A humilhação de 3 a 0 para o RB Bragantino, em 3 de abril, deixou cicatrizes no Flamengo. Leonardo Jardim não poupou palavras no pós-jogo: “todos estamos envergonhados”. Mas entre aquele domingo cinzento e a goleada de 4 a 1 sobre o Independiente Medellín no Maracanã, duas semanas depois, o Rubro-Negro mostrou que humilhação também educa. Nos últimos dez jogos, o time acumula 7 vitórias, 2 empates e apenas 1 derrota — um aproveitamento de 77% que explica mais do que números: revela como o Flamengo se refez.
A virada não veio do acaso. Jardim identificou problemas estruturais e cobrou uma resposta imediata: controle emocional, compactação defensiva e maior intensidade nas transições. A expulsão de Pulgar contra o Bragantino não foi esquecida; serviu de termômetro para a necessidade de maturidade tática. O treinador foi drástico nas mudanças, mas estratégico — alterou cinco peças na escalação já no jogo seguinte, nunca repetindo a formação nos primeiros dez confrontos sob seu comando. Não era improviso; era rodízio pensado para recuperar confiança individual e coletiva simultaneamente.
O Maracanã como resposta: dados que comprovam a superioridade
A goleada sobre o Medellín em 16 e 17 de abril consolidou a reação. Os números não deixam margem para debate. O Flamengo teve 62% de posse contra 38%, finalizou 23 vezes (11 no alvo) em comparação com 8 tentativas do rival (2 no alvo), distribuiu 504 passes (448 certos) diante de 279 passes dos colombianos (221 certos). No duelo individual, desprezou o Medellín com 12 desarmes contra apenas 2 do adversário. Não era domínio por domínio; era controle total do ritmo, da bola e do espaço.
Esse controle passou pelo meio-campo. A dupla Evertton Araújo e Lucas Paquetá atingiu acima de 90% de precisão de passe em conjunto, transformando o setor em válvula de transição defesa-ataque. Não é coincidência que Paquetá tenha aberto o placar: o gol legitimou a qualidade ofensiva que o Flamengo construiu na teia de passes. O meia celebrou como “algo muito especial”, e estava certo — era o símbolo tangível da confiança recuperada.
Jardim manteve o DNA rubro-negro de toques rápidos e presença no campo de ataque, mas inseriu uma vigilância tática que faltara contra o Bragantino. A compactação do meio-campo criou camadas de proteção. As mudanças frequentes na escalação não representaram bagunça, mas distribuição inteligente de esforço físico e responsabilidade. Em dez jogos, o Flamengo provou que recuperação não é voltaço emocional — é trabalho.
Do 0x3 ao Maracanã, a transformação reflete uma verdade incômoda: às vezes a derrota pesada é necessária para que um time encontre sua verdadeira cara. O Flamengo encontrou a sua em duas semanas. Agora o desafio é mantê-la.

Edmilson Lani é o responsável editorial do Flamengo RJ. Atua na curadoria, revisão e publicação de conteúdos do site, acompanhando de perto o noticiário do clube, os bastidores, o mercado da bola, os jogos e as análises do dia a dia. O site também utiliza fluxos de automação e ferramentas de apoio editorial no processo de produção, sempre sob supervisão humana sobre o conteúdo publicado.