O presidente Luiz Eduardo Baptista admitiu publicamente que existe um gap entre o sub-20 e o futebol profissional do Flamengo, um problema estrutural que explica — em parte — por que o Mengão não atingiu sua meta de arrecadação com vendas de jogadores em 2026. O clube esperava R$ 250 milhões, mas conseguiu apenas R$ 171,6 milhões. A diferença de R$ 78,4 milhões é um baque significativo para o planejamento financeiro.
Bap não escondeu a frustração. “Hoje, quando observamos o elenco, entendemos que existe um gap entre o que temos no sub-20 do Flamengo e o futebol profissional. Isso me força a fazer algumas escolhas e trazer jogadores mais caros. Isso é sustentável no longo prazo? Não”, declarou o presidente.
A fala toca em um ferimento antigo da Nação rubro-negra: a baixa participação de atletas formados internamente no time principal. Dados da temporada 2026 mostram que dos 110 gols marcados pelo clube, apenas 23 tiveram participação direta de jogadores nascidos na base do Flamengo. Isso equivale a pouco mais de 20% da produção ofensiva.
Ryan Roberto, Wallace Yan e João Gomes puxam arrecadação
Mesmo abaixo da meta, três transações elevaram a receita do Mais Querido em 2026. Ryan Roberto saiu para o Shakhtar Donetsk por R$ 56,3 milhões, dos quais R$ 39,4 milhões ficaram com o clube carioca. Wallace Yan foi negociado com o Bragantino por R$ 36,2 milhões. João Gomes completou o trio ao se transferir do Wolverhampton para o Aston Villa por R$ 35,2 milhões.
As três operações somam R$ 110,8 milhões — mais de 64% de toda a arrecadação do Mengão com vendas no ano. Sem elas, o cenário seria dramaticamente mais crítico. A dependência de poucas negociações revela também a dificuldade estrutural do clube em diversificar suas fontes de receita com atletas.
O impacto financeiro é imediato. Com a receita menor que o planejado, o Flamengo precisará ajustar o orçamento destinado a reforços, manutenção de infraestrutura e operacional. A pressão aumenta ainda mais considerando preocupações simultâneas — como a continuidade do patrocinador master — que já afetam o dia a dia administrativo.
Formação vs. compra: um dilema caro para o clube
A admissão de Bap sobre o gap da base não é nova. É o reconhecimento público e sem filtros de um problema que move decisões estratégicas há anos. Quando o clube não consegue lançar jogadores formados internamente com qualidade suficiente para o elenco profissional, é forçado a buscar no mercado — onde os preços são exponencialmente maiores.
Trazer um jogador pronto é mais caro do que desenvolver um jovem da base. Mas se a base não fornece opções confiáveis, o investimento externo vira inevitável. Esse ciclo esvazia a receita que deveria vir justamente da venda de garotos promissores. O Mengão vira refém de si mesmo.
A estatística dos 110 gols da temporada com apenas 23 alimentados por jogadores formados internamente expõe essa realidade. Significa que a Nação rubro-negra está vendo um time composto majoritariamente por atletas adquiridos no mercado — investimento que não se traduz em vendas futuras potencialmente lucrativas.
Bap sinalizou que essa estrutura não é sustentável no longo prazo, o que abre duas possibilidades: ou o clube investe fortemente na melhoria da formação — treinadores, infraestrutura, metodologia — ou continua preso nesse modelo de custo alto e retorno baixo.
A meta de R$ 250 milhões em vendas para 2026 não foi arbitrária. Refletia a expectativa do clube de que conseguiria vender garotos desenvolvidos internamente com regularidade. Ficar em R$ 171,6 milhões sugere que essas vendas esperadas simplesmente não aconteceram — ou aconteceram em menor volume que o previsto.
Enquanto isso, o clube segue com seu planejamento financeiro e de elenco sob pressão. A arrecadação menor que o esperado força ajustes no investimento em reforços, na renovação de contratos e na manutenção de estruturas. O efeito cascata é inevitável.
O presidente do Flamengo deixou claro: o problema não é falta de dinheiro ou falta de vontade. É a qualidade desigual entre o que a base produz e o que o futebol profissional precisa. Resolver isso exige mudanças profundas — e não surtirão efeito imediato. Enquanto isso, o Mais Querido continua bancando caro o que deveria ganhar barato.

Edmilson Lani é o responsável editorial do Flamengo RJ. Atua na curadoria, revisão e publicação de conteúdos do site, acompanhando de perto o noticiário do clube, os bastidores, o mercado da bola, os jogos e as análises do dia a dia. O site também utiliza fluxos de automação e ferramentas de apoio editorial no processo de produção, sempre sob supervisão humana sobre o conteúdo publicado.