Leonardo Jardim escapou de punição do Superior Tribunal de Justiça Desportiva (STJD) nesta quinta-feira (28). O técnico do Flamengo foi julgado por críticas ao árbitro Davi de Oliveira Lacerda após a derrota de 3 a 0 para o Palmeiras no Maracanã, mas o tribunal aceitou sua defesa: o português alegou que utilizou ironia para responder a uma mensagem prévia do treinador adversário Abel Ferreira.
Na coletiva de imprensa após o jogo, Jardim questionou o critério do árbitro de forma veemente. Citou o aproveitamento “quase 100%” do Palmeiras com Davi Lacerda e enfatizou a falta de coerência nas decisões. Suas frases mais diretas foram: “é muito fácil dar cartões vermelhos ao Flamengo” e “apita sempre para a mesma cor, essa é a coragem dele”. Essas declarações motivaram a abertura do processo por “reclamação desrespeitosa”, enquadrada no artigo 258, inciso II do código desportivo.
A defesa apresentada pelo Flamengo mudou o rumo do julgamento. Jardim explicou que suas críticas funcionaram como resposta irônica a uma pressão que Abel Ferreira havia feito dias antes da partida. Na véspera do confronto, o treinador do Palmeiras pediu à CBF para escalar um árbitro com “coragem” para o jogo no Maracanã. Para Jardim, aquele pedido era uma tentativa de influenciar a arbitragem. Na coletiva após a derrota, o português respondeu àquela mensagem usando a mesma linguagem.
“Meu objetivo na coletiva após o jogo era uma resposta irônica àquela mensagem que o adversário enviou antes do jogo, para tentar influenciar, ao dizer que era um ato de coragem apitar. Respondi à essa mensagem não diretamente contra o árbitro e seus deveres profissionais”, declarou Jardim ao tribunal.
Os juízes aceitaram a argumentação e absolveram o técnico. A decisão reconheceu que Jardim não atacava a pessoa ou a competência profissional de Davi Lacerda, mas sim respondia de forma irônica a uma provocação prévia. Ainda que crítico da performance arbitral, o tribunal entendeu que não houve ultraje direto aos deveres funcionais do juiz.
As outras punições do julgamento
Se Jardim escapou, outros envolvidos no caso não tiveram a mesma sorte. Jorge Carrascal, o colombiano expulso aos 20 minutos do primeiro tempo pela falta em Murilo, recebeu três jogos de suspensão pela “falta praticada com excesso de violência e pela reincidência”. A expulsão direta ocorreu porque Carrascal levantou o pé na disputa pela bola contra o zagueiro palmeirense, num lance que Jardim havia questionado na coletiva como merecedor apenas de amarelo.
O massagista Fernando Munhoz também foi penalizado. Suspenso por 30 dias após as acusações de ameaças à arbitragem, o profissional terá de pagar multa individual de R$ 10 mil. A pena reflete as ações da comissão técnica durante a partida, quando o clima de tensão se elevou após as decisões do árbitro.
O Flamengo, por sua vez, recebeu multa de R$ 45 mil por objetos arremessados pela torcida durante o confronto. O valor corresponde às reações da torcida rubro-negra diante da sequência de decisões que desagradou a comissão técnica e aos jogadores em campo.
Contexto da derrota e repercussões imediatas
A derrota de 3 a 0 para o Palmeiras no Maracanã foi marcada por essa tensão arbitral desde os primeiros minutos. Jorginho levou uma pancada aos 30 segundos de jogo sem qualquer advertência, enquanto o próprio Carrascal foi expulso por um lance que, na visão da comissão técnica, não configurava agressão clara. Jardim apontou na coletiva a disparidade de critérios e citou precedentes em outras competições para sustentar sua argumentação sobre a falta de uniformidade.
Agora, com o julgamento encerrado e Carrascal fora pelos próximos três jogos do Brasileirão, o Flamengo precisa se reorganizar. A ausência do colombiano afeta o setor ofensivo da equipe justamente numa fase em que o Mengão enfrenta pressão na luta pelo título e na sequência da Libertadores. Jardim terá de encontrar alternativas para manter o desempenho em campo sem o jogador que ocupava posição importante no ataque.
A absolvição de Jardim encerra um capítulo da disputa com o Palmeiras, mas deixa em aberto a questão sobre coerência arbitral que o técnico português colocou em evidência. O tribunal esportivo não avaliou o mérito das críticas à performance de Davi Lacerda, apenas se elas constituíam desrespeito funcional — e, pela lógica da ironia aceita, entendeu que não.

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