Rodrigo Paiva revela bastidores do penta de 2002 e cobra mais rubro-negros na Copa de 2026

Rodrigo Paiva, atual diretor de comunicação do Flamengo, esteve na CBF durante quatro Copas do Mundo entre 1998 e 2014. Das histórias do penta no Japão em 2002 ao trauma do 7 a 1 em Belo Horizonte, o executivo carrega na memória momentos únicos do futebol brasileiro. Em entrevista exclusiva, Paiva revelou bastidores esquecidos da maior conquista do país e fez uma projeção clara: mais jogadores do Mengão deveriam estar na seleção para os Estados Unidos, México e Canadá.

Para o diretor, o elenco rubro-negro atual vive seu melhor momento. “Todos os jogadores do Flamengo, eu acho que ainda tinha mais gente que podia ter ido. Estão num momento incrível das suas carreiras. Tem experiência aliado à capacidade, qualidade. Eu acho até que o Flamengo poderia ainda ter oferecido mais jogadores”, afirmou. Segundo Paiva, uma Copa exige pelo menos 16 ou 17 nomes fundamentais, e durante o torneio há sempre espaço para ajustes e oportunidades de participação intensa.

As semelhanças entre 2002 e 2026: gerações de consagrados buscando o título

Paiva vê paralelos claros entre o Brasil desacreditado que chegou à Coreia do Sul e ao Japão em 2002 e a seleção atual que busca a Copa em 2026. “É uma geração que está parte dela se despedindo, como era naquela época. É uma geração que é superconsagrada no mundo, mas que ainda falta um título desse tamanho para a carreira deles ser coroada de vez”, iniciou o dirigente.

Ele citou a vitória de Messi na Argentina como exemplo do que pode acontecer com os atuais craques brasileiros. “Tem muito talento, tem um treinador super competente (Carlo Ancelotti), vencedor e que parece conhecer tremendamente de grupo. Então, sim, tem todos os ingredientes e uma administração da CBF que é séria”, completou, destacando que o futebol até as quartas de final serve para acertar a máquina, mas a partir daí é erro zero.

A Nação rubro-negra ainda guarda as imagens daquele Japão de 2002. Ronaldo, desacreditado após quase dois anos sem jogar pela Inter de Milão, foi bancado por Felipão. Rivaldo precisava de um título mundial para se consolidar. Roberto Carlos enfrentava desconfiança dos torcedores brasileiros, apesar de suas conquistas no Real Madrid. Naquele cenário adverso, o time criou um ambiente de família, leve e descontraído.

O clipe de Ivete e a música que uniu o elenco

Um dos segredos do penta estava na comunicação. Paiva revelou como a TV Globo fez o inverso de sua transmissão habitual: em vez de enviar imagens do Japão para o Brasil, mandou imagens do Brasil para o Japão. Isso permitiu que os jogadores assistissem ao país virar para apoiá-los.

Com essas imagens e a música “A festa”, de Ivete Sangalo, Paiva e Felipão montaram um clipe para ser exibido no ônibus antes da semifinal contra a Turquia. “Aquilo ali deu uma ‘liga’ neles, fantástica, saíram quicando da preleção”, lembrou Paiva. Após a vitória, o técnico pediu um novo vídeo, agora com “Vai rolar a festa”, de Zeca Pagodinho, que misturava imagens de toda a comissão, desde cozinheiras até nutricionistas, com gols e reações da torcida.

“Não era nada imposto, uma música que alguém gostasse ou quisesse fazer algo comercial. Era música que eles gostavam de cantar no ônibus ou ouvir nos ônibus”, reafirmou Paiva. Essas duas canções ficaram imortalizadas como símbolos da seleção até hoje.

A expulsão em 2014 e a pior semana de sua vida

Se 2002 marcou Paiva como pentacampeão, 2014 deixou cicatrizes profundas. Expulso ao separar uma briga durante as oitavas de final contra o Chile, Paiva não pôde acompanhar o vestiário na semifinal contra a Alemanha. Ficou na tribuna enquanto o Brasil era humilhado por 7 a 1 no Maracanã.

“Talvez tenham sido os piores dez dias da minha vida”, confessou. Paiva foi expulso, ficou na tribuna e, dois dias após o 7 a 1, sua mãe faleceu. Ele não pôde sequer disputar a partida pelo terceiro lugar.

Mesmo assim, Paiva recordou com admiração o ato de coragem da comissão técnica. Após o jogo, conversou com Felipão pela manhã enquanto todos choravam no ônibus. Sugeriu que marcassem entrevista coletiva imediata e enfrentassem a imprensa, sem se esconder. Felipão, Parreira, Runco e toda a comissão compareceram. “Não podemos nunca ter vergonha de ter tentado fazer o melhor”, disse Paiva sobre aquele momento.

O futebol segue, mas as histórias permanecem

Paiva reconhece que o futebol é muito presente. Não fica lembrando do passado constantemente. Mas quando se permite olhar para trás, sente orgulho de uma vida no esporte: trabalhou com Romário e Ronaldo com exclusividade, foi diretor de comunicação da Copa de 2014 designado pela FIFA, comandou a comunicação da CBF em cinco Copas do Mundo, começou sua carreira no Flamengo em 1991 e 1992, e agora vive emoções incríveis novamente no Mais Querido.

Mantém carinho imenso pelas pessoas de 2002. Lembra-se de chamarem jornalistas como Fátima Bernardes, Mauro Naves e Galvão Bueno para comer arroz com feijão no hotel após quase 40 dias sem o prato. A entrevista coletiva da véspera da final reuniu quase 1.400 jornalistas. Era um momento diferente do futebol, com mais proximidade entre imprensa, torcida e elenco.

Para 2026, Paiva projeta que o Brasil tem todos os ingredientes para conquistar o hexacampeonato. Mas reafirma: mais jogadores do Flamengo mereciam estar na seleção, vivendo esse momento de glória que a Nação rubro-negra conquistou e agora pode compartilhar novamente em solo norte-americano.