Flamengo aciona ANRESF contra negociação entre Vasco e Marcos Lamacchia

O Flamengo acionou a Agência Nacional de Regulação e Sustentabilidade do Futebol (ANRESF) para tentar impedir a negociação entre o Vasco e Marcos Lamacchia. O Rubro-Negro questiona a transação alegando que ela infringe o Sistema de Sustentabilidade Financeira (SSF) e cria influência indevida de um grupo sobre mais de um clube. A negociação é estimada em R$ 3,1 bilhões.

Marcos Lamacchia é filho de Roberto Lamacchia, dono da Crefisa, que é casado com Leila Pereira, presidente do Palmeiras. O Mengão aponta exatamente essa ligação como violadora do artigo 86 do SSF, que proíbe qualquer pessoa física ou jurídica de deter controle ou influência significativa sobre mais de um clube.

A decisão do Flamengo de recorrer à ANRESF reflete a insatisfação do presidente Luiz Eduardo Baptista, o Bap, com o que ele considera desrespeito às regras por parte de outras equipes. O dirigente já havia questionado publicamente a relação entre Vasco, Palmeiras e Crefisa, argumentando que o Mais Querido segue rigorosamente a legislação enquanto alguns concorrentes desrespeitam as normas sem sofrer punição.

O que diz a legislação

O artigo 86 do SSF é cristalino: “Está vedada qualquer pessoa, física ou jurídica, detenha, direta ou indiretamente, controle ou influência significativa sobre mais de um clube”. A Lei Geral do Esporte reforça essa proibição ao afirmar que nenhuma pessoa natural ou jurídica detentora de parcela do capital com direito a voto ou participante da administração de uma organização esportiva poderá ter participação simultânea no capital ou na gestão de outra organização esportiva congênere disputante da mesma competição.

O Flamengo entende que a estrutura do investimento de Lamacchia — com suporte da Crefisa, controlada por Roberto Lamacchia e Leila Pereira — cria uma teia de influência que viola essas restrições. Para o clube, não é possível separar o investidor pessoal de suas ligações com outras entidades que controlam ativos financeiros e decisórios em outro clube de expressão nacional.

Como o Vasco responde

Uma vez acionados, Vasco e Lamacchia foram cobrados pela ANRESF para fornecer esclarecimentos sobre os moldes da transação. O prazo de resposta permanece em aberto, mas a diretoria cruz-maltina já sinalizou que possui embasamento jurídico suficiente para sustentar a operação. O clube acredita que conseguirá comprovar a regularidade do acordo dentro dos marcos regulatórios.

O investimento em questão segue uma estrutura específica. Dos R$ 3,1 bilhões estimados, R$ 1 bilhão seria destinado ao abatimento da dívida tributária e dos débitos da Recuperação Judicial do Vasco. Outros R$ 1,5 bilhão cobririam o déficit de caixa projetado pela consultoria Alvarez & Marsal para os próximos cinco anos. O restante seria investido diretamente no departamento de futebol e na reforma do centro de treinamento.

Se aprovado, o aporte representaria a maior injeção de capital na história recente de um clube brasileiro sob modelo de SAF. Para São Januário, seria a oportunidade de sair da crise financeira que o assola há anos e estruturar uma competitividade renovada no futebol nacional.

O incômodo de Bap

Luiz Eduardo Baptista não esconde a frustração com o que chama de “SAF de safadeza” — referência velada a gestões que ele considera lenientes com violações regulatórias. Para o presidente do Flamengo, enquanto o Mais Querido investe em conformidade e sustentabilidade dentro das regras, outros clubes ganham vantagens competitivas por caminhos questionáveis.

O acionamento da ANRESF é, portanto, tanto uma ação defensiva quanto uma declaração de princípio. O Flamengo busca impedir que o acordo avance, mas também quer deixar claro que não aceitará passivamente infrações à regulamentação que rege a concorrência no futebol brasileiro.

A ANRESF, órgão pertencente à Confederação Brasileira de Futebol (CBF), agora está na posição de árbitro dessa disputa regulatória. Sua decisão não apenas definirá o futuro da negociação entre Vasco e Lamacchia, mas também sinalizará para todo o mercado de SAFs qual o grau de tolerância do futebol brasileiro frente a operações estruturadas por grupos que operam simultaneamente em múltiplos clubes.