Canetada não faz gol…
Na sexta-feira passada, foi lançada a Medida Provisória nº 1.394/26, que proíbe a exploração, a oferta, a intermediação e a publicidade das apostas de quota fixa, tira as plataformas do ar e extingue as autorizações em 30 dias.
Amigos, aqui não se trata de ser contra ou a favor das bets, nem fazer qualquer juízo de valor político ou partidário, mas, sim, de cobrar coerência em relação a algo que atinge diretamente nosso Flamengo.
Foram 85 outorgas de R$ 30 milhões cada que a MP extingue sem devolução nem indenização, conforme pesquisas. Detalhe: as licenças valiam por cinco anos. É como vender o ingresso da final, receber via Pix e fechar o portão do Maracanã no apito inicial. É como soltar o grito de “campeão brasileiro” e ver o título ir parar na Ilha do Retiro. Venire contra factum proprium na veia, como diriam os jurisconsultos!
E há algo que canetada nenhuma revoga (ao menos, em tese): a Constituição Federal. O art. 5º, inciso XXXVI, é claro: a lei não prejudicará o direito adquirido, o ato jurídico perfeito e a coisa julgada. O contrato firmado entre o Flamengo e a Betano, celebrado sob a vigência de uma lei regulamentada, com empresa devidamente autorizada pela União, é ato jurídico perfeito. Foi consumado segundo a lei do seu tempo e, por isso, é válido e protegido. Se nem lei ordinária pode retroagir para desfazê-lo, que dirá uma medida provisória. O Flamengo, que recebe suas ricas moedinhas por ano da patrocinadora bet, assim como quase todos os demais clubes brasileiros, não assinou nada à margem da lei. Ao contrário: assinou com a chancela do próprio Estado que agora pretende rasgá-lo.
O Presidente Bap pode ter vários defeitos, mas tem uma qualidade que admiro: não foge da briga e não se curva para o senso comum – nem para o “contrassenso comum”. Pediu a intervenção do Flamengo na ação movida pelas associações no Supremo Tribunal Federal (STF), como amicus curiae, e parece que puxou a fila para os demais clubes fazerem a mesma coisa.
Bap ainda fala como se houvesse risco de termos que vender jogadores, como Paquetá, Lino e Plata. Não sei se isso é “gogó” para atrair apoio ou realidade. Só sei que, em meio a isso, o Flamengo é quem tem melhores condições de reaver um novo patrocínio master.
…Nem passaporte forma craque
Os clubes das Séries A e B aprovaram, na semana passada, a seguinte proposta: o limite de nove estrangeiros relacionados por partida cairá para oito em 2027, sete em 2028, seis em 2029 e cinco em 2030. Apenas Flamengo, Bahia e Londrina votaram contra. Ponto para a Gávea.
O diagnóstico da CBF é honesto. Entre 2021 e 2026, a minutagem dos brasileiros sub-23 na Série A caiu bastante. O remédio, porém, é homeopatia para doença que pede cirurgia. A regra limita a súmula, e não os contratos, e não obriga ninguém a escalar os sub-23. A vaga do uruguaio não vai para o moleque da base por força de lei. Vai para o trintão rodado que o técnico, com a corda no pescoço, acha mais seguro. Entre 2014 e 2026, a minutagem de jogadores com 35 anos ou mais triplicou. O problema, meus compadres, não está no passaporte. Está na certidão de nascimento e, convenhamos, na força de quem segue há sete anos no topo, algo que os antis não admitirão.
Ademais, e tampouco, a regra não segura alguém aqui. O lateral Ângelo, do São Paulo, foi vendido ao Strasbourg aos 16 anos por apenas 5 milhões de euros. Mauro Cezar Pereira foi direto ao ponto: clube tem o direito de não formar jogador e, se a safra está fraca, o problema é da CBF.
Na comparação com a Europa, uma ressalva técnica: “estrangeiro”, por lá, é só extracomunitário. E o próprio estudo da CBF entrega o jogo: as grandes ligas europeias, repletas de jogadores de fora, dão muito mais minutos aos sub-23. O gringo não é a causa. É o bode expiatório.
Lembram da Inter de Milão, campeã da Champions na temporada 2009/2010? Naquela final, o time italiano fez jus ao seu nome: foram onze jogadores estrangeiros em campo e nenhum italiano titular. Era, literalmente, internazionale. Hoje, a Inter de Milão perde até oitavas-de-final pro Fluminense (!!!) e toma sacolejo do PSG, dois vexames impagáveis. Por sua vez, como bem lembrou o André Rizek, na Inglaterra o limite de estrangeiros é zero, a Premier League tem o melhor campeonato nacional do mundo e o país vive sua melhor geração de jogadores desde 1966. Em resumo: uma coisa não induz à outra, uma coisa não exclui a outra.
Mais do que qualquer discussão, o placar favorável à alteração deixa claro que muitos clubes da Série A – na verdade, todos os outros, com exceção do Bahia – parecem querer atingir justamente o Flamengo. Se não somos o clube que tem mais estrangeiros (o Buááátafogo e o Sinthético/PR têm mais), somos certamente o que mais tem gringos dentre aqueles que está brigando por coisa grande em constância ilibada. Como qualquer mercado “se vira nos trinta” diante de regras que o atrapalhe, a solução parece encaminhada: Arrascaeta já pode se naturalizar brasileiro; Jorginho, catarinense naturalizado italiano, nem entra na conta; Plata pode arrumar um filho carioca e antecipar sua “brasileirização”; Royal, por sua vez… Não, não vou zoar o Royal.
Menos gringo não é mais craque. Falta formação a todos, sobra motivos para quererem nos enfraquecer.
Arrascaeta e a nossa má sorte
Na segunda-feira, surgiram uma boa e uma má notícia. A boa notícia é que o Arrascaeta não vai jogar pelo Uruguai em Calcutá, às vésperas do jogo do Mengão, e já retornou ao Brasil. A má notícia, todavia, é que esse retorno foi porque ele fraturou o punho.
Lembram do que falei da data-Fifa na última coluna?! Detesto data-Fifa! Olha o que que deu? E não foi só por aqui não. Mbappé, Konaté, Musiala, Havertz e outros também se machucaram nesta data-Fifa. Reza a lenda que jogador ruim não se machuca. Parece que isto procede.
Quanto ao Arrascaeta, que é quem nos interessa, cabe-lhe tomar um leite quente, reforçar a musculação na academia, botar uma armadura de ferro em campo, pegar dicas com o Pedro… Segunda fratura só esse ano, poxa!
Desde o doping do Guerrero, em 2017, vemos as datas-Fifa nos prejudicando substancialmente. Estou começando a fomentar a ideia de que as vagas na Copa do Mundo sejam decididas no dominó. Ao menos dominó, conforme os registros históricos, não quebra a mão de ninguém.
Isto posto,
Saudações Rubro-Negras!

Ricardo Santoro Nogueira, 39 anos, casado, nascido em Brasília/DF, é advogado e exageradamente flamenguista. Herdou de seu pai este viciante hábito de ocupar 90 min. assistindo ao Mais Querido. É fã de Zico, Adriano, Arrascaeta e Bruno Henrique, entre outros que também mereceriam destaque. Quase morreu em 2019, mas passa bem.