Três meses após Carioca, Flamengo mantém tática mas perde consistência

Exatamente três meses e dezesseis dias separam o Flamengo que ergueu o Campeonato Carioca nº 40 do clube — decidido nos pênaltis contra o Fluminense em 8 de março — do time que agora persegue o Palmeiras no Brasileiro e lidera antecipadamente seu grupo na Libertadores. O hiato parece curto no calendário, mas foi tempo suficiente para revelar o que o Mengão conseguiu preservar da campanha estadual dominante e, principalmente, o que perdeu pelo caminho.

A estrutura tática voltou intacta. Leonardo Jardim, apresentado no início de março para assumir antes da final do Carioca, manteve o 4-2-3-1 como sistema base — esquema que combina posse de bola com intensidade para desgastar adversários. Três meses depois, a comissão técnica continua ancorando nele. A intensidade coletiva, marca registrada da campanha estadual, seguiu sendo o pré-requisito do treinador. Isso é fato concreto, não promessa. O time ainda pressiona alto e busca roubar bola nos primeiros 20 metros.

O que saiu do Carioca para o Brasileiro

Mas a consistência defensiva desapareceu quando o nível dos adversários subiu. A goleada de 3×0 sofrida para o Palmeiras no dia 23 de maio foi o espelho mais claro disso. Naquele jogo, o time que tinha domado rivais estaduais se viu totalmente exposto contra um clube que entende melhor o Brasileirão. Não foi eliminação ou acaso. Foi padrão. Contra adversários de maior repertório ofensivo, o Mengão viu a defesa vazar.

A vantagem pontual também virou desvantagem. Na véspera da pausa para a Copa do Mundo, o Palmeiras liderava o Brasileirão com 41 pontos — sete a mais que o  Flamengo, segundo colocado. Uma vantagem que o clube da Gávea não conseguiu justificar nos sucessivos confrontos diretos. O título estadual gerou esperança, mas não se converteu em impulso para competir efetivamente pelo nacional.

A disponibilidade de peças-chave murchou. Giorgian De Arrascaeta, fundamental no esquema de Jardim, sofreu lesão muscular na panturrilha no início de junho e integrou a delegação do Uruguai para a Copa — mas sem atuar na estreia. Sua ausência alterou toda a dinâmica ofensiva que funcionou bem em março. Sem ele, a criatividade dependeu mais de Pedro e de rotações que não tiveram o mesmo rendimento.

O que o Flamengo conseguiu preservar

Pedro, porém, ganhou outro patamar. Leonardo Jardim, em coletivas recentes, afirmou que o atacante se igualou a Gabriel como um dos maiores artilheiros rubro-negros do século. Essa elevação individual é real: Pedro marcou mais, participou mais de jogadas decisivas e tornou-se menos dependente de Arrascaeta — uma evolução tática que Jardim orquestrou desde que assumiu. O Pedro de junho não é o mesmo de março, e para melhor.

A confiança em Agustín Rossi resistiu. O goleiro foi herói da final do Carioca ao defender duas cobranças nos pênaltis. Três meses depois, a comissão identificou falhas pontuais em sua atuação, mas reiterou publicamente a total confiança nele. Isso não é só retórica. É escolha estratégica de manter uma peça que já provou seu valor sob pressão.

Gonzalo Plata, por sua vez, começou uma integração gradual que Jardim anunciou como expectativa de longo prazo. O reforço chegou no intervalo entre o Carioca e o Brasileiro, representando uma mudança no repertório ofensivo. Não é evolução comparada a março, é preparação para o futuro — e evidencia que o técnico reconheceu limitações da campanha estadual e quis se armar diferente.

Na Libertadores, o resultado não deixa dúvida. O Flamengo terminou a fase de grupos como líder antecipado do Grupo A com 16 pontos, garantindo classificação às oitavas antes da última rodada. O continente é lugar onde o time voltou a render bem — talvez porque enfrentou blocos táticos mais convencionais, onde o 4-2-3-1 de Jardim encontra espaço.

Leonardo Jardim também ajustou a gestão de elenco. Começou a rodar mais, falando publicamente que precisa gerir muita gente por causa de Brasileirão, Libertadores e Copa do Brasil. Essa rotatividade não existia no Carioca de forma tão sistemática. Agora é norma. Base tática preservada, execução mais cautelosa com o desgaste — uma leitura pragmática de que o ritmo de competições não permite luxo de queimar peças.

O título estadual nº 40, conquistado em 8 de março, manteve viva a mística local do clube. Mas na prática não garantiu performance automática contra rivais de maior nível. Três meses depois, o Flamengo preservou estrutura, evoluiu em partes e estagnou em outras. O Brasileiro segue dominado pelo Palmeiras. Na Libertadores avança firme. O que mudou mesmo não foi o DNA do time — foi a exposição de seus limites.