Durante um seminário organizado pela Conmebol nesta segunda-feira, Filipe Luís compartilhou detalhes sobre sua transição dos gramados para o banco de reservas como técnico do Flamengo. O ex-lateral admitiu que as primeiras semanas no comando da equipe principal foram marcadas por um intenso desafio pessoal e técnico, revelando que chegou a deixar as atividades “quase chorando” devido à dificuldade inicial em elaborar e aplicar metodologias de treinamento compatíveis com o nível do elenco profissional.
A confissão de Filipe Luís expõe uma realidade frequente na transição de ídolos para cargos técnicos: o conhecimento do futebol como jogador não se traduz automaticamente em capacidade de ensinar. O ex-lateral ressaltou que esse período foi fundamental para seu amadurecimento, exigindo uma postura de humildade para reconhecer limitações técnicas e buscar suporte especializado. “Eu não sabia fazer treinamentos. Fui buscar uma pessoa que sabe de metodologia, sabe fazer treinamentos, que se encaixa com a minha ideia de jogo. E aí o segredo é ter gente melhor que você ao lado,” explicou Filipe, numa reflexão que contrasta com a trajetória vitoriosa que veio depois.
“E aí eu tive a sorte de encontrar um assistente que me ajudou muito com montagem de treinamentos. E na primeira semana eu saí quase chorando. Então isso para mim foi também uma lição de humildade.”
A solução veio com a contratação de Iván Palanco como assistente especializado em metodologia de treinamento. Filipe Luís atribui grande parte de seu êxito posterior à parceria estratégica com o profissional, que não apenas compartilhava sua filosofia de jogo como dominava a montagem de sessões de treino estruturadas e eficientes. Essa escolha revelou-se acertada: o técnico conseguiu implementar sua ideia ofensiva—centrada no controle da posse de bola, conforme reconhecido por jogadores como Léo Ortiz—sem abrir mão da solidez defensiva.
A experiência inicial contrastava dramaticamente com a realidade dos treinamentos com jogadores profissionais. Filipe observou que treinar o elenco principal era substancialmente mais fácil que trabalhar com a base: os atletas profissionais absorvem informações com urgência porque sabem que seu desempenho impacta suas famílias e carreiras. “Quando você lhe dá uma informação, eles estão jogando a vida. Eles estão jogando a vida dos seus filhos, eles precisam dessa informação para jogar bem,” destacou o ex-técnico.
A passagem de Filipe Luís pelo comando técnico do Flamengo, iniciada em outubro de 2024, encerrou-se com números que falam por si. Em 101 partidas, acumulou 63 vitórias, 23 empates e apenas 15 derrotas—um aproveitamento de 69,3%, entre os melhores da história rubro-negra. Com cinco troféus conquistados, incluindo a Libertadores e o Brasileirão de 2025, além da Copa do Brasil 2024, consolidou-se como o segundo técnico mais vitorioso da história do clube.
O discurso de Filipe no seminário da Conmebol transcende a narrativa pessoal de superação. Representa um depoimento raro de um técnico bem-sucedido que reconhece publicamente suas limitações iniciais e credita parte de seu sucesso à inteligência de cercar-se de especialistas. Em um ambiente onde vaidades técnicas frequentemente impedem que treinadores admitam deficiências, a honestidade de Filipe Luís sobre a primeira semana “quase chorando” reforça uma lição fundamental: no futebol moderno, ganhar títulos depende não apenas de visão tática, mas também de humildade para aprender e capacidade de montar equipes técnicas complementares.

Edmilson Lani é o responsável editorial do Flamengo RJ. Atua na curadoria, revisão e publicação de conteúdos do site, acompanhando de perto o noticiário do clube, os bastidores, o mercado da bola, os jogos e as análises do dia a dia. O site também utiliza fluxos de automação e ferramentas de apoio editorial no processo de produção, sempre sob supervisão humana sobre o conteúdo publicado.