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Na cola de Timão e Galo: San Lorenzo vive ansiedade pela conquista inédita

Único grande da Argentina sem o título da Libertadores, Ciclón viverá nesta quarta o dia mais importante dos 106 anos do clube. Cuervos se desesperam por ingressos

Com seu carnê de sócio número 8086 do San Lorenzo, Marcelo aguarda na fila de uma das bilheterias de atenção ao sócio, na plateia sul do Nuevo Gasómetro. Ele retira o ingresso, o beija, tira fotos, compartilha em redes sociais, aponta aos céus e festeja com o grupo de quatro amigos. A intensidade com que Marcelo viveu o momento em que recebeu a entrada para a final da Libertadores é do tamanho da espera por este momento. Às 21h15 desta quarta-feira, o Ciclón fará com o Nacional-PAR o jogo mais importante dos seus 106 anos de história.
 
Em um de seus famosos cânticos, Marcelo e os outros torcedores do San Lorenzo gritam pelo sentimento que carregam há 54 anos: a frustração por ser o único grande da Argentina sem um título da Libertadores. “Dale San Loré, queremos la Copa, la hinchada esta loca, Ciclón, quiere verte campeón”. Não é em vão que os cuervos estejam loucos por um ingresso para esta quarta-feira, no duelo decisivo da final contra os paraguaios. Não é em vão que acampem dois dias, mesmo que saibam ser difícil ter uma entrada, e escancarem as cores do clube por Buenos Aires.

torcedores San lorenzo  (Foto: Daniel Mundim)Orgulhosos, Marcelo (segundo da esquerda para a direita) e seus amigos exibem os ingressos (Foto: Daniel Mundim)

O San Lorenzo vive algo parecido com o que Corinthians e Atlético-MG viveram nos últimos dois anos. Cercado de rivais que colecionam títulos internacionais, o indefeso torcedor azul-grená é alvo de piadas. Até mesmo a sigla do clube, Casla, virou provocação na mão dos adversários: Club Argentino Sin Libertadores. A ânsia por ver o que pode ser a conquista mais importante do time provocou uma mistura de sentimentos nos torcedores durante os dias que antecedem a decisão. Mas nada lhes tira a confiança.
 
- Estamos muito contentes. Muito otimismo, muita ilusão. Faz 41 anos que estou esperando este momento. Há sensações diversas, alegria, tristeza, chorar e rir ao mesmo tempo. Faltam 90 minutos. A nível futebolístico e pelo que sentimos pelo San Lorenzo, é o dia mais importante. Há algo muito importante para nós, que é a volta a Boedo. Mas essa é a maior glória esportiva . Vivi o descenso em 81, segui a campanha de 82, vivi a glória em 95, mas isso não tem explicação – descreve Marcelo. 

torcedores San lorenzo  (Foto: Daniel Mundim)Casa com bandeiras do San Lorenzo no bairro de Boedo, em Buenos Aires (Foto: Daniel Mundim)

O San Lorenzo é o sexto time argentino com mais participações em Libertadores. A edição de 2014 é a sua 12ª vez no torneio. Como campeão nacional em 1959, foi o primeiro representante do país na competição inaugural, em 1960. Eliminou o Bahia nas quartas com uma vitória por 3 a 0 em Buenos Aires, e derrota por 3 a 2 em Salvador. Chegou à semifinal, sua melhor participação até a atual campanha. Contra o Peñarol, o Ciclón empatou os dois primeiros jogos e, ao fazer o terceiro confronto, que deveria ser em um local neutro, vendeu seu mando de campo para os uruguaios. O resultado foi a vitória carbonera e a eliminação.
 
Desde então o máximo que conseguiu foi chegar às quartas de final. As circunstâncias da caminhada até a decisão também surpreenderam os torcedores. A classificação como o sétimo pior segundo colocado na primeira fase, obtida aos 43 minutos do duelo com o Botafogo, e os pênaltis contra o Grêmio deram mais confiança aos cuervos. Veio o 5 a 0 contra o Bolívar, e o sonho já parecia realidade.
 
- É a partida mais importante. Não há nada igual. Vou viver algo que nunca vivi na minha vida. Tenho 42 anos e vou ver um jogo com os meus filhos com a mesma sensação que eles. Vamos ver um momento que nem eu, nem eles vivemos. Isso dificilmente ocorrerá novamente. É grandioso – diz Miguel Coloritto, treinador das equipes juvenis recreativas do San Lorenzo que, todavia, não conseguiu seu ingresso.

torcedores San lorenzo  (Foto: Daniel Mundim)Mesmo com os ingressos esgotados, torcedores fazem fila na bilheteria do estádio (Foto: Daniel Mundim)

Todos querem entrar: a loucura por um ingresso
 
A matemática é simples. O San Lorenzo tem 60 mil sócios. No Nuevo Gasómetro cabem 43 mil pessoas. O Nacional-PAR recebeu 4 mil entradas. Sobram cerca de 39 mil ingressos. Os demais sócios e outros milhões de torcedores cuervos não poderão estar no estádio na próxima quarta-feira. Mas seguem insistindo. A incessante busca por um lugar no estádio de Bajo Flores tem marcado a semana em Buenos Aires.

São momentos fantásticos, em que o mundo futebolístico da América do Sul queria estar aqui. Por mais que signifique isso tudo, a pressão, a manifestação do torcedor e de todos, temos que estar tranquilos
Edgardo Bauza, técnico do San Lorenzo

Os ingressos foram declarados esgotados na noite da última sexta-feira. Mesmo assim, centenas de torcedores se mantiveram na fila, à espera de uma ilusória carga extra. A venda foi feita em etapas. Os quase 5 mil que foram a Assunção acompanhar o jogo de ida tiveram prioridade. Os sócios vieram em seguida. A comercialização foi realizada desde a última segunda, mas em cada dia da semana se vendeu um setor do estádio. O desespero chegou aos dirigentes.
 
No último sábado, os associados tentavam retirar seus tíquetes na bilheteria do Nuevo Gasómetro, e outros entravam na fila na esperança de conseguir um. Alguns deles cercaram o segundo vice-presidente do clube, Roberto Álvarez, que deixava as instalações do estádio, para tentar encontrar uma solução. A resposta foi simples: não havia mais ingressos. No entanto, os torcedores se organizaram, improvisaram uma lista com o número de cada associado e entregaram a um funcionário. Mas nada foi prometido.

torcedores San lorenzo  (Foto: Daniel Mundim)O vice-presidente do clube, Roberto Álvarez, é cercado por torcedores em busca de ingressos (Foto: Daniel Mundim)


Por todos os dias eles se enfileiram nas sedes do clube espalhadas por Buenos Aires, com os carnês de sócios em mãos, e clamam por um ingresso. A fase final de vendas ocorreu pela internet, entre domingo e segunda. Foi restrita aos que foram a Assunção e ainda não tinham adquirido o seu lugar e a sócios que já pagaram as cotas de agosto. Mas não há o que fazer com os demais. Enquanto isso, Edgardo Bauza luta para manter a concentração de seus jogadores.
 
- São momentos fantásticos, em que o mundo futebolístico da América do Sul queria estar aqui. Por mais que signifique isso tudo, a pressão, a manifestação do torcedor e de todos, temos que estar tranquilos. Procuro passar isso para os jogadores, para se manterem ocupados e que essa ansiedade saia. Tenho falado isso com o grupo, sobre tirá-los desse lugar e encararmos como uma partida de futebol. Tem que ter em mente bem o que se vai fazer, porque não se ganha se não souber – disse o treinador azul-grená. 

torcedores San lorenzo  (Foto: Daniel Mundim)Torcedores na sede da Avenida Mayo em busca de ingressos para a final (Foto: Daniel Mundim)

Rivais querem manter a piada
 
O rival histórico do San Lorenzo é o Huracán, que também foi criado em Boedo e agora tem sua sede no Parque dos Patrícios, também perto do Nuevo Gasómetro. O clássico entre as duas equipes é considerado o terceiro maior da Argentina, atrás dos duelos Boca x River e Racing x Independiente. Mas o momento do Globo, como é chamado o rival do Ciclón, não é dos melhores. Estão na segunda divisão, foram campeões nacionais apenas em 1973, e só participaram da Libertadores no ano seguinte.
 
- Os quemeros (como os cuervos chamam os torcedores do Huracán) não nos preocupam. Estão morrendo de ciúmes e vão morrer na B. Não precisam nem torcer contra – diz a torcedora azul-grená, Micaela Sepulveda.
 
Mas no que diz respeito aos demais grandes da Argentina, a sensação se divide. Entre os menos aficionados, há a indiferença. Mas para os mais fanáticos, a rivalidade fala mais alto. Vão torcer pelo Nacional-PAR.
 
- Claro que vou torcer contra. Que continuem sem a Copa, mesmo que nunca cheguem às nossas seis. Mas que não levem nenhuma. Que fiquem assim – diz o torcedor do Boca Juniors Daniel Reina.
 
Os torcedores do San Lorenzo não ligam. Preocupam-se com o jogo da próxima quarta e o futuro.
 
- Já estamos economizando para ir ao Marrocos! – garantem Marcelo e seus amigos.

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