Jorginho não é estrangeiro pela CBF; entenda a regra e a cota reduzida do Flamengo

Jorginho não é considerado estrangeiro pela CBF. Apesar de ter construído sua carreira na Europa e conquistado a Eurocopa 2020 pela Itália, o volante nasceu em Imbituba, Santa Catarina, em 1991, o que o exclui da contagem de atletas estrangeiros no Mais Querido.

A dúvida surge naturalmente: um jogador que passou quase toda a vida profissional em ligas internacionais — Hellas Verona, Napoli, Chelsea e Arsenal — não deveria ser classificado como gringo? Para a CBF, não. A regra é simples: brasileiro é quem nasceu no Brasil, independentemente de naturalização posterior por outra confederação.

Jorginho saiu do Brasil ainda nas categorias de base para integrar o Hellas Verona e aceitou o convite da Federação Italiana para se naturalizar. Construiu seu legado europeu nessa condição, mas sua origem brasileira permanece o critério decisivo da confederação nacional.

Outros casos similares no Brasileirão

Jorginho não é caso isolado. Pelo menos sete outros atletas do Campeonato Brasileiro vivem situação parecida: nasceram no Brasil, mas construíram suas carreiras em seleções e ligas estrangeiras sem perder o estatuto de brasileiros para fins de cota.

Maurício, do Palmeiras, é brasileiro que atuou pelo Paraguai. Carlos Coronel, do São Paulo, também defendeu a seleção paraguaia. João Costa, atualmente no Cruzeiro, foi das categorias de base da seleção portuguesa. Rafael Tolói, no São Paulo, jogou pela Itália. Além deles, Matheus Reis, do Fluminense, é mexicano naturalizado brasileiro; Niclas Eliasson, do Internacional, é sueco de mãe brasileira; e Kannemann, do Grêmio, é argentino naturalizado brasileiro.

A diferença entre eles e Jorginho é que este último nasceu brasileiro de facto, enquanto os outros conquistaram a nacionalidade por naturalização. Para a CBF, ambos os caminhos resultam na mesma classificação: não contam como estrangeiros.

A nova cota de estrangeiros e o impacto no Flamengo

A CBF determinou uma redução progressiva no número de jogadores estrangeiros que cada time pode relacionar por partida. Atualmente, o limite é de nove. A partir de 2027, será oito; em 2028, sete; em 2029, seis; e chegará a cinco em 2030.

A redução gradual visa adaptar os clubes à nova realidade, mas o Mengão enfrenta um desafio imediato. O elenco rubro-negro conta com 11 jogadores estrangeiros: os argentinos Rossi e Freitas; os uruguaios De La Cruz, Arrascaeta, Varela e Viña (em empréstimo ao Cruzeiro); os equatorianos Plata e Valencia; o chileno Pulgar; o espanhol Saúl e o colombiano Jorge Carrascal.

Já em 2027, quando o limite cair para oito atletas, o Flamengo precisará se desfazer de ao menos três jogadores estrangeiros ou deixar um fora da relação em cada rodada. A medida força os grandes clubes a reorganizar suas estratégias de recrutamento e contratação nos próximos anos.

Boto detona a decisão da CBF

O diretor de futebol José Boto não hesitou em criticar a nova regra. Em contato com repórteres, o português atacou frontalmente a determinação, afirmando que ela enfraquecerá o futebol brasileiro em vez de fortalecer.

Como estrangeiro, que trabalho no Brasil, mas que já trabalhei em outras ligas, vou dar a minha opinião, embora respeite quem fez esses estudos. Não me parece que essa medida vá ajudar o futebol brasileiro, antes, pelo contrário, vai pôr a liga mais fraca, porque os jogadores vão continuar saindo

Boto argumenta que a melhor geração de talentos brasileiros continuará migrando para a Europa em tenra idade. Sem a possibilidade de reter esses atletas de valor, os clubes locais terão que contar com jogadores de menor capacidade técnica, reduzindo a qualidade geral da competição.

Para o dirigente, a solução não passa por limitar estrangeiros, mas por investir em estrutura, formação e retenção de talentos. A imposição da CBF, em sua visão, é um tiro no pé da própria liga brasileira.

Boto chegou ao Flamengo no final de 2024 e assinou contrato de dois anos até dezembro de 2026, período em que terá que administrar essa transição de elenco imposta pela confederação. A crítica do português reflete a dificuldade que grandes clubes enfrentarão para se adequar às novas regras de elegibilidade.