O recorte dos 20 minutos iniciais do segundo tempo trouxe uma sensação de déjà vu. Uma lembrança boa para a torcida do Flamengo, que viu o time fazer três gols nesse período de tempo e virar um jogo que estava encrencado frente ao Grêmio. Ao fim das contas, a vitória por 4 a 2 em Porto Alegre coloca o rubro-negro na vice-liderança do Brasileirão, com 58 pontos, quatro a menos que o Internacional.
Foi para emoldurar a forma como o Flamengo virou o jogo, capitaneado pela atuação de Gabigol. O time intenso, dinâmico e certeiro deu mostra de que não pode ser descartado da disputa pelo título. O que é intrigante é entender por que essa faceta aparece tão pouco nos últimos tempos, sobretudo com Rogério Ceni. Não fossem tantos tropeços recentes, o cenário poderia ser bem mais confortável a seis rodadas do fim da Série A. A distância agora é real, sem especulações: não há ninguém com jogo a menos.
Mas esse Brasileirão de um 2020 que insiste em não terminar é traiçoeiro. Na gangorra pela qual passou na Arena do Grêmio, o Flamengo flertou com a ameaça de aproximação do adversário na tabela, o que colocaria em risco a presença na fase de grupos da Libertadores. Só que a reação trouxe um cenário relativamente confortável em termos de G4. Ao mesmo tempo, com 18 pontos ainda em disputa, não é possível relaxar.
Sem conspiração
Apesar do resultado, o comportamento do Grêmio em campo serviu para inibir qualquer teoria da conspiração a respeito da intenção de favorecer o Fla para prejudicar o rival Inter. Diego Souza merece destaque. Aos 35 anos, ele mesmo definiu a relação de dependência com o time:
— Eu me alimento do cordão umbilical deles. Espero que estejam bem para que eu possa concluir a jogada.
Mas o atacante passa longe de ser um parasita. A contribuição se dá em gols. Nesta quinta-feira, foram mais dois. Na temporada, são 26.
O jogo começou intenso, muito disputado. Nos primeiros 45 minutos, o time de Renato Gaúcho teve mais posse de bola, já que a pressão que a linha de frente do Fla deveria exercer era ineficaz. Sem Pepê, que negocia saída para o Porto e ficou fora por conta de um problema no quadril, o time de Renato Gaúcho fazia o Flamengo se posicionar muito próximo da própria área. Ao recuperar a bola, a dificuldade de chegar à frente era quase como escalar uma montanha. E mesmo assim as chances de gol apareceram em ambos os lados.
O Grêmio foi mais eficaz no primeiro tempo quando Diego Souza aproveitou a liberdade entre os zagueiros Willian Arão e Gustavo Henrique. O cabeceio foi certeiro e fez com que o Flamengo fosse para o intervalo em desvantagem.
O despertar
O segundo tempo trouxe a guinada do Flamengo no jogo. Houve uma evolução no comportamento tático, na intensidade e no aspecto psicológico. A fluidez com que as jogadas ofensivas se encaixaram chamou atenção. O Flamengo, com uma injeção de ânimo e um mínimo de organização, fica difícil de ser contido. O problema é que esses ingredientes faltaram ao longo do ano.
Voltando ao que deu certo, coube a Everton Ribeiro fazer o primeiro gol. Logo ele, envolvido em uma negociação que esfriou de vez com o Al Nasr, dos Emirados Árabes. Desde que voltou da seleção, as atuações estão abaixo do que dele se espera, mas o chute torto e certeiro pode endireitar o desempenho nesta reta final de Brasileiro.
A assistência foi de Gabigol, que três minutos depois faria o da virada. Golaço. Um recado de que Rogério Ceni tem que mantê-lo mais tempo em campo, mesmo com Pedro pedindo passagem lá fora. Gabigol é daqueles que pode tirar uma jogada certeira de onde parece haver só deserto. Foi ele quem serviu Arrascaeta para o terceiro gol, completando os 20 minutos de almanaque.
Diego Souza voltaria a colocar tempero na partida ao fazer um gol impressionante de falta: batida de três dedos, cheia de curva, que deixou Hugo desnorteado. Mas a noite era mesmo rubro-negra, tanto que Isla fez o quarto, já nos minutos finais, em uma bola chorada.
Na segunda-feira, o Flamengo tem que repetir atuação e resultado contra o Sport. O título é possível.

Edmilson Lani é o responsável editorial do Flamengo RJ. Atua na curadoria, revisão e publicação de conteúdos do site, acompanhando de perto o noticiário do clube, os bastidores, o mercado da bola, os jogos e as análises do dia a dia. O site também utiliza fluxos de automação e ferramentas de apoio editorial no processo de produção, sempre sob supervisão humana sobre o conteúdo publicado.