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Vai pra cima, Zé

Coluna de Jorge Murtinho

flameng - Vai pra cima, Zé

Os treinadores do futebol brasileiro vivem reclamando que seus times não têm tempo para treinar. Procede. Entretanto, certas escolhas eu vou morrer sem compreender.

Desde a vitória por dois a zero sobre o Atlético Mineiro até a partida contra o Botafogo, o Flamengo teve seis dias completos sem jogos ou viagens. Houve tempo de sobra para treinos e ajustes, mas sou capaz de apostar meu salário – que não é lá essa coca-cola toda, mas me faz uma falta danada – que em nenhum momento desses seis dias Zé Ricardo tenha comandado um rachão que fosse com Cuéllar, Márcio Araújo, Willian Arão, Canteros e Mancuello juntos no meio-campo.

Eis a contradição: reclamam que não conseguem treinar, e na hora do jogo inventam uma escalação que jamais foi testada. Vocês entendem? Eu não.

Repito, reforço e reitero o que escrevi no post “Duas palavrinhas fatais”: pra mim, nesse momento, o técnico do Flamengo tinha e tem que ser o Zé Ricardo. Não faço ideia de quanto o Zé passou a ganhar após a oficialização. Cem mil? Cento e cinquenta? Sei lá. Mas entre efetivá-lo pagando em torno disso ou trazer um Abel Braga da vida para ganhar seiscentos ou setecentos contos e fazer algo parecido, ninguém precisaria pensar duas vezes.

Entretanto, o fato de preferir e apoiar Zé Ricardo não significa que não podemos criticar os seus erros – ainda mais quando os erros vão contra o histórico do clube e do que gostamos de ver, além de se contrapor ao que todos temos percebido no futebol que se pratica hoje.

Para não falar de coisas distantes da nossa realidade – Real Madrid, Barcelona, Bayern de Munique –, fiquemos com um exemplo local. Mesmo reconhecendo-o como um forte candidato, não sei se o Palmeiras será campeão. Ainda tem muita água para correr, muita bola para rolar, e não dá para prever como o time irá se comportar nas seis rodadas sem Gabriel Jesus (pelo menos até aqui, o melhor jogador da competição). Mas é fato que, um dia depois do nosso merecido castigo sofrido no sábado, o Palmeiras nos deu uma lição.

Creio que todos concordam que encarar o Inter, no Beira-Rio, é bem mais enjoado do que enfrentar o atual Botafogo na Ilha do Governador. Pois lá no Beira-Rio, quando ganhava por um a zero e a partida já estava no segundo tempo, sabem o que Cuca fez? Trocou um armador clássico (Cleiton Xavier) pelo meia-atacante Dudu. Logo depois, substituiu um atacante por outro (Erik por Rafael Marques), opção repetida a alguns minutos do fim, quando sacou Roger Guedes para a entrada do centroavante Leandro Pereira. O Palmeiras poderia ter sofrido o empate e até sair derrotado, mas Cuca acreditou no padrão do seu time, não lhe alterou as características e pôs mais três preciosos pontinhos na bagagem.

Sábado, os erros de Zé Ricardo começaram com a barração de Rafael Vaz para promover o retorno de Juan. Eu mesmo, aqui no RP&A, critiquei a displicente e absurda falha de Rafael Vaz contra o Fluminense – da mesma forma que reclamei de Alan Patrick pelo pênalti perdido contra o São Paulo, mas mantive a opinião de que ele não pode sair do time –, só que o nosso miolo de zaga tivera atuação irrepreensível contra o veloz ataque do Atlético Mineiro. Além disso, fiquei com a sensação de que, talvez pela falta de ritmo, com Juan perdemos a soberania que tínhamos adquirido nas jogadas aéreas.

Por outro lado, acho que cabe lançar parte da responsabilidade pela equivocada decisão na conta do próprio Juan. O papel de um experiente capitão, numa situação como essa, seria o de puxar Zé Ricardo para um canto e dizer: “Zé, não me põe no time ainda não, deixa o Rafael lá. A zaga está indo bem, daqui a pouco alguém junta três cartões amarelos, eu entro e aí depende de mim ficar ou não.” Apesar de seu amor ao clube, de seu profissionalismo e de seu caráter, Juan deu uma bela bobeada e perdeu a chance de enriquecer ainda mais seu brilhante currículo.

Em 12 de maio de 2016, o UOL publicou a opinião de cinco dos seus colaboradores – Julio Gomes, Mauro Beting, Menon, PVC e Roberto Avallone, todos profissionalmente formados em São Paulo – sobre os principais concorrentes ao título do Campeonato Brasileiro e às vagas para a Libertadores. Para o título, Julio Gomes apostou no Corinthians, Mauro Beting apontou o Atlético Mineiro, Menon e PVC ficaram com o Palmeiras, Avallone preferiu não arriscar. Entre os favoritos às vagas na Libertadores, um dos indicados por Julio Gomes, Mauro Beting e Avallone foi o Flamengo. (Tenho uma incurável aversão a essa história de G4, mas aí é papo para outro post. Utilizo o argumento apenas para deixar claro o quanto nosso time, mesmo com tantos problemas, é respeitado.)

O trabalho de Zé Ricardo vem melhorando a arrumação dentro de campo, embora ainda sem equilíbrio e confiança para superar situações difíceis, como vimos contra Corinthians e Botafogo. Agora, é importante que Zé não enverede pelo mesmo caminho de Cristóvão Borges – o mais tático e atualizado dos treinadores que o Flamengo teve nas duas gestões da atual diretoria, mas que se perdeu por sua incontornável teimosia. Em vez de dar o braço a torcer e reconhecer a inviabilidade de escalar o time com três volantes, Cristóvão foi turrão e manteve o apego a uma formação em que só ele acreditava. Era ano de eleição na Gávea, a chapa esquentou e a caturrice custou-lhe o emprego, provocando o fim precoce do que poderia ter sido uma passagem bem-sucedida.

Já aprendemos que o Campeonato Brasileiro permite moles e vacilos até um certo ponto, mas eles só não interferem na boa colocação final se entendermos que há um momento-limite para que deixem de acontecer.

Um desses vacilos não para de nos atormentar desde o início de 2014: a tão misteriosa quanto inexplicável insistência com Márcio Araújo. Respeito a opinião dos que defendem a necessidade de um cara aplicado na marcação e ultradisciplinado taticamente, mas pra mim não dá. O volante centralizado continua sendo fundamental, para não deixar a zaga exposta e organizar a saída de bola, mas não há mais, em nenhum dos grandes times do mundo e nem nos melhores aqui do Brasil, volante que passe os noventa minutos tocando a bola para trás.

É ridículo. É irritante. É pequeno. Não é Flamengo.

Fonte: http://republicapazeamor.com.br/site/vai-pra-cima-ze

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2 Comentários

André MacêdoHá 4 meses

Discordo do colunista! O Zé é um bom treinador e está melhorando o time, mas é que infelizmente algumas falhas acontecem por parte do treinador, sim e aconteceriam mesmo se fosse o Guardiola... Temos que ver que o Flamengo ainda está em boa posição no campeonato como há muito tempo não estava... sinal de que o cara está acertando em alguma coisa! O time está sem confiança ainda pois no falta um líder dentro de campo, mas isso é uma coisa que independe do Zé Ricardo, pois isso tem que surgir no próprio grupo! Vejo na chegada do Diego e do Donatti candidatos a essa vaga (talvez mais o Donatti pelo porte físico que se impõe mais, mas o caráter do Diego pode também ser um diferencial, pois até aonde falam é super comprometido e disciplinado dentro e fora de campo)!

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FRANCISCO EDMO NACIONALIDADE FLAMENGUISTA-MACEIÓHá 4 meses

Meu caro colunista, SRN! Erros quaisquer treinadores cometem...erros, quaisquer zagueiros cometem...goleiros também e etc. No jogo passado, estávamos com um placar favorável e poderíamos ter confirmado. Poderíamos...desde que nossos atacantes, botassem o rabinho entre as pernas e fossem ajudar na marcação. Isso é uma direta para Guerrero e Cirino, que se acham craques e que estão jogando p... nenhuma e ainda por cima, ficam olhando nossos jogadores se matarem em campo e eles lá, com as mãos nos quadris! Muito bem...isto dito, eu pergunto: QUANDO NOSSO "TIME", SERÁ TIME? Quando nossos jogadores, entenderão que o jogo só acaba no apito final? e quando aprenderão a marcar com nove atrás da linha da bola, durante todo o jogo? quando eles terão a dignidade de respeitar o esforço do clube e o esforço de nós torcedores? E quanto ao trabalho do ZÉ, acho excelente! Só tenho pena dele, por que está com um grupo de jogadores sangue sugas!

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