Doze conselheiros do Flamengo protocolaram dois ofícios na última terça-feira cobrando maior transparência da diretoria e medidas previstas no Estatuto Social após o clube divulgar um déficit acumulado de R$ 33,8 milhões no primeiro semestre de 2026. Os documentos foram entregues à secretaria do Mengão e direcionados aos presidentes dos Conselhos Deliberativo e Fiscal, Ricardo Lomba e Paulo Roberto Gomes.
Entre as principais solicitações, estão a divulgação do orçamento anual da instituição — prática adotada até 2024 no site oficial do clube — e a apresentação dos relatórios de execução orçamentária do primeiro semestre, detalhando as previsões financeiras e o resultado negativo registrado.
O segundo documento é ainda mais direto: pede que o Conselho Fiscal intimte a diretoria a apresentar o orçamento de 2026 no prazo de 48 horas. Os signatários também defendem que seja analisada a aplicação do artigo 146 do Estatuto Social, dispositivo que prevê a suspensão da autonomia do Conselho Diretor em determinadas situações de desequilíbrio financeiro.
O que o Estatuto permite em caso de déficit
Os conselheiros baseiam seu pedido no inciso III do artigo 146 do Estatuto do Flamengo. O trecho determina que a autonomia da diretoria pode ser suspensa caso os balancetes trimestrais comprovem que o déficit acumulado ultrapassou 3% da receita prevista no orçamento aprovado. Caso essa condição seja confirmada, todos os contratos, acordos, empréstimos e antecipações de receitas passam a depender de autorização prévia do Conselho de Administração enquanto a irregularidade persistir.
As críticas aos conselhos também ganham corpo no primeiro ofício. O grupo afirma que Ricardo Lomba teria sido omisso ao não apresentar os relatórios de acompanhamento da execução orçamentária ao longo de 2025, justamente o ano de sua posse no Conselho Deliberativo. Em relação ao Conselho Fiscal, o grupo solicita que Paulo Roberto Gomes cobre oficialmente da diretoria a entrega do orçamento de 2026 e faça uma análise sobre a aplicação do artigo 146 para evitar eventual responsabilização dos integrantes do próprio conselho.
Os documentos também mencionam o artigo 69 do Estatuto, que prevê responsabilidade solidária de presidentes e vice-presidentes em casos de prejuízos ou atos considerados lesivos ao Mais Querido quando houver culpa no exercício das funções.
Como a diretoria explicou o resultado negativo
No balancete divulgado na semana anterior, o Flamengo atribuiu o resultado negativo, principalmente, à amortização contábil de R$ 192,4 milhões referente aos direitos econômicos de atletas contratados na janela de transferências de janeiro. Só Lucas Paquetá, por exemplo, custou mais de R$ 315 milhões ao clube.
Segundo a diretoria, o déficit representa uma consequência natural dos investimentos realizados no elenco. O clube também destacou que, desconsiderando operações de compra e venda de jogadores e os efeitos financeiros do Mundial de Clubes de 2025, o desempenho recorrente do primeiro semestre é o melhor registrado nos últimos cinco anos.
A explicação, porém, não convenceu o grupo de conselheiros que agora cobra medidas concretas. Os requerimentos são assinados por Alvaro Luiz Ferreira, Carlos Bogel Borges, Eduardo Olivieri, Guilherme Pollastri Gomes da Silva, Julio Cesar Gomes da Silva, Julio Frederico Pollastri Gomes da Silva, Luiz Desiderati Junior, Marcelo Haberlehner, Marcelo Vargas, Maria Cristina da Cruz Silva, Otabio Katsuo Nakamura e Wallim Cruz de Vasconcellos Junior.
Ricardo Lomba e Paulo Roberto Gomes ainda não se pronunciaram sobre os ofícios. A Nação rubro-negra acompanha a repercussão dessa cobrança institucional que evidencia tensões entre conselheiros e a atual gestão do clube sobre como a casa administra seus recursos financeiros em um momento de investimentos pesados no futebol.

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