| Futebol

Ninho do Urubu 30 anos: histórias de um sonho ainda não realizado

Comprado em 30 de agosto de 1984 com venda de Zico, terreno passa por nove presidentes sem ser concluído. Previsão de término do módulo profissional é em 2015

  1. ex-vascaíno é entrave AO CT
  2. DINHEIRO EM CAIXA
  3. Gávea e Fla-Barra
  4. Revitalização
  5. Casa do Fla

O dia 30 de agosto de 1984 é marcante na história do Flamengo. Não que o clube tenha conquistado qualquer título ou realizado algum jogo importante nessa data, mas ela representa o início de uma luta ainda sem vitória: a compra do terreno onde está localizado o Centro de Treinamento George Helal, mais conhecido como Ninho do Urubu, que deveria abrigar em instalações modernas as categorias de base para se tornar um celeiro de jogadores que faria valer a máxima de que "craque o Flamengo faz em casa".

Neste sábado, o terreno completa 30 anos de posse do Flamengo. É a data que consta na escritura depois de o então presidente George Helal comprá-lo por 300 milhões de cruzeiros do aviário Soaves. Desde então, ele já foi ignorado, usado como promessa de campanha e até houve um plano para negociá-lo com Zico pelo CFZ, que fica no Recreio dos Bandeirantes. Nada foi à frente. 

Apenas a partir de 2010, ele passou a ser usado como base de treinamentos do time profissional, mas com instalações provisórias. Hoje, inclusive, o terreno é utilizado como garantia em uma ação movida pelo Banco Central contra o Flamengo para que verbas de patrocínio não fiquem retidas pela Justiça depois de já ter sido alvo de penhoras seguidas em sua história.

Gramado do campo 1 do Ninho do Urubu Flamengo (Foto: Alexandre Vidal / Flaimagem)Confira o gramado do campo 1 do Ninho do Urubu Flamengo (Foto: Alexandre Vidal / Flaimagem)

Desde a compra do terreno, incluindo George Helal, foram nove presidentes que se dividiram no comando do clube. Sempre com a distância e a falta de recursos como desculpa, não levaram adiante a conclusão do CT. A busca pela conclusão é intensa. No momento, ela está nas mãos de Alexandre Wrobel, vice-presidente de patrimônio do clube desde junho de 2010, ainda na administração de Patrícia Amorim.

- A previsão é de que em maio do ano que vem esteja pronto. Mas apenas os módulos dos profissionais. Ainda não há previsão para a conclusão da parte para as categorias de base, que passaria a utilizar as instalações provisórias dos profissionais a partir de maio de 2015 - disse Wrobel.

01

ex-vascaíno é entrave AO CT

As dificuldades são imensas desde antes mesmo da compra do terreno. Segundo Márcio Braga, quando deixou o cargo em 1980, entregou o clube com dinheiro e um local já indicado para ser adquirido a Antonio Augusto Dunshee de Abranches. No entanto, não foi o que aconteceu.

- Estava tudo certo, mas ele não usou o dinheiro para isso. Foi um dos motivos do meu rompimento com ele. O Dunshee comprou o Wilsinho (do Vasco). Um ponta que não valia nada - afirmou Márcio, sobre a negociação realizada em meados de 1982.

Dunshee diz não se lembrar do fato e até desdenha da situação, que aconteceu há mais de 30 anos. Hoje, ainda segue ativo no clube como conselheiro e chegou a assinar recentemente uma documentação ao lado de Márcio Braga exigindo providências no departamento de futebol ao atual presidente Eduardo Bandeira de Mello.

- Eu estou com 77 anos, esse negócio tem 30 e poucos anos. Não vou me lembrar, mas é pouco provável. O Wilsinho não era nenhum craque. Não posso confirmar nem desmentir. Se fosse Zico ou Júnior eu lembraria, mas Wilsinho (risos) - disse Dunshee.

01

DINHEIRO EM CAIXA

No fim de seu mandato, em 1983, Dunshee renunciou, e Eduardo Motta fechou o ano como presidente apenas para organizar a eleição. George Helal se candidatou e conseguiu o apoio de Márcio Braga com a promessa de que finalmente compraria um terreno para a construção de um centro de treinamento. Assim foi feito e no dia 30 de agosto de 1984 a negociação foi concluída.

Especial Zico 60 anos - Renovando contrato, com Márcio Braga e George Helal (1980) (Foto: Anibal Philot/Agência O Globo)Ladeado por George Helal (esquerda) e Márcio Braga, Zico renova contrato em 80 (Foto: Anibal Philot/Agência O Globo)



O dinheiro veio do caixa robusto que o clube tinha na época. Zico havia sido vendido um ano antes para a Udinese, da Itália, por US$ 4 milhões. Mais do que suficiente para fazer a compra do terreno e sonhar com o que poderia acontecer no futuro.

- Não queria gastar o dinheiro do Zico com jogador. Na época, me chamaram de visionário. O centro de treinamento tem um bom terreno, está legal, mas falta completar. Ele foi adquirido para a base. A ideia era ter 200 garotos entre nove e 18 anos ali, jogando e estudando para sair como atleta e homem - comentou Helal, presidente do clube entre 1984 e 1986.

Para finalizar a obra, inclusive, Helal vai ganhar uma estátua, bancada por Jorge Rodrigues, conhecido conselheiro do clube e colaborador, que já foi candidato a presidente. Mas há quem diga que não é o único a merecer a eternidade no local. Patrícia e Márcio citam José Carlos Dias, vice de finanças e administração, como outro a merecer a lembrança pelo esforço feito para iniciar a primeira etapa de grandes intervenções em 2004, na histórica capinada de Márcio Braga, contando com a companhia de jogadores da época, como Felipe.

José Carlos Dias iniciou as primeiras campanhas de arrecadação para fazer os campos do Ninho do Urubu. Ele idealizou as pulseiras vermelha e preta, inspiradas nas contra o racismo, e a camisa "Eu Amo o Fla". Dali, saíram os recursos com o apoio de Zico, que serviu de garoto-propaganda.

- Foi muito legal. O Ziraldo desenhou a camisa, o Zico apoiou. Arrecadamos bastante e fizemos os quatro campos. Inauguramos o primeiro no dia do aniversário do clube. Foi um dia depois de uma goleada de 6 a 1 aplicada pelo Atlético-MG. Liguei para o Márcio e queria cancelar. Ele disse que não. Terminamos tudo na véspera da inauguração, usando a luz dos faróis. Todo mundo chateado por causa da goleada, mas trabalhando. Até hoje me emociono - comentou José Carlos Dias.

01

Gávea e Fla-Barra

Entre os mandatos de Luiz Augusto Veloso (1993/1994), Kléber Leite (1995/1998) e Edmundo dos Santos Silva (1999/2002), o Ninho do Urubu ficou em segundo plano. Na época, a Gávea recebeu arquibancadas tubulares, transformou-se em estádio para 15 mil pessoas. O time profissional utilizou o Fla-Barra entre 1998 e 2001 e o terreno ficou esquecido.

- A gente teve como prioridade patrimonial a conclusão da sede da Gávea, que tinha uma estrutura completamente inacabada, e a construção de um estádio para jogo de pequeno porte, com capacidade para 15 mil pessoas - afirmou Veloso, que participou da administração de Patrícia Amorim como diretor de futebol.

Especial Ninho do Urubu - RGI dos terrenos (Foto: Divulgação)Confira o registro geral da compra efetuada pelo Flamengo (Foto: Divulgação)



Kléber garantiu que havia um projeto para o Ninho do Urubu e voltou a citar o Consórcio Plaza como parceiro para tal. No entanto, essa relação acabou virando um problema para o clube, que até hoje briga na Justiça com quem deveria ter realizado uma parceria para revitalização de todo o seu patrimônio.

- O Flamengo ficaria com o Fla-Barra e ainda haveria a possibilidade de uma concentração de primeiro mundo. O Flamengo teve dois momentos de extrema infelicidade em sua vida: o primeiro foi esse assunto (do Consórcio) até hoje pessimamente explicado. Mas, em vez de acionar o Consórcio, o Flamengo perdeu dignidade e patrimônio. Teve um prejuízo monumental e foi expulso do Fla-Barra. Com tudo aprovado, contrato em vigor, deixou de ter o Ninho concluído, um estádio para 10 ou 15 mil pessoas e a Gávea inteiramente remodelada. Outra época triste foi a da ISL, em que os recursos entravam, mas não eram utilizados corretamente pelas pessoas que lá estavam - comentou Kléber.

Na gestão de Edmundo, houve o episódio com a ISL, que acabou falindo e levou ao impeachment do presidente por improbidade administrativa. Apesar do problema, ele afirmou que havia até a possibilidade de construir um estádio para o Flamengo onde hoje está localizada a Cidade do Samba.

- Na minha gestão, havia um projeto, proposto pela empresa HOK, que reunia CT com dez campos, ginásio poliesportivo, piscina, área de recuperação médica e fisioterapia, mas aconteceu aquele episódio com a ISL, que faliu. Havia também projeto para a construção de um estádio onde hoje fica a Cidade do Samba (Zona Portuária). Conversei com o ex-prefeito César Maia, e naquele terreno ficaria o estádio do Flamengo. Depois que a ISL faliu, ele me ligou e perguntou se ainda tinha alternativa, mas nós declinamos - disse.

01

Revitalização

Maquete ninho do Urubu Flamengo (Foto: Globoesporte.com)Maquete ninho do Urubu Flamengo (Foto: Globoesporte.com)

Depois da saída de Edmundo, Hélio Ferraz foi o candidato de consenso para assumir o clube em um momento de transição para um mandato tampão. Na época, o Flamengo estava afundado financeiramente. As categorias de base passaram a treinar em São João de Meriti, em um local conhecido como Sendolândia e apelidado de Mengolândia na época. Uma solução tentada pelo ex-presidente foi adquirir o CFZ, mas Zico recusou a proposta, que incluía a cessão do Ninho do Urubu.

- A solução factível na época foi a tentativa de uma troca com o CFZ. Chegamos a sentar com o diretor-geral do CFZ e fizemos uma proposta de permuta. Daríamos o Ninho do Urubu e o imóvel de São Conrado, e eles nos entregariam as instalações do CFZ. O diretor, que na época era praticamente absoluto já que o Zico estava no Japão, topava fazer. Mas o negócio acabou não evoluindo. Num período em que não tínhamos condições, trocaríamos dois ativos que seriam interessantes do ponto de vista imobiliário para o Zico. Quase fechamos, mas o Zico não quis. Acho que ele até fez bem (risos), mas, para nós, era uma solução. Pegaríamos uma área pronta, toda preparada para fazer o que queríamos - justificou.

Na sequência, Márcio Braga deu a largada para as primeiras intervenções mais efetivas no terreno, auxiliado por José Carlos Dias, quando inclusive foi batizado com o nome de George Helal. No entanto, ainda com pouca utilização. Em 2006, Ney Franco usou o local para treinamentos secretos antes das finais da Copa do Brasil, que o Flamengo acabou conquistando. A estrutura ainda era precária. Não havia um vestiário em condições de receber os jogadores.

Patrícia Amorim deu continuidade ao processo, mas havia uma barreira. O clube precisava cumprir exigências para dar início a obras estruturais. Foram 39 licenças ambientais. A casa que existe já fazia parte do terreno originalmente, assim como o galpão onde fica a academia e o vestiário.

- Não entrei no clube presidente. Já havia sido vice de outras áreas. O que você ouvia era que o Ninho servia para encostar funcionários, que se tratava de um lugar distante. Minha primeira vez lá foi em 2004 com o Márcio no dia da capina. Quando assumi, ainda não tinha nada lá de estrutura, só os campos. Colocamos poste de luz, rede de internet, 38 computadores. Foi um trabalho legal, mas apenas o início - disse Patrícia.

01

Casa do Fla

Vanderlei Luxemburgo visita obras no Flamengo (Foto: Divulgação/Site Oficial do Flamengo)Vanderlei Luxemburgo visita obras no Flamengo (Foto: Divulgação/Site Oficial do Flamengo)

Em 2010, com a chegada de Vanderlei Luxemburgo para assumir o cargo de treinador em outubro, a situação mudou. Apresentado no Ninho do Urubu, por opção dele, declarou, na época, que passaria a trabalhar apenas no CT e não mais na Gávea, obrigando a diretoria a tomar providências e criar condições mais dignas de trabalho.

- Eu corri atrás da situação dos containers pois havia visto na Fórmula 1 e achava muito bacana como montavam aquela estrutura em um mês. O Isaías Tinoco encontrou. O Zico já havia feito alguma coisa para a base com eles. Encontramos com o dono, e ele disse que entregava em um mês. A Patrícia aprovou e está até hoje lá - comentou.

Vanderlei já havia treinado o Flamengo em 1991 e 1995 antes de voltar ao clube em 2010, quando inclusive foi usado como garoto-propaganda da campanha dos tijolinhos, que arrecadou quase R$ 2 milhões para as obras do centro de treinamento.

- Em 1991, não sabia que tinha comprado nada. Em 1995, não sabia do que se tratava mas tinha conhecimento. Fora do Flamengo, soube que já se treinava lá em algumas oportunidades. Agora, avisaram que a obra seria retomada, mas não me aprofundei. Nesse momento, a preocupação é tirar o Flamengo da situação difícil no Brasileiro. A única coisa que cobrei foi o meu tijolo - brincou Vanderlei.

O reconhecimento ao treinador existe. Wrobel o cita como peça importante no andamento do centro de treinamento. Suas sugestões são aceitas pela diretoria e colocadas em prática. O dirigente segue sua empreitada na busca pela finalização do centro de treinamento. Ele venceu a barreira de administrações concorrentes em uma eleição para dar continuidade a um sonho.

- O maior legado para o Flamengo é o centro de treinamento. Não fui vice da Patrícia, fui vice do Flamengo. Esse é meu partido, a minha doença. Minha frustração é o clube não ter uma sede social à altura, um estádio, um centro de treinamento de alto nível. Isso muda como o clube é visto inclusive pelos jogadores. É um salto de qualidade - afirmou Wrobel.

Header NINHO DO URUBU - 1984 a 2006 (Foto: Infoesporte)

1984
No dia 30 de agosto, o então presidente George Helal formaliza a compra de um terreno em Vargem Grande, que seria transformado em centro de treinamento para as categorias de base: "Em 1970 já não me conformava que o clube não tivesse um CT".

1990
O presidente Gilberto Cardoso Filho resolve aterrar o terreno, que era cortado por dois rios. Segundo ele, deu condições para a construção dos primeiro quatro campos: "Quando chovia, inundava tudo. Fiz uma obra lá que durou um ano e meio, e todo o terreno foi aterrado. Deixei quatro campos prontos, só faltando botar a grama, dois, inclusive, já tinha drenagem. Isso foi em 1990 e a grama só foi posta mais dez anos depois, em 2004, quando o Márcio voltou".

1997
Kléber Leite era o presidente do clube e alugou um centro de treinamento que ficou conhecido como Fla-Barra: "Não poderíamos sair e ir para o Ninho, onde não havia nada e estava quase descampado. O Flamengo tinha que dar continuidade a sua vida, houve procura enorme de soluções e tivemos a sorte de ir para o Fla-Barra".

2000
Em agosto, o Flamengo é despejado do Fla-Barra e treina provisoriamente no CFZ enquanto o gramado da Gávea é reformado. O Ninho do Urubu segue relegado.

2004
De volta ao cargo de presidente, Márcio Braga inicia uma campanha para o terreno em Vargem Grande finalmente se transformar em centro de treinamento. Vai ao local de enxada na mão acompanhado de jogadores do elenco profissional, como o meia Felipe.

Em abril, o clube lança a campanha "Eu Amo o Fla" para arrecadar fundos para a construção do centro de treinamento.

No aniversário de 109 anos do clube, dois campos foram inaugurados, um dia depois de o time ter sofrido uma goleada de 6 a 1 para o Atlético-MG, pelo Campeonato Brasileiro.

2005
Em julho, o Flamengo lança as pulseiras que viraram febre na época, em uma campanha feita pelo Orkut: "Craque o Flamengo faz em casa, CT quem faz é você". O produto continha uma pulseira vermelha e outra preta entrelaçadas, inspiradas na campanha feita contra o racismo. No fim da temporada, o time chega a fazer alguns treinamentos no local.

2006
Na véspera do primeiro jogo da final da Copa do Brasil daquele ano, o então técnico Ney Franco comandou um treino secreto no Ninho do Urubu, então utilizado apenas pelas categorias de base. Ele repetiria a estratégia para o segundo jogo. No fim, ficaria com o título da competição.

Header NINHO DO URUBU - 2007 a 2014 (Foto: Infoesporte)

2007
No dia 10 de outubro, o número 12 foi aposentado e o projeto "Camisa 12" foi criado para ajudar na construção do CT com venda de camisas.

2009
O Ninho do Urubu passou a ser utilizado com mais frequência e os treinos aconteciam no CT e na Gávea.

2010
Com a chegada de Vanderlei Luxemburgo para assumir o cargo de treinador em outubro daquele ano, o Flamengo passou a adotar o Ninho do Urubu como casa. Com isso, melhorias foram necessárias e containers alugados para serem utilizados como instalações provisórias. Paralelamente, o clube deu continuidade às obras de construção dos módulos do futebol profissional.

Em novembro, o clube finalmente lançou a campanha dos tijolinhos. Mais de sete mil foram comprados por torcedores, que pagaram R$ 250 por cada um. Atual vice-presidente de marketing, Luiz Eduardo Baptista, o Bap, comprou 40.

2012
Depois de um longo tempo de espera, o Flamengo inaugura o muro dos tijolinhos em setembro. No mesmo dia, faz o mesmo com o campo 5, que será utilizado pelos profissionais e foi financiado pela parceria com a Ambev.

2014
Em julho, o Flamengo retomou as obras do centro de treinamento depois de quase dois anos. O clube espera concluir até maio do ano que vem os módulos dos profissionais. Com isso, as instalações provisórias passariam a ser utilizadas pelas categorias de base.

Comentar pelo Facebook

Leia também


Comentar pelo Site

Nenhum Comentário
Seja o primeiro a comentar essa notícia.