Vai pra cima, Zé

Vai pra cima, Zé

Os treinadores do futebol brasileiro vivem reclamando que seus times não têm tempo para treinar. Procede. Entretanto, certas escolhas eu vou morrer sem compreender.

Desde a vitória por dois a zero sobre o Atlético Mineiro até a partida contra o Botafogo, o Flamengo teve seis dias completos sem jogos ou viagens. Houve tempo de sobra para treinos e ajustes, mas sou capaz de apostar meu salário – que não é lá essa coca-cola toda, mas me faz uma falta danada – que em nenhum momento desses seis dias Zé Ricardo tenha comandado um rachão que fosse com Cuéllar, Márcio Araújo, Willian Arão, Canteros e Mancuello juntos no meio-campo.

Eis a contradição: reclamam que não conseguem treinar, e na hora do jogo inventam uma escalação que jamais foi testada. Vocês entendem? Eu não.

Repito, reforço e reitero o que escrevi no post “Duas palavrinhas fatais”: pra mim, nesse momento, o técnico do Flamengo tinha e tem que ser o Zé Ricardo. Não faço ideia de quanto o Zé passou a ganhar após a oficialização. Cem mil? Cento e cinquenta? Sei lá. Mas entre efetivá-lo pagando em torno disso ou trazer um Abel Braga da vida para ganhar seiscentos ou setecentos contos e fazer algo parecido, ninguém precisaria pensar duas vezes.

Entretanto, o fato de preferir e apoiar Zé Ricardo não significa que não podemos criticar os seus erros – ainda mais quando os erros vão contra o histórico do clube e do que gostamos de ver, além de se contrapor ao que todos temos percebido no futebol que se pratica hoje.

Para não falar de coisas distantes da nossa realidade – Real Madrid, Barcelona, Bayern de Munique –, fiquemos com um exemplo local. Mesmo reconhecendo-o como um forte candidato, não sei se o Palmeiras será campeão. Ainda tem muita água para correr, muita bola para rolar, e não dá para prever como o time irá se comportar nas seis rodadas sem Gabriel Jesus (pelo menos até aqui, o melhor jogador da competição). Mas é fato que, um dia depois do nosso merecido castigo sofrido no sábado, o Palmeiras nos deu uma lição.

Creio que todos concordam que encarar o Inter, no Beira-Rio, é bem mais enjoado do que enfrentar o atual Botafogo na Ilha do Governador. Pois lá no Beira-Rio, quando ganhava por um a zero e a partida já estava no segundo tempo, sabem o que Cuca fez? Trocou um armador clássico (Cleiton Xavier) pelo meia-atacante Dudu. Logo depois, substituiu um atacante por outro (Erik por Rafael Marques), opção repetida a alguns minutos do fim, quando sacou Roger Guedes para a entrada do centroavante Leandro Pereira. O Palmeiras poderia ter sofrido o empate e até sair derrotado, mas Cuca acreditou no padrão do seu time, não lhe alterou as características e pôs mais três preciosos pontinhos na bagagem.

Sábado, os erros de Zé Ricardo começaram com a barração de Rafael Vaz para promover o retorno de Juan. Eu mesmo, aqui no RP&A, critiquei a displicente e absurda falha de Rafael Vaz contra o Fluminense – da mesma forma que reclamei de Alan Patrick pelo pênalti perdido contra o São Paulo, mas mantive a opinião de que ele não pode sair do time –, só que o nosso miolo de zaga tivera atuação irrepreensível contra o veloz ataque do Atlético Mineiro. Além disso, fiquei com a sensação de que, talvez pela falta de ritmo, com Juan perdemos a soberania que tínhamos adquirido nas jogadas aéreas.

Por outro lado, acho que cabe lançar parte da responsabilidade pela equivocada decisão na conta do próprio Juan. O papel de um experiente capitão, numa situação como essa, seria o de puxar Zé Ricardo para um canto e dizer: “Zé, não me põe no time ainda não, deixa o Rafael lá. A zaga está indo bem, daqui a pouco alguém junta três cartões amarelos, eu entro e aí depende de mim ficar ou não.” Apesar de seu amor ao clube, de seu profissionalismo e de seu caráter, Juan deu uma bela bobeada e perdeu a chance de enriquecer ainda mais seu brilhante currículo.

Em 12 de maio de 2016, o UOL publicou a opinião de cinco dos seus colaboradores – Julio Gomes, Mauro Beting, Menon, PVC e Roberto Avallone, todos profissionalmente formados em São Paulo – sobre os principais concorrentes ao título do Campeonato Brasileiro e às vagas para a Libertadores. Para o título, Julio Gomes apostou no Corinthians, Mauro Beting apontou o Atlético Mineiro, Menon e PVC ficaram com o Palmeiras, Avallone preferiu não arriscar. Entre os favoritos às vagas na Libertadores, um dos indicados por Julio Gomes, Mauro Beting e Avallone foi o Flamengo. (Tenho uma incurável aversão a essa história de G4, mas aí é papo para outro post. Utilizo o argumento apenas para deixar claro o quanto nosso time, mesmo com tantos problemas, é respeitado.)

O trabalho de Zé Ricardo vem melhorando a arrumação dentro de campo, embora ainda sem equilíbrio e confiança para superar situações difíceis, como vimos contra Corinthians e Botafogo. Agora, é importante que Zé não enverede pelo mesmo caminho de Cristóvão Borges – o mais tático e atualizado dos treinadores que o Flamengo teve nas duas gestões da atual diretoria, mas que se perdeu por sua incontornável teimosia. Em vez de dar o braço a torcer e reconhecer a inviabilidade de escalar o time com três volantes, Cristóvão foi turrão e manteve o apego a uma formação em que só ele acreditava. Era ano de eleição na Gávea, a chapa esquentou e a caturrice custou-lhe o emprego, provocando o fim precoce do que poderia ter sido uma passagem bem-sucedida.

Já aprendemos que o Campeonato Brasileiro permite moles e vacilos até um certo ponto, mas eles só não interferem na boa colocação final se entendermos que há um momento-limite para que deixem de acontecer.

Um desses vacilos não para de nos atormentar desde o início de 2014: a tão misteriosa quanto inexplicável insistência com Márcio Araújo. Respeito a opinião dos que defendem a necessidade de um cara aplicado na marcação e ultradisciplinado taticamente, mas pra mim não dá. O volante centralizado continua sendo fundamental, para não deixar a zaga exposta e organizar a saída de bola, mas não há mais, em nenhum dos grandes times do mundo e nem nos melhores aqui do Brasil, volante que passe os noventa minutos tocando a bola para trás.

É ridículo. É irritante. É pequeno. Não é Flamengo.