, mas o campeonato não se decide na primeira rodada.

A largada tricolor

É verdade que o Fluminense perdeu para um time com ambições maiores do que as dele no Brasileiro. Mas ficou claro que há problemas a resolver, um deles fazer o time agredir mais, sair da defesa ao ataque mais rapidamente. De bom, o time mostrou as atuações de Dodi e a conexão habitual entre Marcos Paulo e Evanilson. Mas foi lento para sair da defesa ao ataque e teve grande dificuldade de construir.

Torneio negacionista

Duas conclusões emergem do Goiás x São Paulo que não foi jogado ontem. A primeira, o desafio que é fazer um Brasileirão num país que está longe de lidar bem com a pandemia — e o futebol apenas seja retrato de uma sociedade que abandonou a prevenção. A outra, que o protocolo da CBF apresenta brechas e precisa ser revisto. O do Campeonato Carioca, açodamentos à parte, funcionou melhor.

Um time, dois jogos

Quando o Barcelona entra em campo, em geral há dois jogos: o de Messi e o dos outros 21 presentes. Em seu jogo, o astro argentino fez o habitual, o bastante para dar a vaga aos catalães. No outro jogo, De Jong deu as cartas brilhantemente. Mas nem o brilho dos dois tira a impressão de um Barça sem ritmo com a bola, lento, fazendo força demais para criar. Não chega a Lisboa como favorito. Mas tem Messi...