Jorge Jesus fala sobre seus objetivos no Brasil
A primeira exclusiva de Jorge Jesus no Brasil foi… Para Portugal. O jornal "A Bola", que enviou a repórter Irene Palma para acompanhar os primeiros dias de trabalho do técnico português no Flamengo, publicou nesta quarta-feira uma longa entrevista, feita na semana passada no Ninho do Urubu, com direito à capa e quatro páginas inteiras.
A data escolhida para a publicação foi pelo aniversário do treinador, que completou 65 anos nesta quarta, e a sua estreia na Libertadores, principal competição da América do Sul, ao enfrentar o Emelec no Equador. Animado com o desafio, Jesus usou os anos de experiência da carreira para elogiar o Flamengo ao comentar o início de seu trabalho:
– Estou a trazer o meu saber. Eu não venho para aqui descobrir a pólvora como dizemos em Portugal. Eu venho para aqui trazer as minhas ideias e é aquilo que tenho feito ao longo da minha carreira. Temos tido êxito por todos os sítios onde temos passado e também queremos tê-lo aqui, porque o Flamengo é um clube que tem tudo pata dar certo.
Jorge Jesus foi a capa do Jornal A Bola nesta quarta-feira em Portugal — Foto: Reprodução
Um fato revelado por Jesus na entrevista é que seu agente, Pini Zahavi, foi contra a vinda do técnico para o Brasil. Curiosamente, o empresário israelense quase chegou a fazer uma parceria com o Flamengo em 2007, para colocar jogadores no clube. Mas as conversas não avançaram.
– O meu empresário, como toda a gente sabe agora é o Pini Zahavi, ficou extremamente zangado comigo, porque tinha equipas em Inglaterra, não vale a pena estar a falar agora… (…) Um dos desafios que me fez vir para o Brasil, foi eu sentir que as pessoas me queriam. Sentir a força, a confiança e o esforço que fizeram para me contratar. A partir daí fiquei com a nítida ideia e sensação que ia treinar o Flamengo, sempre com o meu agente a ligar-me todos os dias a dizer "não faças isso"’, mas eu fiz.
Confira a entrevista na íntegra:
A Bola: Obrigado por nos receber. Estamos no ginásio do Flamengo: já sente que isto é a sua casa. Pelo menos é o que parece?
Jorge Jesus: – É. Nós entramos muito cedo e saímos muito tarde. Isto faz parte da nossa vida e da nossa profissão. Nós fomos sempre assim. Onde trabalhamos, gostamos de ter a consciência que o nosso profissionalismo pode atingir os objetivos mais rápido do que aquilo que nós queremos. Só com trabalho é que conseguimos passar as nossas ideias e este local, é um local, como vocês veem, de grande qualidade, tudo moderno, onde aqui é o princípio do treino de todos os profissionais do Flamengo comigo e já o era com o outro treinador, Abel Braga.
Tem recebido muito carinho dos brasileiros aqui no Rio de Janeiro. O que é que o fez vir para aqui?
– O que é que me fez vir para aqui?!… A nossa vida, a vida de treinador… Eu nunca pensei ir treinar para a Arábia Saudita e fui. Eu nunca pensei sair de Portugal e saí. O Brasil era uma paixão minha de futebol. O Brasil é um país de futebol e o Flamengo é um clube que é mundialmente conhecido, que é dos maiores clubes do mundo e eu vim ter a certeza disso.
– O Flamengo é mais do que um clube. É uma religião, é uma nação. São 40 milhões… São quatro vezes Portugal. E, portanto, o que me trouxe aqui foi mais os objetivos desportivos, onde eu posso conquistar uma Libertadores, um Campeonato do Mundo de Clubes e também o Campeonato Nacional. Chegamos aqui com oito pontos de atraso, recuperamos. Está tudo em aberto.
Nesta caminhada pela sua vida, e olhando para este espaço onde nós nos encontramos no interior deste grande clube do Brasil, é um homem feliz?
– A minha felicidade é a minha profissão, os meus amigos e a minha família. Esses é que me dão a felicidade como dão a qualquer pessoa. Eu faço aquilo que amo e o que amo é o futebol. Todos os dias tenho cada vez mais motivação para trabalhar.
– Todos os dias estou a criar coisas novas para a minha metodologia de treino e, portanto, não sei contabilizar as horas, as horas passam por mim e quando estou metido aqui dentro, há dias em que chego às 7 horas da manhã e saio às 8 horas da noite. Porque acho que só assim é que se pode querer atingir resultados desportivos, que é aquilo que eu quero, neste momento, como quero sempre.
O campeonato brasileiro não era desconhecido para si, já assistia aos jogos habitualmente. Foi fácil essa adaptação?
– Facílima. A língua é a mesma. Eu conhecia o futebol brasileiro, não tão bem como se estivesse cá, mas via a maior parte dos jogos do campeonato brasileiro. Estou farto de dizer isto… Eu tinha em Portugal um canal que dava todos os jogos do campeonato nacional brasileiro, da primeira a e da segunda divisão. E, por isso, eu conhecia as dificuldades que este campeonato tem.
– Tenho a certeza do que estou a dizer: este é um dos campeonatos mais equilibrados do mundo. É um campeonato onde há muito talento em todas as equipas. Todos pensam que podem ganhar um ao outro. Não há nenhum adversário que vá para o jogo a pensar que não pode ganhar e isto torna-se um campeonato muito competitivo. Com jogadores de talento tudo se torna mais apaixonante e com um grau maior de dificuldade.
Diz que pode ganhar aqui a Libertadores e o Campeonato do Mundo de Clubes. A última Libertadores e o Campeonato do Mundo é de 1981. O último campeonato brasileiro é de 2009 e a última Copa de 2013. Quer fazer história no Flamengo?
– Este clube é um clube grande, mas que em termos de títulos não tem tido essa grandeza, ou seja, não tem ganho muitos títulos para a dimensão que tem. Eu quando cheguei cá não sabia que a última Libertadores foi em 1981 e que o último Campeonato foi em 2009. E que o último título que ganhou foi a Copa do Brasil em 2013. Este clube tem tudo para conquistar isso.
– Tem uma estrutura espetacular, tem uma massa associativa, uma torcida como eles dizem, que não há igual no mundo, não há, não há hipótese. Tem um mítico estádio Maracanã que toda a gente conhece no mundo, 70 mil pessoas sempre que o Flamengo joga em casa. O que é que há maior do que isto? É ganhar títulos e isso é a grandeza que este clube tem de ter, sabendo que não vai ser fácil, mas foi esse desafio que me fascinou.
– Não vim para o Flamengo por questões financeiras, se não vinha para aqui… Não há comparação possível entre o que eu podia ganhar e o que vim ganhar para aqui! Mas o meu desafio foi esse e também foi sentir que estou num país de futebol. E no dia em que sair, irei conhecer muito melhor os jogadores brasileiros do que quando aqui cheguei.
Diz que não veio pelo dinheiro, mas pelo desafio. Tinha outras propostas antes de aceitar a do Flamengo? Tinha mercado na Europa?
– Claro. O meu empresário, como toda a gente sabe agora é o Pini Zahavi, ficou extremamente zangado comigo, porque tinha equipas em Inglaterra, não vale a pena estar a falar agora… E eu liguei-lhe a dizer que me tinha aparecido uma equipa que era o Flamengo e que eu não ia esperar. Essa equipa estava numa final e queria que eu esperasse e eu disse que não ia esperar e a outra equipa que me estás a propor, vou ganhar jogos, mas não vou ganhar títulos. Vou ganhar dinheiro, mas não vou ganhar aquilo que me interessa para a minha carreira.
– E não falando das propostas que eu tive para treinar uma equipa no Egito que é o Pyramids, que foi a mesma pessoa que me levou para a Arábia Saudita, não o empresário, mas o dono do clube que me propôs umas condições financeiras, que se calhar nunca mais vou ter, e eu não quis. Segundo me parece, ele esta semana comprou o Parma. São desafios que eu nunca pensei ter na minha carreira. Eu nunca pensei sair de Portugal, sinceramente. Estou farto de dizer isto.
E tinha mercado em Portugal?
– Não. Agora não, por isso é que tive de sair. Mas o meu desejo é voltar como é óbvio!
Que meta é que tem? Ganhar todos esses títulos? Ser vencedor aqui, mas voltar a treinar um dos grandes em Portugal? Ou quando acabar a experiência no Brasil vai arrumar as botas?
– Não. Longe disso. A minha carreira ainda tem mais uns quantos anos… Eu nem sei contabilizar quantos anos é que vou ter mais na minha carreira. Sinto-me tão jovem agora como quando tinha 30 e tal ou 40 anos. E isso está posto de parte. Não sei qual é o dia, não sei onde… Bem, eu sei onde. Penso que vou terminar a minha carreira em Portugal, mas nesta vida de treinador nunca se sabe, nunca se tem uma noção exata do que vai ser o fim como treinador. A complexidade da nossa carreira faz com que não se possa projetar muito além da época desportiva.
Ou seja, regressar ao Benfica, regressar ao Sporting ou treinar o FC Porto é algo que ainda está em aberto para si?
– Tudo está em aberto para mim, em Portugal. Eu quando quiser treinar um clube em Portugal, ache que tenho capacidade e as pessoas me queiram… O importante é sentir que me querem. Um dos desafios que me fez vir para o Brasil, foi eu sentir que as pessoas me queriam. Sentir a força, a confiança e o esforço que fizeram para me contratar. A partir daí fiquei com a nítida ideia e sensação que ia treinar o Flamengo, sempre com o meu agente a ligar-me todos os dias a dizer "não faças isso", mas eu fiz.
Aqui dá autógrafos na rua, tira fotografias, é muito acarinhado. Como é o seu dia a dia aqui no Brasil?
– É igual a Portugal. Em Portugal é exatamente a mesma coisa. Eu treinei as duas maiores equipas de Lisboa, onde 99,9 % são adeptos dos dois clubes. Penso que neste momento não sou ainda tão conhecido como em Portugal, apesar deste clube … Os adeptos do Flamengo, sim. E não são tão pouco quanto isso, são 40 milhões… E ainda mais aqui no Rio de Janeiro.
Consegue ter uma vida normal aqui?
– A minha vida é a que faço sempre. Do trabalho para casa e de casa para o trabalho! Em Portugal é igual.
Você vive futebol?
– É a minha vida. É aquilo que eu gosto de fazer. Claro que também tenho os meus hobbies, gosto de estar com os meus amigos. Claro que não tenho uma colônia de amigos como tinha em Lisboa. A adaptação tem sido fácil para mim. A única coisa que eu sinto falta, como é óbvio, é de Lisboa, dos meus amigos e da família. Mas aqui tratam-me muito bem, com muito carinho. Estão sempre preocupados em que não me falte nada e isso tem sido muito importante.
Como é que vê a forma como em Portugal estão a olhar para esta sua experiência no Brasil?
– Eu não sei como é que em Portugal veem. Tenho algumas ideias das pessoas que falam comigo, mas não sei concretamente como é que as pessoas estão a ver esta minha nova aventura no Brasil. Agora, sabendo que os portugueses sempre tiveram uma amor e carinho por tudo o que é brasileiro… Ainda me lembro quando as telenovelas brasileiras chegaram a Portugal, a loucura que foi. Temos um carinho especial pelo Brasil. Temos a noção das grandes seleções do Brasil e do seu futebol. Por isso, é natural que as pessoas se interessem mais pelo que estou a fazer.
Consegue acompanhar o que se passa em Portugal e nos clubes portugueses?
– Não tenho acompanhado. Ainda não tenho nenhuma box para ver a televisão portuguesa. Portanto, estou fora do que desportivamente se passa em Portugal. Vejo algumas vezes no canal português, mas desportivamente não. Vou lendo algumas coisas na internet, mas também não há muito tempo para isso. Tenho de estar constantemente ligado ao computador, mas é por causa de outras situações como os adversários do Flamengo e do próprio Flamengo.
Vai estrear-se na Libertadores com um jogo no Equador. Nunca imaginou jogar no Equador…
– [Risos] Nunca, mas é uma experiência bonita que eu vou ter na minha vida e isso também me faz crescer como treinador e como ser humano, porque vou conhecendo novas culturas. O Brasil, dá para perceber agora, que é um país enorme e com grande potencial. Tudo isso me enriquece como homem.
Quando olhou para o plantel do Flamengo pediu alguns reforços, o que é perfeitamente natural, de molde a fazer ajustes. É fácil para si encaixar todo esse estilo de quem estava habituado a trabalhar na Europa e agora aqui no Brasil?
– Eu apanhei um grupo espetacular. Um grupo que adora trabalhar, aprender e ansioso por perceberem ao máximo aquilo que eu lhes passo. Tem sido um dos grupos onde temos tido maior facilidade de trabalho. Em Portugal e na Europa tem-se a noção de que o jogador brasileiro não gosta de trabalhar! É completamente diferente.
– Em Portugal diz-se que se numa equipa existe mais do que quatro ou cinco brasileiros, deixa de ser uma equipa e passa a ser uma equipa de samba! [sorri] mas não é verdade. Eles são extremamente profissionais, rigorosos e aquilo que mais aprecio neles é que gostam muito de aprender!
Sente que está a trazer esse saber para partilhar com eles?
– Estou a trazer o meu saber. Eu não venho para aqui descobrir a pólvora como dizemos em Portugal. Eu venho para aqui trazer as minhas ideias e é aquilo que tenho feito ao longo da minha carreira. Temos tido êxito por todos os sítios onde temos passado e também queremos tê-lo aqui, porque o Flamengo é um clube que tem tudo pata dar certo.
Vem para aqui com uma equipa técnica da sua confiança. Fez algumas reformulações na Arábia Saudita com a saída de dois elementos e a entrada de outros tantas. Quero que me fale um bocadinho sobre as pessoas que o acompanham. É o seu grupo de confiança?
– Tenho uma equipa técnica extraordinária. O Mário [Monteiro] já trabalha comigo há cerca de 25 anos, se não for mais. É aquele que tem mais anos comigo. O Márcio [Sampaio] já trabalha comigo desde Braga. Os dois jovens já me acompanham desde o Benfica, ou seja, já trabalham comigo há dez/onze anos.
– E agora entraram mais dois elementos mais jovens, que tinham entrado na Arábia Saudita, que são o Tiago e o João de Deus. O João de Deus já tinha trabalhado comigo no Sporting. Temos uma equipa com muita qualidade e com muita paixão. É isso que também procuro ter na minha equipa técnica, pessoas com paixão por aquilo que fazem.