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Camilo Coelho: Torcida do Flamengo começa a pagar a conta, mas será que vai ser suficiente?

Sai de campo o Bradesco, entra o Seu Antônio, porteiro em Copacabana. Deixam o jogo a Ambev e o Itaú, entram o Gilson, da Favela Santa Marta, e o Marcos, que mora no interior do Maranhão. Saem Fiat, Ipiranga, Chevrolet, Vivo, Casas Bahia e entra você, o torcedor que é apaixonado pelo clube do coração. E não se deixe enganar, porque essa contribuição do torcedor não vai ajudar no pagamento da folha salarial do time de futebol. Esse dinheiro vai, no máximo, ajudar a compensar o valor fixo que será perdido da TV com esse novo cenário. O jogo de domingo entre Flamengo x Volta Redonda já mostrou um pouco do que tenho falado, as entrevistas pós jogo e alguns números que tive acesso depois do último texto que escrevi (leia aqui) mostram um cenário ainda mais complicado de entender. E dão a certeza de que a questão é muito mais profunda do que parece. E precisa ser discutida.

Fazendo uma conta básica, usando o Campeonato Brasileiro como base, o Flamengo terá que lucrar R$ 10 milhões por jogo para igualar o modelo atual. Vou explicar. Estou usando nessa análise as informações de 2019, quando o Flamengo recebeu da TV Globo/Globosat aproximadamente 190 milhões de reais pelos direitos do Campeonato Brasileiro para ter seus jogos na TV Aberta (Globo), TV Fechada (Sportv) e PPV (Premiere). Levando em conta que foram 38 rodadas, o Flamengo recebeu cerca de 5 milhões de reais por partida. Como nesse novo modelo o clube terá direito a receber pelos direitos em apenas 19 rodadas, esse número então pula para 10 milhões de reais por partida. Para igualar, não tem nenhum lucro aí. Não tem teoria, são números. É nesse bolo de dinheiro que entra o torcedor e, por isso, estou insistindo que o dinheiro do Seu Antônio, do Gilson, do Marcos e o seu vai servir, na verdade, para cobrir esse dinheiro que o clube deixou de ganhar da TV. Não vai ajudar em contratações e manutenção de elenco, como tentam justificar.

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Poderiam ter sentado na mesa para renegociar com a TV, buscar ganhar mais ou até ter mantido esse valor que está garantido e aí sim, com algum outro tipo de campanha, pedir o dinheiro do torcedor para manter o Flamengo forte. Como já aconteceu em muitas oportunidades, a mais conhecida delas os tijolinhos do CT. A torcida sempre apareceu, sempre ajudou. Mas o dinheiro da TV estava sempre ali, garantindo o fluxo de caixa. E agora?

Para chegar perto desses 10 milhões, além dos torcedores comprando ingresso virtual para cada partida, o Flamengo terá que fazer um ótimo trabalho de marketing/comunicação para criação de novos formatos para captar dinheiro durante as transmissões e para atrair patrocinadores interessados em falar, exclusivamente, com a torcida do Flamengo. Quanto isso vai valer? E qual será o impacto disso para os patrocinadores atuais, aqueles que estão exibindo suas marcas no uniforme e nas outras propriedades do Flamengo? Quando assinaram com o Flamengo, compraram uma promessa de que o clube estaria sempre na TV, com o maior número de jogos transmitidos pela TV no país, falando com milhares de pessoas, torcedores do Flamengo ou não. O horário nobre do futebol da Globo foi usado para convencer esses patrocinadores e está dentro do valor que eles toparam pagar. Sem essa exibição, falando “apenas” (é muita gente ainda) com a torcida do Flamengo, o mesmo patrocinador vai querer continuar pagando o mesmo valor? E a tal exposição de marca?

O primeiro jogo da FlaTV, contra o Boavista, rendeu ao Flamengo um lucro aproximado de 500 mil reais, descontados os custos de transmissão. Segundo as primeiras informações, o jogo contra o Volta Redonda rendeu ao Flamengo um lucro de cerca de 1 milhão de reais. Um jogo confuso, com pouco tempo de promoção, com falhas técnicas do parceiro de exibição (que fica com 20% das vendas) e ainda com poucas inserções de patrocinadores. Mas era uma semifinal de campeonato. Pode e vai aumentar muito ainda esse lucro. Mas vai chegar em 10 milhões de reais para igualar o que acontecia até hoje? Enquanto escrevo, o Fluminense ganhou o sorteio (?!?) do mando de campo para a final do Campeonato Carioca. E com a bolinha errada o Flamengo perde uma arrecadação que ganharia no formato anterior. Quando troca o certo por algo que pode ser maior ou menor, dependendo de uma série de fatores, corre riscos como esse.

Também fica ainda mais dependente ainda do resultado dentro de campo. Esse time atual, esse elenco vitorioso, vai atrair a torcida, que deve abrir a carteira para assistir um futebol de primeira qualidade. Aqueles que tiverem dinheiro, né? Mas isso é tema para outro post. Mas e se, por acaso, começar a não ganhar mais? O futebol é imprevisível, um erro de arbitragem, um gol de barriga aos 45 do segundo tempo ou até algo extra-campo acontece e tudo muda. Para a TV nunca importou muito o time que estaria em campo, o dinheiro era o mesmo. E nesse novo modelo? Os torcedores pagariam para ver os times de 10 anos atrás?

Premiere: peso na balança

Mas porque então o Bahia e o Athletico, principalmente, e outros times embarcaram nessa onda da MP com o Flamengo? No texto anterior, quando não coloquei nas contas o dinheiro que o Flamengo recebeu pelas transmissões Premiere, acabei pulando algo muito importante. O PPV é hoje o grande peso dessa balança, pendendo positivamente para o Flamengo. Voltamos ao cenário Campeonato Brasileiro de 2019. O Bahia recebeu R$ 8 milhões da TV Globo, enquanto o Flamengo ficou com R$ 120 milhões. Explica um pouco o posicionamento do excelente Guilherme Bellintani, presidente do Bahia. Mas não explica o movimento liderado pelo Flamengo.

Vamos voltar para os números?

A TV Globo tem três fontes de renda com o futebol: pacote de mídia TV Globo (Aberta) + pacote de mídia SporTV (Fechada) + assinaturas Premiere (PPV) para transmitir Campeonato Brasileiro, Copa do Brasil, Estaduais e Libertadores. Voltamos então para o cenário 2019, quando as seguintes marcas compraram as cotas de patrocínio:

Pacote TV Globo: Ambev, Bradesco, Fiat, Ipiranga, Vivo e Sportingbet.

Pacote SporTV: Ambev, Casas Bahia, Chevrolet, HyperaPharma, Itaú e Vivo.

Assinantes Premiere

O pacote de mídia da TV Globo custava R$ 310 milhões cada e rendeu para a emissora R$ 1.8 bilhões. Não sabemos os valores envolvidos no pacote de mídia do SporTV, mas rendeu R$ 1 bilhão ou um pouco mais para a emissora. Soma-se a isso aproximadamente 1.8 bilhões de assinaturas PPV. A Rede Globo então consegue arrecadar cerca de 4.6 bilhões de reais com os pacotes de mídia do futebol. E faz isso no ano anterior, quando os campeonatos ainda nem começaram. Os parceiros que estão não querem sair. E tem um monte de outras marcas na fila querendo entrar.

Com uma receita garantida aproximada de R$ 4.6 bilhões, a empresa gasta aproximadamente R$ 2.1 bilhões para a compra dos direitos de transmissão do Campeonato Brasileiro, Copa do Brasil, Brasileirão Série B, Estaduais e Libertadores. Dinheiro que vai para os clubes de futebol. Ainda gasta mais alguns milhões para a compra de direitos da Seleção Brasileira. E outros milhões para a produção e exibição de todas essas partidas. A conta ainda fecha e segue sendo lucrativa para a TV Globo. Parte dessas informações foram extraídas de um post do ótimo Rodrigo Mattos, colunista do UOL.

Por que estou apresentando esses números? Queria mostrar que os patrocinadores do “Futebol na Globo” ainda bancam essa brincadeira chamada futebol. O dinheiro do torcedor, que aparece na linha PPV do Première é uma importante fonte de renda para a emissora, mas não é o grosso. A pergunta que fica é: será que esses patrocinadores vão trocar a Globo pelas transmissões independentes dos clubes?

Vou deixar essa pergunta aqui e queria relembrar que a ideia desses textos é apenas colocar outros olhares dentro de uma questão crucial para o futuro do futebol no Brasil. É preciso uma discussão muito mais ampla. Não podemos reduzir esse tema à MP do Flamengo ou uma briga ideológica. É negócio. Tem dados e números que precisam aparecer para essa discussão. Curtiu e quer continuar o papo? Estou lá no twitter @camilo_coelho.

Publicado em colunadofla.com.