Leonardo Jardim saiu da coletiva de imprensa inflamado. Apesar da goleada de 5 a 1 sobre o Mirassol, o técnico do Flamengo não conseguiu deixar em segundo plano a arbitragem de Rafael Klein e decidiu fazer um protesto público contra as inconsistências das regras no futebol brasileiro.
A revolta começou no lance aos 47 minutos do primeiro tempo. Carrascal puxou contra-ataque desconcertante, deixou Denilson para trás e sofreu falta clara que impedia oportunidade manifesta de gol. Segundo as regras, a infração exigia cartão vermelho direto. Klein, porém, aplicou apenas amarelo. E não foi só: o árbitro de vídeo Rafael Traci omitiu a revisão da jogada.
“Essa pergunta eu não vou individualizar, mas às vezes me preocupa porque eu tenho que dar uma mensagem aos meus jogadores e hoje em dia eu até nem sequer sei bem as regras, não é?”, começou Jardim, em tom que misturava frustração e desabafo genuíno.
As dúvidas de Jardim sobre os critérios da arbitragem
O técnico português desceu em detalhes sobre sua dificuldade em compreender o que a arbitragem permite e o que proíbe. Apontou inconsistências gritantes que o deixam impossibilitado de orientar o elenco com clareza.
“Há situações destas, como a de hoje, que o último homem anula o nosso último homem e que normalmente é um vermelho direto, não há contestação. Por exemplo, a última partida, o Bruno (Henrique) não veio conosco porque foi uma entrada a meia-perna e também não foi para vermelho”, explicou, evocando caso anterior do próprio Mengão.
Mas não parou aí. Continuou enumerando outras incongruências que presencia no campeonato. “A seguir vejo outros lances de entrada de área, pessoas jogarem handball dentro da área e não é pênalti. Vejo outros darem cotoveladas e não é agressão”, disparou.
O desespero na fala de Jardim era evidente quando ele voltou a questionar sua capacidade de fazer com que os jogadores entendam o jogo que estão disputando. “Então eu não consigo entender as regras e estou com muita dificuldade de explicar aos meus jogadores quais são as regras do futebol e hoje em dia fico muito assim preocupado e acho que não é bom.”
O treinador, então, fez um apelo direto. Pediu esclarecimento institucional sobre quais são, de fato, os critérios da arbitragem atual. “Para mim e para os outros profissionais a gente não conseguir explicar o que é que é e o que não é. Eu acho que tem que haver um esclarecimento do que é. O que é fato, qual é a regra, que é para a gente passar a mensagem.”
E encerrou com aviso: o Mais Querido estava pagando o preço dessa falta de transparência, enquanto outras equipes se beneficiavam dela. “O Flamengo tem sofrido, outras equipes têm se beneficiado, o futebol deve saber, mas acho que é um esclarecimento de saber o que é a regra.”
A vitória tática e o alerta para o elenco
Mesmo com o protesto, Jardim não negou a qualidade exibida naquela tarde. Elogiou o desempenho da equipe em ambos os tempos e creditou a evolução ao tempo contínuo de trabalho — algo que havia faltado semanas antes, quando a Copa do Mundo obrigou uma paralisação de dois meses.
“Acredito que nós fizemos um excelente jogo, tanto na primeira parte, quanto na segunda. Na segunda parte, o adversário quis arriscar mais um pouco e ser mais ofensivos, cedeu alguns espaços e isso permitiu que nós fizéssemos mais quatro gols”, reconheceu.
Mas seu tom mudou quando tocou em gestão emocional. Pediu cautela ao elenco para não se deslumbrar com o placar, nem repetir a oscilação que havia marcado as semanas anteriores.
“Precisamos deixar uma ideia que não somos os melhores do mundo hoje. E há duas semanas atrás éramos os piores. Temos que gerir os momentos”, alertou, em referência às críticas que cercaram a Nação rubro-negra pouco antes.
O técnico reforçou que a continuidade dos treinamentos era a chave para a evolução observada. “A equipe está a evoluir, principalmente devido a estar junta e devido ao treino que tem desenvolvido. Porque vocês sabem que anteriormente a gente não conseguia ter a equipe junta, porque durante dois meses houve a Copa do Mundo.”
A mensagem de Jardim era nítida: o Mengão estava no caminho certo, mas o trabalho ainda era frágil, dependente da consistência diária. E, enquanto o placar falava sozinho, a arbitragem continuava sendo a pedra no sapato de qualquer análise mais profunda do que havia acontecido em campo.

Edmilson Lani é o responsável editorial do Flamengo RJ. Atua na curadoria, revisão e publicação de conteúdos do site, acompanhando de perto o noticiário do clube, os bastidores, o mercado da bola, os jogos e as análises do dia a dia. O site também utiliza fluxos de automação e ferramentas de apoio editorial no processo de produção, sempre sob supervisão humana sobre o conteúdo publicado.