Quase dois meses após ser oficializado como treinador do Flamengo, Jorge Jesus deu sua primeira entrevista exclusiva.
Na última semana, o português falou com o jornal A Bola, de seu país natal, no Ninho do Urubu, e revelou coisas muito interessantes. A entrevista foi publicada nessa quarta-feira, dia de seu aniversário e estreia na Copa Libertadores.
O empresário não queria o Flamengo…
Por exemplo, contou sobre sua chegada ao Flamengo, que não teria acontecido se a decisão fosse de seu empresário, o israelense Pini Zahavi.
“[Ele] ficou extremamente zangado comigo, porque tinham equipes na Inglaterra, não vale a pena estar a falar agora… E eu liguei para dizer que tinha aparecido uma equipe que era o Flamengo e que eu não ia esperar. Essa equipe estava em uma final e queria que eu esperasse e eu disse que não ia esperar; um dos desafios que me fez vir para o Brasil, foi eu sentir que as pessoas me queriam. Sentir a força, a confiança e o esforço que fizeram para me contratar. A partir daí fiquei com a nítida ideia e sensação que ia treinar o Flamengo, sempre com o meu agente a ligar-me todos os dias a dizer “não faças isso””.
Mais que um clube…
Sobre o clube que ele decidiu defender, o Flamengo, também falou muito, e mostrou todo o carinho que tem pelo time carioca – que parece recíproco pelos torcedores:
“O Flamengo é mais do que um clube. É uma religião, é uma nação. São 40 milhões… São quatro vezes Portugal. E, portanto, o que me trouxe aqui foram mais os objetivos desportivos, onde eu posso conquistar uma Libertadores, um Campeonato do Mundo de Clubes e também o Campeonato Nacional. Chegamos aqui com oito pontos de atraso, recuperamos. Está tudo em aberto.”
“O Brasil é um país de futebol e o Flamengo é um clube que é mundialmente conhecido, que é dos maiores clubes do mundo e eu vim ter a certeza disso.”
Quebrou o mito…
Falando especificamente sobre seus jogadores e o grupo que pegou, Jesus se mostrou muito feliz – e até um pouco surpreendido. Segundo o treinador, existe a imagem na Europa de que o jogador brasileiro não gosta de trabalhar, mas esse mito foi quebrado.
“Eu apanhei um grupo espetacular. Um grupo que adora trabalhar, aprender e ansioso por perceberem ao máximo aquilo que eu lhes passo. Tem sido um dos grupos onde temos tido maior facilidade de trabalho. Em Portugal e na Europa tem-se a noção de que o jogador brasileiro não gosta de trabalhar! É completamente diferente.”
“Em Portugal diz-se que uma equipe existe mais do que quatro ou cinco brasileiros, deixa de ser uma equipe e passa a ser uma equipe de samba! [sorri] mas não é verdade. Eles são extremamente profissionais, rigorosos e aquilo que mais aprecio neles é que gostam muito de aprender!”
Veja outros dos principais trechos da entrevista:
Sobre sua ‘missão’
“Estou a trazer o meu saber. Eu não venho para aqui descobrir a pólvora como dizemos em Portugal. Eu venho aqui trazer as minhas ideias e é aquilo que tenho feito ao longo da minha carreira. Temos tido êxito por todos os lugares onde temos passado e também queremos tê-lo aqui, porque o Flamengo é um clube que tem tudo para dar certo.”
Sobre o trabalho:
“Nós entramos muito cedo e saímos muito tarde. Isto faz parte da nossa vida e da nossa profissão. Nós fomos sempre assim. Onde trabalhamos, gostamos de ter a consciência que o nosso profissionalismo pode atingir os objetivos mais rápido do que aquilo que nós queremos. Só com trabalho é que conseguimos passar as nossas ideias e este local, é um local, como vocês veem, de grande qualidade, tudo moderno; Há dias em que chego às 7 horas da manhã e saio às 8 horas da noite. Porque acho que só assim é que se pode querer atingir resultados desportivos, que é aquilo que eu quero, neste momento, como quero sempre.”
Sobre a adaptação
“Facílima. A língua é a mesma. Eu conhecia o futebol brasileiro, não tão bem como se estivesse cá, mas via a maior parte dos jogos do Campeonato Brasileiro. Estou farto de dizer isto… Eu tinha em Portugal um canal que dava todos os jogos do campeonato nacional brasileiro, da primeira e da segunda divisão. E, por isso, eu conhecia as dificuldades que este campeonato tem.”
Sobre o Brasileirão
“Tenho a certeza do que estou a dizer: este é um dos campeonatos mais equilibrados do mundo. É um campeonato onde há muito talento em todas as equipes. Todos pensam que podem ganhar um ao outro. Não há nenhum adversário que vá para o jogo a pensar que não pode ganhar e isto torna-se um campeonato muito competitivo. Com jogadores de talento tudo se torna mais apaixonante e com um grau maior de dificuldade.”
Sobre a questão financeira e uma proposta milionária
“Não vim para o Flamengo por questões financeiras. Não há comparação possível entre o que eu poderia ganhar e o que vim ganhar! Mas o meu desafio foi esse e também foi sentir que estou num país de futebol. E no dia em que sair, irei conhecer muito melhor os jogadores brasileiros do que quando aqui cheguei; E não falando das propostas que eu tive para treinar uma equipe no Egito, que é o Pyramids, que foi a mesma pessoa que me levou para a Arábia Saudita, não o empresário, mas o dono do clube que me propôs condições financeiras, que se calhar nunca mais vou ter, e eu não quis. Segundo me parece, ele esta semana comprou o Parma. São desafios que eu nunca pensei ter na minha carreira. Eu nunca pensei sair de Portugal, sinceramente. Estou farto de dizer isto.”