Pela segunda vez seguida, Flamengo campeão brasileiro. Talvez a mais prevista, a mais antecipada das conquistas, ao menos quando se recua ao início da temporada. Mas talvez nenhuma outra tenha tido um roteiro que escapasse tanto ao imaginado e ao imaginável. E um desfecho tão dramático, cardíaco, como poucas vezes o Campeonato Brasileiro viu. Pois imaginem a cena: um impedimento milimétrico e um chute para fora em lance que parecia gol certo decidiram mais um título para o Flamengo, que jogava e perdia para o São Paulo no Morumbi por 2 a 1. E os dois lances aconteceram no Beira-Rio, em Porto Alegre.

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Há algum tempo, estava claro que o campeão deste Brasileiro ficaria na história muito mais por inscrever seu nome na galeria de vencedores do que propriamente pelo futebol jogado. Só que, lá atrás, quando se projetava a temporada, apontava-se com segurança não apenas um Flamengo campeão com sobras, graças a seu requinte técnico, mas também um time que daria mais um passo na construção de uma hegemonia no país. Só que há algo ainda mais curioso: num ano tão atípico como 2020, seguido por outro tão fora dos padrões como 2021, a nova temporada começará em três dias. E o campeão brasileiro entrará nela com certezas sobre suas virtudes. Mas também com inúmeras dúvidas. 

Por um lado, pode-se reforçar a sensação de que o Flamengo constrói seu domínio quando percebemos que, mesmo num ano de pandemia e desfalques em série, além de problemas que o próprio Flamengo se impôs com suas oscilações, os desacertos de seu projeto esportivo e as trocas de treinadores, ninguém se habilitou a ficar com a taça. Então, a maior reunião de talentos Brasil foi lá e buscou a taça. Mas, por outro lado, fica a mensagem de que só um elenco tão bom e tão farto poderia não ter bastado. E o troféu ficou a centímetros de escapar.

Sete meses em 90 minutos

Então, por que este Flamengo foi campeão? Porque, embora por linhas muito, mas muito tortas, terminou fazendo valer justamente o argumento que mais embasava, no início do ano, o seu favoritismo: o alto poder econômico construindo um elenco bem acima do padrão brasileiro. Como conjunto, apresentou-se ontem, no Morumbi, um Flamengo que estava longe de parecer um time pronto.

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Foi como se uma temporada, ou ao menos os últimos sete meses da vida deste Flamengo pós-Jorge Jesus fossem resumidos em 90 minutos: momentos de dificuldade, a sensação do caos após sofrer o primeiro gol, a esperança de que a equipe engrenava quando Bruno Henrique empatou e, em seguida, novos desacertos na reta final. E, após o 2 a 1 do São Paulo, o Flamengo se desmanchou por completo. Em dado momento, ficou claro que o título dependia muito mais dos minutos finais do Beira-Rio do que propriamente do Morumbi.

Do jogo de pressão e mobilidade de Jorge Jesus, o Flamengo tentou o Jogo de Posição de Domènec Torrent. Mas não quis esperar que os frutos chegassem e, diga-se, o catalão também patinava. Trocou por Rogério, que oscilou entre a tentativa de emular Jesus, embora esta nãofosse sua identidade, até aos poucos, pareceu se libertar: reconstruir o 4-4-2 campeão em 2019 mas com traços que pertencem a seu ideário de futebol. Veio um time nem tão móvel quanto o de Jesus no ataque, nem tão posicional quanto com Torrent, mas preocupado em ocupar zonas do ataque. O Flamengo ensaiou a arrancada, pareceu partir de forma implacável para o título na reta final, mas aos poucos deixou claro que, após tantas idas e vindas, não há um trabalho pronto. Mas quem tem o tal time pronto no país? Ninguém. Então, os melhores jogadores ficaram com a taça.

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No Morumbi, o Flamengo tentou atacar a linha de cinco defensores do São Paulo com Bruno Henrique aberto na esquerda e Arrascaeta ao centro, mais perto de Gabigol. Produzia muito volume, em especial ao recuperar a bola rapidamente. O jogo era inteiro no campo do São Paulo. Mas, de novo, os mecanismos de ataque não bastavam para furar uma defesa fechada.

Mas se o futebol era insuficiente para um campeão brasileiro, o 1 a 0 que o São Paulo levou para o intervalo também não retratava o jogo. Os paulistas apostavam no contragolpe, mas nunca o tiveram. Num jogo parado de falta em falta, viram um rebote de um córner virar falta e gol de Luciano.

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Foi também na bola aérea que Bruno Henrique empatou um jogo que não mudara de cara. E o Flamengo parecia mais à vontade, pressionando intensamente. Até o erro de Hugo numa saída de bola e o gol de Pablo. Rogério começou a mexer, perdeu Gabigol e colocou Pedro, mas faltava imaginação, clarividência. A esta altura do ano, as pernas exigidas ao máximo cobravam um preço. E o emocional também. Ficava claro que o superfavorito Flamengo encomendara seu futuro ao Corinthians. Totalmente fora do roteiro. Mas, no fim, estavam no pódio os melhores jogadores. Não pela trilha que se fantasiou, com domínio e o encantamento de 2019. Mas é impossível negar que o Flamengo é um justo campeão.