Presidente do Fluminense reclama de pressão política do Flamengo para gerir Maracanã sozinho

Presidente do Fluminense reclama de pressão política do Flamengo para gerir Maracanã sozinho

A possibilidade de nova licitação não agradou ao Fluminense, que pode perder seu vantajoso contrato com a Maracanã SA. O Tricolor defende a venda das ações do Complexo, hoje nas mãos da Odebrecht, acusada de fraude na licitação das obras do estádio.

- Essa mesma empresa que se encontra alvo de denúncia já fez transferência de cessões e nunca houve qualquer problema - disse o presidente Pedro Abad em entrevista concedida na manhã de sábado.

O imbróglio foi além: rachou de vez a dupla Fla-Flu. Os tricolores veem a novidade como fruto de pressão do Rubro-negro, interessado em gerir o estádio sozinho.

- Acho que está mais ligado à vontade individual do Flamengo de tomar conta do Maracanã sozinho do que por questão jurídica. Isso nos preocupa bastante. Não só olhando pelo âmbito do Fluminense, mas também pelo da população do Rio. Esperamos que se resolva o mais rápido possível sem pressões de gabinete e sem mídia exagerada em cima de uma questão que, na verdade, é técnica.

Na próxima quinta, Abad estará presente na audiência pública que será realizada na Assembleia Legislativa do Rio. E promete contra-atacar a pressão do Flamengo.

- Como estamos falando de Maracanã, as pessoas tentam turvar o pensamento da opinião pública com barulho e espuma. A gente quer esclarecer o que está acontecendo.

Confira a entrevista com o presidente do Fluminense:

Como o Fluminense vê a possibilidade de nova licitação do Maracanã?

É muito mais interessante, para todas as partes, que a concessão se mantenha de pé. É a que menos traz riscos judiciais, é melhor financeiramente ao Estado e ao próprio futebol do Rio. Não é bom o Maracanã ficar tanto tempo parado por conta de nova licitação. Seria um tempo de indefinição muito grande que cairia na conta do próprio Estado, que arcaria com os custos. Dada a situação financeira, com falta de pagamento a funcionários, ter mais este gasto é um peso ao contribuinte.

O melhor, então, seria manter a concessão e vender as ações do Complexo Maracanã S.A.?

O Fluminense sempre foi a favor desta solução. Fosse qual fosse a empresa. E, pelo que a gente ouviu, uma delas desistiu. Então, não se trata de empresa A, B ou C. O importante é que o processo de transferência do controle acionário se mantenha para que o Maracanã tenha seu funcionamento normal com uma empresa que saiba operar. Por mais que os clubes saibam operar, e o Fluminense sabe operar perfeitamente, é importante ter uma empresa que garanta condições para todos, sem personalização excessiva em torno de um.

A Odebrecht é alvo de denúncias sobre fraude na licitação do estádio. Ainda assim, acha correto que ela possa vender suas ações do Complexo Maracanã S.A.?

Já há decisão do TCE determinando que qualquer valor que ela venha a receber pela venda está previamente arrestado. Então, ela não recebe nada. E também não deixa de ser responsabilizada por eventuais fraudes. Além disso, a transferência seria a uma empresa (Lagardère) que, no caso, foi a segunda colocada (no primeiro processo licitatório) e que foi prejudicada por essa eventual fraude. E ela não apresentou nada que a desabonasse no sentido de assumir.

O clube não teme que a insegurança jurídica da concessão atual (por conta da falta de contrapartidas do Estado) desfaça a venda mais à frente?

Não vejo como empecilho. Já existe um termo aditivo pronto para ser assinado pelo novo adquirente. Então basta o governo e o novo adquirente o assinarem que o equilíbrio financeiro estará automaticamente recomposto.

Caso a nova licitação ocorra, o Fluminense vai à Justiça para ser ressarcido?

Essa é uma questão que está sendo analisada. Só que a gente tem que entender que o Maracanã é do povo. Ele não pode ser de um clube só. E as regras de utilização devem ser definidas pelo poder público. Não cabe ao Fluminense decidir como e por quanto Vasco, Botafogo ou Flamengo vão jogar. Da mesma forma que nenhum deles pode ter esse poder. Mas, naturalmente, o Fluminense vai buscar seus direitos caso a perda do contrato se dê por culpa do Estado ou da antiga concessionária.

Mas o contrato do Fluminense com o Maracanã não prevê indenização em caso de extinção da Parceria Público Privada...

Não é bem assim. O que acontece é que quem dá causa à extinção vira responsável. Se for por motivo de força maior, não há indenização. Mas, se for por fraude, quem deu causa a ela responde, sim, pela multa.

Como estão as conversas com a Lagardère?

O entendimento é bom. Já foram estudadas novas possibilidades de eventuais alterações no contrato que temos com o Complexo Maracanã. Não temos nenhum problema com eles, como não tínhamos com a GL/CSM (que desistiu do interesse em comprar a concessão).

Pode citar alguma alteração que seria feita?

A gente não gosta muito de falar, mas sempre tem alguma coisinha que interessa. Às vezes tem um jogo ou outro que não temos interesse em levar para o Maracanã. Tiraríamos dali em acordo com a concessionária. São ajustes que precisam ser feitos que aprendemos durante a operação.

O Flamengo diz que não negocia com a Lagardère e defende nova licitação. O Estado está sendo influenciado por esta pressão?

O governador certamente tem ouvido as partes. Mas nem sempre a decisão vai ser tomada com base na pressão. A gente tem visto nas redes sociais membros da diretoria do Flamengo, como o vice-administrativo, falando que ele deveria ter sozinho a gestão. Inclusive tendo cogitado a mudança do nome, por mais que a gente saiba que ele é tombado. É extremamente preocupante. A gente espera que o Maracanã continue sendo de todos, sem depender do capricho de uma diretoria em ceder o estadio. Por isso defendemos que uma empresa tome conta, para não haver paixão clubística.

Para vocês, então, o futuro do Maracanã não está sendo tratado de forma técnica e objetiva por pressão rubro-negra?

Pressões não só da própria torcida em mídias sociais, como também pressões políticas internas. A gente tem mapeado esse comportamento com muita clareza.

A aliança com o Flamengo, então, acabou?

Se a intenção deles é administrar sozinhos o Maracanã, estaremos do lado oposto. Mas existem outras demandas em que caminhamos juntos. Não existe rompimento porque, até agora, não houve nenhum fato neste sentido. Mas certamente a decisão de administrar sozinhos o estádio nos distancia um pouco.

Se a nova licitação for inevitável, o Fluminense vai se candidatar? Como defende que um clube não administre sozinho, poderia entrar ao lado do Flamengo?

Vamos analisar, participar e influenciar na formação do edital para que defenda os interesses não só do Fluminense, como dos outros clubes. Se vai ser interessante entrar com ou sem o Flamengo, o edital é que vai definir. Mas o ideal é que uma empresa assuma e seja isenta.