Flamengo Tricampeão Carioca em Meio a Desafios e Novo Rumo com Léo Jardim

O Clube de Regatas do Flamengo consolidou sua hegemonia no Campeonato Carioca ao conquistar o tricampeonato consecutivo em 2026, um feito que marca a sétima vez na história do clube. A vitória, obtida sobre o Fluminense em uma emocionante disputa de pênaltis no Maracanã, garantiu o 40º troféu estadual ao Rubro-Negro.

A conquista do tricampeonato acontece em um momento de transição e reestruturações significativas nos bastidores do clube. A chegada do técnico Leonardo Jardim, que assumiu o comando a poucos dias da grande final, trouxe um novo fôlego e, ao mesmo tempo, gerou questionamentos sobre a preparação da equipe. Este título, alcançado com uma rápida adaptação, surge como um marco inicial para a nova gestão técnica e para os desafios que se apresentam com o calendário nacional e internacional.

A final contra o Fluminense foi decidida nos detalhes. Após um empate sem gols no tempo normal, a emoção tomou conta da disputa de pênaltis. O goleiro rubro-negro Agustín Rossi brilhou ao defender as cobranças de Guga e Otávio, garantindo a vitória por 5 a 4, apesar de Luiz Araújo ter perdido uma das penalidades para o Flamengo. Este é o segundo ano consecutivo em que o Flamengo supera o Fluminense na final do Campeonato Carioca, repetindo o feito de 2025.

A história de tricampeonatos consecutivos do Flamengo no Carioca é rica, e esta se soma a outras seis eras vitoriosas: 1942–1943–1944, 1953–1954–1955, 1978–1979–1979 (quando venceu dois campeonatos no mesmo ano), 1999–2000–2001, 2007–2008–2009 e 2019–2020–2021.

A Turbulência e os Desabafos nos Bastidores

A semana que antecedeu a final foi marcada pela demissão do então técnico Filipe Luís, uma decisão que pegou de surpresa o elenco e a comissão técnica. Segundo relatos, a informação da não continuidade de Filipe Luís foi comunicada pelo diretor José Boto, por determinação do presidente Luiz Eduardo Baptista (Bap), logo após a goleada do Flamengo por 8 a 0 sobre o Madureira. Em nota oficial, o clube confirmou a mudança.

O zagueiro Léo Ortiz expressou sua tristeza com a situação, criticando abertamente a maneira como a diretoria lidou com a saída de Filipe Luís. Para Ortiz, faltou respeito na comunicação da decisão a um ídolo do clube. O defensor pontuou que, independentemente do mérito da demissão, que cabe à direção, a forma como foi conduzida a situação “poderia ter sido diferente”, ressaltando a importância de tratar os ídolos do Flamengo com o devido valor.

Léo Ortiz também levantou um debate sobre o planejamento da pré-temporada do Flamengo, questionando a escolha do clube de encurtar a preparação. Ele explicou que, para um zagueiro que joga em linha alta, a pré-temporada é essencial para “sofrer” e adquirir a base física necessária. A ausência desse período obrigou os atletas a buscarem o ritmo ideal já nas partidas valendo título, o que, em sua visão, expôs o grupo.

O camisa 3 destacou a alta expectativa sobre os jogadores do Flamengo. Em suas palavras, “Quando você não rende da maneira esperada, você às vezes não está rendendo horrível, mas você está rendendo médio. Para as pessoas, a expectativa é alta, você não está bem.” Essa busca pelo condicionamento ideal com a bola rolando foi descrita por ele como um processo de risco, comparado a “trocar o pneu com o carro andando e ir embora”.

O zagueiro admitiu que o grupo foi lançado aos jogos sem o preparo necessário, afirmando que “Este ano não teve (pré-temporada), foi uma coisa muito rápida, a gente já começou jogando, então você tinha que pegar durante o jogo e você não estava 100% preparado ainda”. Ele lamentou que o trabalho que deveria ser feito longe dos holofotes acabou transparecendo em campo, afetando o rendimento técnico.

Um dos pontos mais contundentes do desabafo de Ortiz foi a crítica ao planejamento do clube. Ele sugeriu que o Flamengo se preocupou excessivamente com o risco de uma eliminação precoce no Campeonato Carioca, desviando o foco do que realmente importa para uma instituição de seu porte. Ortiz defendeu que o Rubro-Negro deveria ter um olhar mais ambicioso sobre o próprio calendário, priorizando “títulos grandes” como a Libertadores, o Brasileirão e a Copa do Brasil, especialmente considerando o nível de exigência dos adversários em clássicos e finais no início da temporada.

Outros jogadores também se manifestaram sobre o ambiente conturbado. O zagueiro Léo Pereira admitiu que o início de 2026, com resultados negativos e a demissão de Filipe Luís, o assustou, remetendo ao “fantasma” do desastroso ano de 2023. Ele revelou que o grupo havia perdido duas finais e que a conquista do Carioca, “diante de um grande adversário”, trouxe “tranquilidade para o técnico novo iniciar esse ciclo com um pouco mais de calma”.

O lateral-direito Guillermo Varela descreveu o dia a dia no Flamengo como uma “loucura”, comparando a turbulência atual com a temporada de 2022, ano em que o Flamengo também viveu uma crise no meio do ano, trocou de técnico e acabou faturando a Copa do Brasil e a Libertadores. Para o uruguaio, no Flamengo, “tem que estar preparado para qualquer coisa”, refletindo a intensa pressão e a necessidade constante de adaptação.

Varela elogiou a abordagem de Léo Jardim nos poucos dias que teve antes da final. Segundo o lateral, o técnico português optou por não “inventar” e manteve as rotinas de concentração que o grupo já estava acostumado, para “não se confundir muito”. Essa simplicidade na preparação interna ajudou a acalmar os ânimos do elenco antes do clássico decisivo.

A Filosofia de Léo Jardim e os Próximos Desafios no Brasileirão

Apesar da curta permanência no cargo antes da final, Leonardo Jardim fez questão de valorizar o trabalho de seu antecessor, Filipe Luís, reconhecendo a importância de sua contribuição na construção da equipe. O novo técnico celebrou a conquista de seu primeiro título no futebol brasileiro, expressando sua satisfação: “É muito bom ganhar um título no Brasil, algo que ainda não tinha acontecido comigo na carreira. Estou aqui no segundo ano. Mas quem treina o Flamengo está mais próximo de ganhar títulos”. Ele agradeceu a “colaboração muito grande de todo o staff do Flamengo” e a “atitude dos jogadores” em sua chegada.

Jardim também abordou uma questão tática específica sobre a utilização de Gonzalo Plata. O treinador explicou que Plata “não é um centroavante”, sendo, em sua visão, um “jogador de corredor, que é rápido, que pode ser importante na pressão e para compactar o bloco”. Ele justificou a substituição de Pedro por Plata na final pela ausência de Bruno Henrique, que está fora por pubalgia, e pela inatividade de Wallace Yan, que o treinador pretende resolver em uma oportunidade menos arriscada.

Com o título carioca em mãos, Léo Jardim já projeta os próximos desafios, e sua filosofia de trabalho para o restante da temporada foi rapidamente anunciada. O técnico português declarou que não haverá um “time titular” absoluto, implementando um rodízio intenso no elenco. Jardim afirmou que “não há outra forma de ser competitivo com esse calendário. Ninguém vai jogar sempre, o risco de lesão é muito grande”, indicando que a gestão física dos atletas será prioridade para garantir o desempenho em múltiplas competições.

A teoria do rodízio será testada já no próximo compromisso do Flamengo. A equipe enfrenta o Cruzeiro nesta quarta-feira, dia 11 de março, às 21h30 (horário de Brasília), no Maracanã, pela quinta rodada do Campeonato Brasileiro. O comandante português fez questão de confirmar que a equipe sofrerá alterações drásticas para oxigenar o time, avisando que “Contra o Cruzeiro com certeza teremos algumas mudanças porque eu quero jogadores frescos”.

Para Leonardo Jardim, o confronto contra o Cruzeiro, clube que dirigiu em 2025, tem um sabor especial. O treinador mencionou que o time mineiro “no ano passado conseguiu bons resultados contra o Flamengo e espero mudar isso”, indicando a busca por um resultado diferente neste reencontro no Campeonato Brasileiro.

Fora de campo, a conquista do tricampeonato gerou repercussão nas redes sociais, com o Flamengo provocando o Fluminense ao fazer referência à “bicicleta” na sala de troféus do rival. A conta oficial do Rubro-Negro no X (antigo Twitter) publicou: “7 vezes TRI CAMPEÃO CARIOCA! É tanta taça na nossa sala que não dá nem pra andar de bicicleta!”, alfinetando a “bicicleta” que Fred Guedes pedalou do Cruzeiro ao Fluminense e que foi exposta na sala de troféus tricolor.

A celebração também se estendeu internacionalmente, com o lateral-esquerdo Wesley, ex-Flamengo e destaque do Campeonato Italiano, sendo flagrado na Itália acompanhando e torcendo fervorosamente na disputa de pênaltis, mesmo na madrugada italiana. Atualmente na Roma, Wesley tem atuado como ponta esquerda e é considerado um dos destaques da competição na temporada 2025/26, com quatro gols e uma assistência em 32 jogos. Sua polivalência o coloca como forte candidato a uma vaga na Copa do Mundo no meio do ano, com a possibilidade de retornar ao Maracanã em um amistoso da Seleção Brasileira contra o Panamá em maio.