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'O Flamengo é assim: na hora de decidir, a gente aparece', afirma Juan

Zagueiro fala sobre pressão por títulos, mudanças dentro de campo e aposentadoria

O zagueiro Juan conheceu duas etapas da vida do Flamengo, separadas por 14 anos. Aos 38, ele fala de uma relação de amor com o clube rara nos dias atuais e vê na Copa do Brasil — que começa a ser decidida no dia 7, contra o Cruzeiro — a chance de realizar um sonho antes de se dedicar a projetos sociais.

Foram 14 anos fora do Flamengo. O quanto o clube mudou?

Em estrutura e nas finanças, é totalmente diferente. Hoje o clube está estruturado, tem credibilidade. Para o padrão brasileiro, é um clube rico. Mas a paixão do torcedor, a pressão, isso não muda. É do tamanho do clube.

Sua relutância em voltar teve a ver com traços do Flamengo antigo?

Nunca. O que eu sempre quis era que o Flamengo me valorizasse como jogador criado aqui e como um profissional, por tudo o que eu significava e tinha feito. Há alguns anos (em 2012) não houve este acerto. O momento do Flamengo não era tão bom, mas existiam muitos gastos no futebol, como sempre aconteceu no clube. Mas essa valorização eu não encontrei. E agora (em 2016) o acerto foi muito rápido.

O que não muda é o peso das derrotas. O fato de o clube ter dinheiro ampliou a cobrança?

Sem dúvida. Estamos vivendo o outro lado da moeda. Tem elenco, grandes jogadores, parece que é obrigação vencer todos os jogos, em todos os estádios, e dar espetáculo. Por um momento deste ano, a gente se colocou esta pressão. Na Libertadores, fomos eliminados por não pontuar fora de casa. Mas não sofremos, nunca jogamos muito mal. Talvez, se a gente jogasse pelo empate, teria os dez pontos necessários. Mas nos forçamos a buscar vitória com grande performance. E por melhor que seja o elenco, o futebol no Brasil e na América do Sul é equilibrado. Talvez tenha mudado com o Rueda, e não é crítica ao Zé Ricardo. Rueda chegou num momento em que se pedia isso. Talvez sem ser tão brilhante quanto antes, tenhamos sido efetivos.

O que falta para este clube organizado ser de novo vencedor?

Por vezes, são detalhes. O mais importante é estar sempre em cima da tabela. A chance de se tornar um time vencedor é maior quando você passa a chegar em todas as competições.

É como reaprender a ser rico?

É tudo muito novo. Talvez seja o primeiro ano que o Flamengo extrapola no investimento em elenco. Claro que a exigência é de resposta rápida, mas a longo prazo vai ser inevitável.

Há quem fale em recuperar ambição, reaprender a ser vencedor.

Talvez reaprender a ter paciência para ser vencedor. A pressão no Brasil é para se ganhar tudo. Mas, neste ritmo, vai acontecer.

A juventude levou Zé Ricardo a ousar?

Acho que era o estilo dele. Mas muitos técnicos estão vindo da base, hoje, propondo um jogo mais solto. Os números estão a favor dele. Um técnico que fica mais de um ano no Flamengo tem que ser valorizado. Ainda mais no primeiro trabalho. Fez um Brasileiro muito bom no ano passado, ganhou o Carioca.

E é possível convencer o torcedor a aceitar um Flamengo mais pragmático com Rueda?

No fim das contas, o que o torcedor quer é ganhar. A gente também. Quem entende de futebol sabe que a forma mais fácil para ganhar é jogar bem. Mas, no Brasil, é difícil jogar bem sempre, o equilíbrio é grande. Temos um campeonato em que os times que têm mais a bola não ganham. Comparam com a Europa, mas as coisas lá são um pouco falsas. Há seleções dentro dos clubes, um abismo entre grandes e pequenos. Então, os números se tornam falsos. Se você pegar a estatística da Liga dos Campeões, quando os grandes se enfrentam, as coisas ficam mais reais. A Juventus fez duas finais e é pragmática, Atlético de Madrid também. Bayern do Guardiola tinha posse de bola fantástica e não fez final. A moda é posse de bola, mas aqui no Brasil não está se refletindo em êxito. E falta tempo de trabalho, time para jogar assim tem que se conhecer muito.

Com Zé Ricardo, o time jogava mais adiantado. Isto prejudicava você?

Não, havia formas de evitar o contra-ataque e conseguimos, até comigo em campo. Mas quando você perde e toma gols de contra-ataque, gera comentários, associam à idade. Ele optava por outros jogadores, mas também confiava em mim.

O futebol brasileiro lida mal com os jogadores mais velhos?

O problema é o pré-julgamento. Vão nas coisas mais simples. Tomou um gol, é porque está velho. Perdeu gol, é porque é muito novo. Eu sempre deixei claro que, quando não me sentisse mais capaz de jogar em nível aceitável, seria o primeiro a parar.

Como a idade impactou o seu jogo?

O que tenho de bom, e nunca deixei de ter, é a parte tática e leitura de jogo. Impactou o meu jogo pessoal. Coisas que eu fazia antes e que chamavam mais atenção para o meu jogo, quase não faço hoje. Arrancar para o ataque, me dar ao luxo de estar mal posicionado e recuperar na velocidade, infelizmente não posso mais fazer. Talvez tenha sido o que me fez jogar na Europa ou na seleção. Tenho que estar sempre posicionado e lendo bem o jogo.

É fácil, de repente, aceitar que você não jogará todas as partidas, que terá outro papel no elenco?

Natural, não é. Na Europa, você aprende a não jogar todas as partidas. E quando você volta e vê essa maluquice de calendário, já vê que não tem condição. Nem é questão física, é de qualidade mesmo. No Brasil, com as trocas de técnico, com a cultura de titular e reserva, o jogador tem receio de sair e não voltar. A gente cresceu ouvindo que o Brasil pode fazer cinco seleções. Até na seleção é difícil rodar o time, ficamos apegados àqueles onze. É da cultura aqui. Mas aqui no Flamengo, onde me conhecem e respeitam meu passado, é mais fácil. Fiquei sem jogar, mas sentia que me respeitavam, que eu era uma voz ativa no vestiário. Nunca me senti desestimulado. Meu relacionamento com o Zé Ricardo era ótimo, foi uma coisa que contou para eu continuar jogando. Há muitos interesses acima da qualidade do jogo. E são 80 jogos para os grandes e 15 para os pequenos. Dificulta até reclamar, porque você pede para jogar menos e tiraria jogos dos que têm poucos. Ninguém quer olhar para este lado. E a qualidade dos jogos nunca será de alto nível.

A linha defensiva mais composta com Rueda facilita você?

Para mim e para todos os zagueiros do Brasil. Lembro que, num Fla-Flu, corri com o Richarlison e disseram: "Perdeu na corrida, tá velho". Mas o Richarlison ganha de 70% a 80% de todos os zagueiros do Brasil. Se todo mundo que perder na corrida para ele tiver que parar de jogar, não tem mais zagueiro. Jovens ou mais velhos, têm se destacado os defensores que jogam protegidos. É o sonho de todo zagueiro. Mas tem que ser eficiente. Não pode jogar no Flamengo, ficar todo mundo lá atrás protegendo o zagueiro e não fazer gol. Tem que achar o equilíbrio. Temos talento na frente.

A Copa do Brasil é o bastante para coroar o novo momento do clube? Ou a ambição deve ser maior?

Pode abrir as portas. Em 2013, o Flamengo ganhou, mas em outras condições. Este grupo, que é talentoso, precisa de uma vitória deste nível para ter mais tranquilidade e buscar mais coisas. Para mim, seria uma emoção, tanto tempo depois, no momento que o clube vive, tirar o peso de investir e ter que vencer. E, no meu momento de carreira, seria concretizar um sonho, uma ilusão. Eu não imaginava estar jogando no Flamengo aos 38 anos.

Por trás da relação profissional, qual sua ligação com o Flamengo?

O Flamengo é o meu time, sempre foi e sempre vai ser. É diferente de tudo o que vivi na carreira. Eu era torcedor fanático, de acompanhar o clube mesmo da Europa. Mesmo se eu não voltasse, nada mudaria.

O que caracteriza a identidade do clube?

A grandeza, a torcida, a repercussão, mas o fato de que, na hora difícil, o Flamengo dificilmente recua. Mesmo sendo mais fraco, em dificuldade. Você não vê em todos os clubes. Antes do primeiro jogo com o Botafogo, o Rueda tinha chegado pouco antes. Tivemos uma reunião com ele e, depois, uma reunião nossa, dos jogadores. Chamou atenção naquele dia, eu tinha visto na internet que o Flamengo era o clube de momentos como aquele, cresce nestas horas. Você convive com a pressão de vencer sempre, por vezes esquece da identidade do clube. Eu parei para pensar e vi que sempre foi assim, na dificuldade o Flamengo crescia. O diferente é ganhar um campeonato de cabo a rabo. O Flamengo aparece na hora decisiva. Eu disse aos jogadores: "Ninguém deu a vaga para a gente, se perdemos de quatro para o Santos, ganhamos de dois sem tomar gol. É direito nosso. E segundo, este clube é assim. Na hora de decidir, a gente aparece. Porque temos torcida, temos tudo."

Mas o Flamengo vinha tendo dificuldade nos grandes jogos. Por quê?

Talvez pela pressão de ter que ganhar, convencer, jogar bem. No Brasileiro, massacramos o Palmeiras e empatamos. O Grêmio deu um chute e ganhou. E a gente jogando bem, pra frente, por vezes se expondo um pouco. No Brasil, são dez meses de futebol. Vai ter um mês que você perde a rédea, seja por confiança, seja pela queda de nível dos jogadores. Depois da Libertadores, a gente perdeu a confiança. Caímos por um acaso, porque desligou cinco minutos, mas o fim de turno do Brasileiro foi mais complicado.

Você já viu muitos jogadores surgirem no Flamengo. Preocupa os números envolvidos e o julgamengo em torno do Vinicius Júnior?

Os números hoje no futebol são altos, era inevitável que em algum momento tivesse um jovem vendido por esse valor. Ele tem muito talento e me deixa tranquilo ver o dia-a-dia dele de trabalho, a cabeça boa e a vontade de brilhar no Flamengo. Outros poderiam ter a cabeça em Madri e esquecer o Flamengo. Ele está sempre com a família. Vai ter que saber conviver, porque não tem mais como voltar atrás. Quando a gente conversa com ele, a gente fala que ele não precisa, a cada jogada, justificar por que ele é o Vinícius Junior e foi para o Real Madrid. Pode ser até ruim para o time isso. A gente vê a vontade dele de ajudar, de crescer. Ele tem que jogar o jogo normal, como nos juniores. Tem a hora de tocar para o lado e a hora do lance de efeito.

Após dez anos de Europa, é difícil voltar a viver no Rio?

Não está fácil pra ninguém. Eu e minha esposa tentamos esquecer o que vivemos para nos readaptarmos aqui. Vivemos cinco anos na Alemanha, que era quase a perfeição. Depois Roma, que não era tão perfeito assim. E um estágio em Porto Alegre para readaptar ao Brasil. E voltamos ao Rio. A preocupação é com os deslocamentos. Na Itália, em Porto Alegre, em trajetos curtos. Aqui, precisa de uma logística e, com a violência, preocupa mais.

Quando você para de jogar?

Não tenho na cabeça. Em dezembro, avalio minhas condições físicas e psicológicas, ouço o que o clube pensa de mim. Se for do agrado do clube, continuo. Ainda convivo bem com sacrificar meu dia-a-dia e a família pelo futebol, a concentração não me estressa, nunca tive lesão muito grave. O jogo me dá prazer, e o fato de jogar no Flamengo. Em outro clube, talvez não jogasse mais.

Pretende se manter no futebol?

Venho usando uma marca minha nas redes sociais. A intenção é me voltar para projetos sociais. Já faço um trabalho com a casa Ronald McDonald´s, me aproximei deles e estou sempre ajudando. Minha esposa foi junto com a do Diego ajudar na festa no último McDia Feliz. Quero usar esta marca para retribuir o que o futebol me deu. Tem muita gente que precisa. Quero usar meu nome e minha marca, se puder associar ao Flamengo, ver o clube ser pioneiro neste lado de projetos sociais, seria um grande sonho. Eu converso muito com o Sávio, que é embaixador do Real Madrid em projetos sociais. O clube ajuda mais de 70 mil crianças. Isto eleva o clube a outro patamar sob o ponto de vista humano. No futebol, não encontrei a função, mas vou estudar e ver no que me encaixo. Mas ainda não pensei.

Você viu Adriano surgir. Fica triste pela forma como a vida dele se encaminhou?

Como amante do futebol, fico triste por não ter jogado mais tempo. No mais, respeito as decisões de vida dele. Adriano nunca enganou ninguém. Nunca jogou sem ter vontade. Fico triste pelo lado do futebol, como flamenguista, poderia estar jogando no Flamengo. As coisas que saem sobre ele eu não comento. Fico com a imagem que tenho dele, de um cara com coração enorme, ligado à família.

Por que é tão difícil ver você sorrindo?

Não sei. Todo mundo fala isso pra mim. Às vezes, em rede social, coloco uma foto rindo e todo mundo comenta. Acho que sou sério no trabalho e, como sou reservado fora de campo, quase ninguém me vê em momentos de lazer.

Se ganhar a Copa do Brasil, vai ter sorriso?

Aí sim, com certeza.

Fonte: https://oglobo.globo.com/esportes/o-flamengo-assim-na-hora-de-decidir-gente-aparece-afirma-juan-21778973

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