Dois pontos no lixo
Sempre fico meio cabreiro quando o Flamengo retorna das datas-Fifa. Geralmente, algo ruim acontece. Contra o Santos, além disso, havia o combo do excesso possível da “Lei do Ex” e da ausência do Arrascaeta. Pensei: um empate será um bom resultado.
Mas, durante o primeiro tempo, eu esperava mais do adversário. Achei o Santos uma bela duma porcaria. E o que se faz com belas porcarias? Se vence, claro. Assim, até com relativa facilidade, o Flamengo abriu 0x2 (com “Lei do Ex” a nosso favor), podendo até ter sido um placar maior se o Pedro não tivesse repetido o feito de Belém de querer consagrar goleiros alheios. Ou se não tivéssemos errado tanto o último passe.
Fato é que, após a volta do intervalo, o jogo parecia manter a mesma tônica do primeiro tempo. Léo Pereira mostrou por que é zagueiro, e não lateral, e fizemos substituições interessantes, para matar o jogo na velocidade. Só que o Santos também fez suas mexidas. Em uma delas, saiu o morto Coutinho e entrou Neymar Jr., jogador que dispensa comentários.
Uma anotação deve ser registrada: desde cedo, via-se que a principal tática do Santos era roubar a bola no campo de defesa ou no meio-de-campo e pegar nossa defesa desprevenida. Isso reforça por que eu detesto dinizismo. Acho que chutão é um recurso que deve ser utilizado contra defesas altas, sim, senhor, quando viável. E, em um desses dinizismos, nosso goleiro Rossi, que joga muito bem com os pés e é acionado como um líbero constantemente, deu uma bola na fogueira pro Jorginho.
O lance é difícil. Não à toa o VAR e o Daronco tiveram enorme dificuldade de interpretá-lo. As imagens não pareciam totalmente conclusivas. Se houve toque na mão sobre a linha, é pênalti (eu discordo dessa regra – como disse o Vitor Birner, é um desrespeito à essência do futebol). Mas, antes disso, deveria ser analisado se houve ou não falta no Jorginho, e não do Jorginho. Para mim, Jorginho foi derrubado e chutado. E, em uma imagem que o Pilhado trouxe logo depois do jogo, vê-se que foi o Rony quem chutou a bola na mão do Jorginho. Sabe-se lá por que razão, a imagem do VAR era imprecisa ou, no mínimo, incompleta. Se havia um ângulo mais favorável, ele foi mostrado na cabine?!
De toda forma, Daronco demorou muito e ainda tomou a decisão errada em dose dupla: marcou o pênalti e expulsou o Jorginho. O Santos se valeu da própria torpeza.
O que vinha ruim piorou. Daronco, apesar daquele tamanho e experiência, parecia ter cedido o apito ao quizumbeiro Adulto Ney. Marcou diversas faltinhas, permitiu-se ser pressionado. Em uma dessas faltinhas, após jogada ensaiada, Daronco viu um toque do Luiz Araújo no Gabigol e marcou novo pênalti. Estou até agora procurando esse toque…
Dois pontos jogados no lixo. Seja por decisões erradas de arbitragem, seja porque o Flamengo não matou o jogo quando deveria, um erro que vem se repetindo substancialmente e que, em vez de nos fortalecer, nos enfraquece. Como eu disse algumas colunas atrás, tem jogo em que 2×0 resolve, mas não é comum. Até um 3×0 pode não estar decidido – vide outro Santos x Flamengo, em 2011, o do 4×5. Ontem, se tivéssemos aberto três, possivelmente decidiria.
O empate, que antes do jogo era até um bom resultado, pelas circunstâncias, foi uma tremenda injustiça. Agora, continuamos na sequência desagradável. Virão Fluminense e Bahia, com uma semifinal de Libertadores no meio. E queimamos gordura nessa rodada. Com mais atenção e menos displicência, podemos perfeitamente continuar à frente.
Passará!
Uma das poucas certezas que tenho na vida é que tudo passa. Coisas boas, coisas ruins, pessoas, momentos, fases… tudo passará e se renovará. O futebol imita a vida – ou, talvez, a vida imita o futebol.
Essa contusão do Arrascaeta me baqueou um pouco. E me faz refletir sobre o momento sublime que o Flamengo vive nesses últimos sete anos, quase oito, desde 2019, o qual se arrastou a partir de uma organização financeira desde 2012, com momentos difíceis. Só em 2016 e 2017 é que o Mengo começou a se tornar mais combativo dentro de campo.
Mas e o Arrascaeta? E o Bruno Henrique? Os dois remanescentes de 2019, é claro, não são eternos. Podem sair do Ninho ou, se não, se aposentarem aqui. O que é certo é que, um dia, não jogarão mais pelo Flamengo. Segundo minhas pesquisas, com o uruguaio em campo, o Mengo mantém um aproveitamento superior a 70%, mas o índice cai para cerca de 55,56% quando ele está ausente.
Reafirmo: o Arrasca é só um exemplo e não toco nesse ponto porque ele está machucado, mas, sim, por que um dia ele parará de jogar. E isso me faz abordar outro ponto. Temos Alex Sandro, BH, Danilo, Jorginho, Pulgar, Varela e os zagueiros Léos com 30 anos de idade ou mais no elenco. Quase todos, em tese, titulares.
Precisamos de uma renovação de elenco para ontem! Com essa renovação, realizar uma transição gradual entre o time-base e os novatos. Nenhum jogador dura para sempre, nenhuma turbulência é infinita e nenhum mar calmo deixa de ver tempestades.
Então, sendo assim, aproveitemos o momento!
Isto posto,
Saudações Rubro-Negras!

Ricardo Santoro Nogueira, 39 anos, casado, nascido em Brasília/DF, é advogado e exageradamente flamenguista. Herdou de seu pai este viciante hábito de ocupar 90 min. assistindo ao Mais Querido. É fã de Zico, Adriano, Arrascaeta e Bruno Henrique, entre outros que também mereceriam destaque. Quase morreu em 2019, mas passa bem.