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Márcio Araújo celebra novo contrato e evita desabafo no Fla: ''Tiro de letra''

Volante passa longe de críticas e campanhas contra si na internet e compara caso a cobranças de pais no futebol do filho: "Se é assim com menino, imagina no Maracanã"

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e evita desabafo no Fla: ''Tiro de letra''



Inabalável, Márcio Araújo não altera o tom de voz e a fala mansa. Mantém a serenidade de quem está calejado das críticas no futebol e prefere não rebater ou partir para o combate. A tranquilidade também contrasta com o discurso firme de quem diz confiar em sua capacidade e profissionalismo. Em entrevista ao GloboEsporte.com, após o treino de sexta-feira, no CFZ, o jogador de 32 anos contou que nem passa perto das redes sociais. Mas admite ser impossível ficar imune à avalanche de mensagens ofensivas e tudo mais que vem do mundo virtual. Algo sempre chega. Às vezes não é fácil, mas o maranhense prefere sempre passar batido. Afinal, é com esse jeito mais discreto que alavancou sua carreira. 

Na vida real do jogador, o desabafo - após o time vencer o Santos, disse que merecia aplausos pelo desempenho em 2016 - ficou para trás. Ele celebra que está a poucos detalhes de sua renovação por dois anos com o Flamengo, como contou o próprio jogador. No mais, vê nas críticas mais pesadas reflexo de críticas exageradas que assiste pessoalmente até nos treinos do filho na escolinha de futebol do Barcelona. O pequeno Isaac tem apenas nove anos.


Confira a entrevista com o jogador do Flamengo.

GloboEsporte.com: Após o jogo com o Santos, você desabafou. Estava engasgado com tudo que passou no ano?

Márcio Araújo: Foi uma entrevista normal. Eles (imprensa) não colocam a pergunta, só a resposta. Mas foi um desabafo normal de jogo, de final de ano. Pela temporada que a gente fez. O campeonato que a gente fez ficou marcado para todo mundo, tivemos recordes de ponto no Brasileiro. Todo mundo deu a volta por cima. Ficamos brigando até as últimas rodadas pelo título.

Acompanha as críticas que recebe? Há até campanha virtual contra sua renovação. Vídeos em que apontam falhas até em lances que outros jogadores erram. 

Não vejo nada. Não tenho rede social. Nunca tive. Nunca gostei, não por ser atleta. Mas talvez afete muito mais os meus amigos do que a mim. Eles acabam me passando algumas coisas. Para mim, eu tiro de letra. Não é uma coisa que vai mudar o que eu faço dentro de campo. Como eu me dedico. O que deixa mais tranquilo é que não passo isso (sentir as críticas) para eles. Não vem uma notícia ruim e eu fico remoendo, replicando em cima. Não dou nem bola. Acontece, a gente tem que conviver. Infelizmente, acontece muito mais comigo. Por eu não dar tanta ênfase a isso, por não valorizar muito o trabalho que eu faço. Mas não vai mudar minha vida. Não mudou quando tinha 20 anos, agora com 32… Prefiro agradecer o apoio de todos. Aqueles que têm me apoiado, os que têm me incentivado. Não vou rebater. As críticas me fazem crescer também.  

Esse jeito é algo que vem desde garoto? Você disse, em entrevista ao "Globo", que o seu irmão Paulinho tinha mais talento, mas não levou a profissão a sério.

Ele era lateral-esquerdo, não levou muito a sério a questão de profissionalizar. Para ele, jogar na várzea era bom. Mas tinha muita qualidade. Tanto que todos apostavam muito mais nele. Achavam que iria mais adiante. Mas ele nunca teve isso como sonho, objetivo. Não tinha a qualidade dele, mas tinha o desejo e um sonho de tornar profissional. Acabamos passando por cima de todas as coisas, de todas as dificuldade. Nunca nada nos impediu de sonhar e lutar sempre. Talvez o meu irmão não tenha sonhado, mas estou vivendo esse sonho por ele. Comecei a jogar no salão com 15 anos, fui para o campo com 16 para 17 anos, saí de casa. Não sentia falta de ficar em casa. Claro que sentia saudade, mas não era como meus amigos que não aguentavam e voltavam. A vontade de vencer era muito grande que eu conseguia superar a saudade.

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Mesmo não acompanhando as críticas, acredito que seja impossível não saber delas...

Hoje em dia não tem como não ver as coisas. Mas, como disse, eu tiro de letra. Prefiro não me afetar, nem procuro, nem busco. Hoje mesmo a gente vive uma tragédia que tem abalado todo mundo (refere-se às mortes no voo da Chapecoense). A gente dá tanto valor a coisas tão pequenas, eu não vou ficar me revoltando por conta de protesto. Prefiro agradecer pela vida que tenho. Pelos clubes que passei, por jogar tantas vezes no Atlético-MG, no Palmeiras, por todas as partidas que disputei no Flamengo. Mesmo não sendo unanimidade. Mas isso não importa. Importa o que a gente faz do nosso dia a dia, saber da nossa importância e não se abalar com as coisas de fora.


As defesas dos companheiros de clube, do Zé ao Diego e presidente te confortam?

Nem gosto. Não acho que vai mudar a opinião de ninguém. Quanto mais a gente fala, parece que as pessoas torcem mais contra. Querem rebater muito mais. Não podem aceitar. Preferem criticar, rebater e nunca dar o braço a torcer. Nunca pediria para ninguém me defender. Há coisas que as pessoas não querem enxergar e isso não vai mudar. Se eu quisesse enxergar o que as pessoas falam mal de mim... Já pensou se eu levasse para dentro de campo tudo isso? E carregasse isso comigo? Eu nem andaria em campo. Jogar em grandes clubes e conseguir fazer tantas partidas como eu faço, há de ter uma explicação. Sei que tudo que tenho vivido eu tento agradecer. Tenho uma fé interna, que move as coisas. Não falo de religião. É força minha.

Houve contato da diretoria para dizer: “nada disso abala nossa confiança em você”?

Eles falam comigo, não vou dizer o nome (de quem fala). Mas o maior apoio é a renovação. Estou aqui há 3 anos. Não obriguei ninguém a renovar comigo. Mas acho que meus números, as coisas que tenho feito dentro de campo, não só nos 90 minutos, mas no dia a dia, a conduta, conta muito para que no final tenha um pacote positivo.

Normalmente, carregador de piano não tem reconhecimento. Enxerga desta maneira?

Às vezes querem que a gente faça coisas que, quando a gente faz e estoura lá atrás, sobra do mesmo jeito (para mim). Não tem como agradar todo mundo. Quando a gente vai na área e sobra lá atrás, vão dizer ''onde ele (Márcio) estava''. Quer dizer que se tivesse outro fazendo isso seria bonito. A gente não pode fazer. Como eu falei, não ligo, não me importo. Respeito. Não vou esnobar ninguém. Respeito todo torcedor flamenguista. Respeito aquele que me critica, que acha que eu não devo estar aqui. Mas penso que também tenho ajudado, que tenho qualidade. Que tenho passado algo positivo, senão, não teria renovado nesses três anos que estou aqui.

Como torcedor do Flamengo, você também era crítico, implicava e criticava um jogador?

Isso é muito da pessoa. Eu sempre fui apaixonado pelo Flamengo. Sofria com resultado, com os outros pegando no meu pé quando perdia. Lá na minha cidade tinha muito isso. Paulinho era vascaíno, o outro era palmeirense. Eu chorava às vezes, tinha que sair de casa. Eu sou o mais novo e sofria muito mais. Mas eu não era dessa forma. Hoje eu sei o que passo. Vejo na escolinha que meu filho joga. Um cara que é pai, vê um garoto de nove anos, e fala tudo isso que esse cara fala para o filho… Se faz isso com menino de nove anos, imagina no Maracanã lotado... 

Seu filho se chama Isaac, né? Ele joga no meio de campo também?

Isso. Ele tem nove anos. Joga na mesma posição. É a cópia do pai (Risos).

São três anos no Rio. Você costuma sair por aqui? Existe assédio ou alguma reclamação de torcedor quando você vai à rua?

Eu não sou muito de sair. Só vou fazer o que preciso no shopping. Até brinco com minha esposa quando ela quer sair, eu digo: “contigo não vou”. Ela roda, roda, roda (Risos). Eu quando quero fazer uma coisa, entro dez, 15 minutos, resolvo e vou embora. Ainda mais aqui no Rio que é cheio demais. Não dá não. Gosto de sair com meninos, cinema. Sou muito de praia não. Se fui uma vez aqui no Rio foi muito. Fui em algumas praias no interior, aqui na capital fui uma vez só.

Por que acha que o time perdeu o título nesta reta final?

A gente não foi tão constante como o Palmeiras foi. A gente tinha grandes momentos dentro da partida. Podia fazer dois, três gols, não fazia e o jogo mudava. Tivemos essa fase que marcávamos bem, fazíamos um, dois gols no máximo e vencíamos. No final a gente passou a jogar melhor, mas não concretizamos o nosso momento bom em gols. Mas creio que nosso time melhorou muito mais na parte final em relação à criação do que no início. Mas no início a gente era muito mais constante.




Você teve poucas expulsões na carreira. Aquela contra o Palmeiras foi justa?

Na última falta o Gabriel foi esperto. Eu já tinha amarelo e ele acabou dando um biquinho e se jogando. Mas a primeira que ele me deu cartão, eu toquei na bola, nem falta foi. Acho que não merecia. Mas acontece. Tenho essa expulsão e uma no Palmeiras também. Acabou jogo, todo mundo juntou em cima do juiz por conta de uma cobrança de escanteio que acabou gerando gol. Todo mundo xingando, gritando. Ele acabou olhando para mim. Mas para sair palavrão da minha boca é a coisa mais difícil. Quase impossível. Não lembro a última vez que eu falei palavrão. Aquele dia não falei. E me deu vermelho direto. Acabei vindo pro julgamento, mas fui absolvido.

Qual importância do Zé para o time?

Ele mudou nosso time completamente. Com as visões que ele tem de futebol, de jogo, de tática, de condução de grupo. O Flamengo, no geral, quando ele chegou em um momento difícil da base, acho que existia desconfiança muito grande. Mas logo no início ele jogou isso por terra, mostrou seu valor. Se a gente chegou onde chegou, devemos em grande parcela ao nosso treinador. Ele tem me ensinado bastante. Corrigido algumas coisas, mostrando coisas que talvez eu não enxergasse pela visão que ele tem. Mesmo sendo um treinador jovem, tem muito conhecimento.

Que tipo de coisa ele fala para você?

Ele me pede para prestar mais atenção na visão de jogo em campo. Não ficar somente preso em uma situação. Ver amplitude maior de jogo. Mostra isso individualmente e nos têm feito crescer dentro da nossa qualidade.

Você já disputou a Libertadores pelo Palmeiras. Que dificuldades mais enxerga?

Às vezes, times de fora, que no início da competição, ninguém dá tanta ênfase, nem imprensa, surpreendem. Pela garra e maneira de jogar. É uma competição completamente diferente do Brasileiro. É o máximo que a gente tem para os times sul-americanos. Tanto que as vagas são poucas e todo mundo busca. É uma competição diferente que os clubes sempre priorizam.

Fonte: http://globoesporte.globo.com/futebol/times/flamengo/noticia/2016/12/marcio-araujo-celebra-novo-contrato-e-evita-desabafo-no-fla-tiro-de-letra.html

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