O Flamengo tomou a frente de um movimento inédito entre os grandes clubes brasileiros ao entrar no Supremo Tribunal Federal contra a proibição das casas de apostas. Luiz Eduardo Baptista, presidente do Mengão, estima um prejuízo acima de R$ 400 milhões com a perda do patrocínio da Betano — valor que compromete desde o pagamento de jogadores como Lucas Paquetá até o cumprimento de compromissos estruturais do clube para 2027.
A ação do Flamengo no STF, apresentada como amicus curiae na Ação Direta de Inconstitucionalidade 8027, abriu caminho para que outros 17 clubes do Brasileirão seguissem o mesmo trajeto. O movimento reúne rivais históricos como Fluminense e Botafogo em uma frente judicial comum, sinal da gravidade que o setor enxerga na Medida Provisória nº 1.394.
Até esta sexta-feira, apenas Vasco, Palmeiras, Corinthians, Santos e Internacional não aderiram ao movimento entre os grandes. Já em série B ou outras divisões, Ponte Preta, Vitória, Guarani e Portuguesa SAF também protocolaram petição ao ministro Luiz Fux. A lista dos 17 que acompanharam o Rubro-Negro inclui: América, Athletic, Atlético-GO, Avaí, Botafogo-SP, Ceará, Chapecoense, CRB, Criciúma, Cruzeiro, Goiás, Juventude, Mirassol, Novorizontino e Vila Nova.
Perda de R$ 268 milhões por temporada coloca estrutura em risco
A urgência do Flamengo em buscar o STF reflete a dimensão real da crise. A Betano, parceira master desde 2024, garante R$ 268 milhões por temporada até 2028 — um contrato que sinalizou informalmente a possibilidade de rescisão caso a proibição se concretize. Bap deixou explícito que o clube não possui um plano B capaz de absorver essa perda.
O impacto estimado de R$ 400 milhões envolve efeitos diretos e indiretos. Os R$ 268 milhões do contrato com Betano representam 15% de toda a receita do clube. Soma-se a isso perdas secundárias em desdobramentos comerciais (5% adicionais), além da obrigação de devolver aproximadamente R$ 70 milhões à Kaizen — valor que corresponde a três meses de pagamento antecipado previsto em contrato.
Com o déficit contábil de R$ 33,8 milhões registrado apenas no primeiro semestre de 2026, o Flamengo já opera com margens apertadas. A perda de receita de apostas tornaria impossível honrar a segunda parcela da compra de Lucas Paquetá, de cerca de R$ 100 milhões, com vencimento agendado para janeiro de 2027. Bap mencionou essa incerteza como uma das preocupações imediatas da gestão.
Associação pede decisão urgente antes de segunda-feira
Nesta mesma sexta-feira, a Associação Nacional de Jogos e Loterias (ANJL) moveu nova ação no STF e pediu urgência na análise dos recursos. O prazo estabelecido é rigoroso: as 23h59 de segunda-feira (5 de outubro). Nesse horário, entram em vigor os efeitos completos da Medida Provisória nº 1.394.
A ANJL argumenta que a interrupção do fluxo de patrocínio de apostas não afeta apenas o futebol. Entre janeiro de 2025 e julho de 2026, o setor destinou R$ 437,9 milhões para outras áreas do esporte, incluindo Comitê Olímpico Brasileiro, Comitê Paralímpico Brasileiro, entidades de esporte universitário e escolar, APAEs, Pestalozzi e Cruz Vermelha. O futebol recebeu aproximadamente R$ 175 milhões desse montante.
Na ação protocolada, a ANJL sustenta que a proibição não produz um efeito setorial isolado: “atinge imediatamente instituições esportivas, projetos sociais e estruturas de interesse público que passaram a contar com esses recursos, criando consequências concretas para a capacidade de financiamento e continuidade de atividades”. A entidade cita, ainda, interrupções nas destinações públicas para saúde, segurança, seguridade social, esporte e turismo.
O Flamengo iniciou conversas exploratórias com possíveis substitutos da Betano, entre eles Lubrax e Banco BRB, mas estima internamente que nenhuma proposta conseguirá cobrir o impacto de 20% da receita total do clube — percentual que engloba os 15% diretos do contrato master e os 5% dos desdobramentos comerciais esperados.
O movimento que colocou o Mengão à frente de 17 clubes na luta contra a MP 1.394 revela a dimensão do problema: quando rivais históricos caminham juntos para o STF, a questão deixa de ser comercial e se torna estrutural. Para o Flamengo, a decisão que virá até segunda-feira pode determinar não só o ano de 2027, mas também a viabilidade de manter compromissos já firmados com atletas e parceiros internacionais.

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