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SILÊNCIO NA FAVELA

COM PREÇO IRREAL TORCIDA NÃO É IGUAL

 

Na coluna anterior eu falava da necessidade de apoio da nossa torcida, mas, para que isso aconteça, é necessário também que nossos gestores contribuam. Investido na equipe, claro, mas, principalmente, facilitando sua presença. De que adianta ser a maior, se não for a que leva mais gente???

 Não compactuo com muitos discursos que ouço (grande parte deles hipócritas) sobre valor de ingressos, mas acho que, pelo menos nesse momento, nossa diretoria poderia pensar um pouco menos no “quanto vai entrar” nos cofres e pensar um pouco mais em “quantos vão entrar” nas arquibancadas. O argumento de que os torcedores precisam de um tempo para se acostumarem aos novos valores é tão improcedente quanto ridículo. Como alguém pode se habituar a pagar um valor que não tem?

É verdade que as obras impostas ao Maracanã visavam excluir exatamente o tipo de torcedor mais humilde. Aquela multidão suarenta que saía espremida dos trens da Central indo para aquele que era o Maior do Mundo, os desdentados, descamisados, fantasiados e a garotada que ficava na porta e com meia dúzia de contribuições conseguia o valor do ingresso, não têm “Padrão FIFA” e perderam o direito de assistir seu clube de coração nessas novas “Arenas”.

O Maracanã ENCOLHEU justamente, e apenas, em seus lugares. A época em que o torcedor trocava o almoço pelo ingresso ficou para a história. Hoje em dia seria necessária a troca de toda uma cesta básica. O problema é que essa elitização não afeta apenas a quantidade de torcedores. Afeta principalmente as características mais marcantes dos torcedores de Maracanã e, particularmente, os da torcida do Flamengo.

O Maracanã deixou de ser o Estádio do Povo para se transformar em “Casa de Espetáculos”. Com instalações, preço e esperando frequência de Casa de Espetáculos. Fizeram um “Botox” bilionário em suas dependências, para que políticos pudessem financiar suas campanhas para as eleições deste ano. Só que, tentando atrair os convidados da quadra das praias, se esqueceram dos organizadores das festas.

Não sei aonde esses novos Administradores do Maracanã pretendem chegar. Como o clima aqui não favorece os cachecóis e os casacos pesados, tão comuns nos estádios europeus, acredito que sonhem, um dia, ver nosso torcedor se comportando como no Japão. Recolhendo lixo, saindo ordeiramente, e em silêncio, após uma derrota e comemorando gols e vitórias simplesmente abanando um monte de bandeirolas descartáveis, com as cores do clube do coração. Talvez até cantando: “Eu, sou rubronegro, com muito orgulho, com muito amor”.

Será que nossos gestores também acreditam que um dia possamos nos transformar nessa coisa insossa, sem graça e sem alma que estamos vendo pelo país? Compreendo perfeitamente que sejam mais capazes na condução das finanças do que nos problemas de campo. Mas custo a crer que conheçam tão pouco sobre a própria torcida do Flamengo.

Nossos adversários se referem a nós como “Favela” em tom pejorativo, mas acabam sendo felicíssimos na comparação. O Maracanã sempre foi mesmo a nossa “Laje”. Onde se reúnem, democraticamente, pessoas de TODAS as classes sociais, para se divertirem e exercerem sua paixão. E é essa “Favela” quem possui a nossa PEGADA, que empurra, muda comportamento dentro de campo e resultado de partidas.

Temos visto diariamente as torcidas sulamericanas DANDO SHOW, em todos os jogos, em todos os estádios. Obscurecendo as brasileiras que insistem no tal: "Eu, sou brasileiro .... ". Uma humilhação INACEITÁVEL dentro da própria casa do país que afirma ser o do futebol.

A grande lição que essa Copa está nos dando, além da busca incessante do gol e da recomposição rápida do sistema defensivo, é a capacidade de influenciar um resultado que uma torcida realmente participativa pode ter. E nós, que SEMPRE fomos O MAIOR símbolo dessa capacidade, NÃO PODEMOS abrir mão desse diferencial em favor de uns trocadinhos a mais.

O Flamengo tem dívidas astronômicas, é verdade, e sabemos que nossos novos gestores estão se desdobrando para honrá-las. Mas precisam ter também consciência de uma dívida ainda maior com nossos torcedores mais tradicionais - aqueles que se espremiam nas arquibancadas de cimento, se sentindo privilegiados com esse direito. Seria uma ingratidão sem tamanho ser conivente com a exclusão justamente daqueles que têm mais cara, alma e coração rubronegro, além de serem responsáveis diretos pelas páginas mais gloriosas da sua história.

Em um momento de tanta preocupação com nossa posição na tabela, a tradicional torcida do Mais Querido espera pela compreensão dos seus dirigentes, no sentido de poder contribuir da melhor forma que pode e sabe. Podem ter passado uma tinta por fora, trocado os móveis e até reformado a cozinha e os banheiros. Mas ainda está faltando a esse Novo Maraca, a alegria da Favela e cara de Flamengo.

PRA CIMA DELES, MENGÃO !!!


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