Péssimo jogo, bom resultado
Algumas verdades precisam ser ditas. As duas últimas partidas do Flamengo na Libertadores foram assombrosas. Otimista que sou, credito isso à sorte de campeão. Ontem, em La Plata, se o Estudiantes fosse minimamente mais qualificado, certamente sairíamos da Argentina derrotados. Simplesmente todas as finalizações da equipe platense foram em cima do Rossi. Ao menos o adversário finalizou ao gol, algo que não fizemos.
Tratou-se de uma rara condição nossa: não ter a posse de bola, não finalizar e se defender – no caso, mal e porcamente. Faltaram letalidade e competência ao ataque; sobraram erros e doses de sorte à defesa.
E isso começa na escalação. Entendo perfeitamente o Leonardo Jardim preferir o BH ao Pedro nesses jogos de Libertadores, em que atacaremos menos e precisaremos de velocidade. A ideia, ao que me parece, era repetir o feito contra o Indep. Del Vale, na altitude, o que, ontem, inocorreu. Só que o Pedro faz algo melhor do que ninguém: retém a bola no ataque, protege a pelota, segura o ímpeto do adversário no próprio campo. E, claro, é exímio finalizador e driblador em curtos espaços.
Para além disso, outros dois fatores nos atrapalharam muito: o gramado duro e o árbitro. Desde antes do jogo, eu lia e ouvia alertas sobre o soprador de apito escolhido a dedo pela Conmebol. Em todos os lances ríspidos, os jogadores argentinos foram no corpo dos nossos jogadores, e não na bola. Aquele tal de Piovi comandou a batalha campal e saiu-se ileso e impune. No segundo tempo, por sua vez, o árbitro paraguaio passou a marcar todo tipo de falta a favor do Estudiantes, propiciando bolas levantadas na nossa área. É caseiro que fala?
O 0x0 nos deu a prerrogativa de decidir em casa. E não nos iludamos: o Estudiantes fará o possível e o impossível para não deixar a bola rolar no Maracanã. Vai catimbar, vai fazer inúmeras faltas (tomara que o juiz escolhido não seja conivente) e vai retrancar. Foi assim que eles chegaram à semifinal: empatando em casa e achando uma vitória fora. O antídoto para isso é conhecido desde os tempos mais remotos: fazer gol. Basta fazer gol – ou gols, no plural – e a catimba e a retranca argentina vão pro espaço.
É o ‘ai, Jesus’…
Lamartine Babo cometeu um erro que nada mais foi do que aumentar a estranha autoestima do nosso adversário que já teve a desonra de frequentar a Série C: fez-lhe menção em nosso Hino.
Por algum motivo que nunca compreendi, o Hino do Mengão afirma cabalmente que “Nos Fla-Flus é o ‘ai, Jesus’.” Outra interpretação também é plausível e absolve Lamartine: juntar o verso anterior e dizer que se tratam na mesma estrofe. Com isso, a composição fica “Mais amado, mais cotado nos Fla-Flus…”. E esquece o “Ai, Jesus”.
Independentemente da interpretação que se dê, o “Ai, Jesus” tem feito parte dos últimos Fla-Flus, de fato. Até porque o Fluminense é o único rival que tem nos enfrentado em jogos decisivos, do Carioca ao Brasileiro – quiçá da Libertadores. Não tem Fla-Flu fácil! No do último domingo, o Fluminense se “botafoguizou”, reclamou da arbitragem e tivemos que ouvir o Samuel Xavier achar que o Fluminense briga, ou vinha brigando, pelo título brasileiro. Ora, os Laranjeiras estão brigando, no máximo, pela vaga direta na Libertadores de 2027 com o Sinthético Paranaense e o Bahia. A briga pelo título é entre Flamengo e Palmeiras, doa a quem doer, et c’est fini.
O jogo, em si, foi bem legal pro Flamengo. Tivemos mais chances, mais posse de bola (como sempre), mais jogadas legais… E foi apenas aquele um-a-zerinho protocolar, suficiente para mantermos a liderança do campeonato, pois, afinal, lá na capital paulista, acreditar que o pífio Corinthians arrumaria alguma coisa do maior rival, na casa deles, é o mesmo que acreditar em Papai Noel.
A vitória contra o Flu veio em um gol difícil do Carrascal. Que bom que foi assim, pois, como costumo dizer, se o gol fosse fácil, o colombiano provavelmente perderia. Como Carrascal está com a moral alta, fazendo seus gols e de namorada nova, convém aproveitarmos a boa fase do rapaz.
Agora, teremos o Baêa pela frente, lá em Salvador, encravado entre os jogos da Libertadores. Não espero grande partida nossa, mas temos elenco o suficiente para obter mais três pontos.
Isto posto,
Saudações Rubro-Negras!

Ricardo Santoro Nogueira, 39 anos, casado, nascido em Brasília/DF, é advogado e exageradamente flamenguista. Herdou de seu pai este viciante hábito de ocupar 90 min. assistindo ao Mais Querido. É fã de Zico, Adriano, Arrascaeta e Bruno Henrique, entre outros que também mereceriam destaque. Quase morreu em 2019, mas passa bem.