José Boto, diretor de futebol do Flamengo, qualificou a demissão de Filipe Luís como um “ato de coragem” necessário para o momento do clube e explicou em detalhes os critérios que levaram à contratação de Leonardo Jardim. Em entrevista ao “Mengocast” da FlamengoTV, o português abordou não apenas a mudança no comando técnico, ocorrida em março de 2026, mas também revelou sua estratégia cautelosa para a próxima janela de transferências.
A decisão pela troca de treinador, segundo Boto, não representou falta de confiança no trabalho de Filipe Luís, mas sim uma correção de rota diante de um cenário específico. “Quando se troca treinador, não quer dizer que aquele treinador é ruim. Às vezes há contextos que não são os mais indicados para aquele treinador”, explicou o diretor. Ele ressaltou que após a sequência vitoriosa da temporada anterior — que resultou em títulos de Libertadores, Brasileirão, Copa do Brasil, Campeonato Carioca e Supercopa — havia uma expectativa enorme criada internamente, e que as coisas não estavam alinhadas entre o técnico e a estrutura da equipe.
O grande diferencial de Jardim, na avaliação de Boto, reside em sua adaptabilidade. “Existem treinadores muito agarrados ao seu modelo de jogo. Há outros que eu chamo mais ‘camaleônicos’. São mais camaleões, adaptam-se mais aos jogadores que têm”, afirmou. Essa flexibilidade, segundo o dirigente, é essencial para tirar o melhor proveito dos atletas do elenco rubro-negro, mencionando o crescimento de Pedro como exemplo positivo da capacidade do novo técnico em potencializar talentos.
Boto e o presidente do clube, em conversas que ocorrem com frequência maior do que o público imagina, chegaram à conclusão de que a solução era a mudança no comando técnico. O diretor reconheceu que a decisão gerou críticas e que alguns setores classificaram a atitude como “covardia”. Ele rebateu essa interpretação de forma direta: “Pelo contrário, é preciso uma coragem muito grande para tomar uma decisão dessa. Não tem nada de covardia. A decisão tinha que ser tomada. Se estava certa ou não, saberemos no fim do ano. Não foi uma decisão fácil e sabíamos que íamos tomar muita porrada. Foi um ato de coragem”.
Resultado inicial de Jardim valida a mudança
Leonardo Jardim chegou com credibilidade e experiência internacional consolidada, e seu início no Flamengo tem sido notavelmente positivo. Em dez jogos, o técnico soma sete vitórias, dois empates e uma derrota, alcançando um aproveitamento de 76,6%. A performance inicial de Jardim supera, em termos de aproveitamento, os primeiros dez jogos de Filipe Luís, que registrou seis vitórias, três empates e uma derrota (70% de aproveitamento).
Os números mostram diferenças significativas na ofensiva. Enquanto Filipe Luís marcou 13 gols e sofreu 6 nos seus dez primeiros compromissos, Jardim já contabiliza 20 gols marcados com apenas 7 sofridos. Ambos os treinadores conquistaram um título em suas primeiras dez partidas: Jardim foi campeão do Campeonato Carioca em sua estreia, enquanto Filipe foi campeão da Copa do Brasil em seu nono jogo.
Uma característica marcante do trabalho de Jardim tem sido a rotação constante do elenco. O técnico não repetiu a formação em nenhum dos dez primeiros jogos, utilizando diferentes escalações mesmo em situações em que poderia manter o mesmo time. Essa estratégia busca manter todos os jogadores em ritmo de jogo e aproveitar ao máximo o potencial do elenco disponível.
Cautela na próxima janela de contratações
Sobre a próxima janela de transferências, Boto revelou uma postura bem mais cautelosa. Ele informou que ainda não se reuniu com Jardim para discutir contratações específicas. “Estamos ainda em uma fase com o novo treinador avaliando as necessidades. Contratar jogador sem que o treinador queira ou saiba é uma estupidez, é jogar dinheiro fora”, afirmou o dirigente.
A declaração de Boto reflete uma lição aprendida ao longo de sua gestão. O diretor reconheceu a dificuldade em reforçar o elenco devido ao alto nível financeiro e de qualidade exigido. Ele citou o caso de Jorge Carrascal como exemplo de uma contratação extremamente complexa. As negociações com o Dínamo de Moscou se estenderam por meses, envolvendo problemas de comunicação e fuso horário. O Flamengo pagou cerca de €12 milhões pela contratação, em operação que envolveu também o Atlético-MG. As conversas começaram antes da Copa do Mundo de Clubes de junho de 2025 e o anúncio ocorreu apenas na primeira semana de agosto de 2025.
Apesar dessa experiência desafiadora com Carrascal, Boto manifestou seu desejo de voltar a buscar jogadores desconhecidos com potencial para o Flamengo. “Gostaria, antes de sair daqui, de trazer um ou dois jogadores menos conhecidos e que possam depois virar estrelas do clube”, afirmou. Ele citou experiências passadas em outros clubes, onde conseguiu revelar talentos que se tornaram referências no futebol.
O diretor comentou também sobre a pressão de atuar em um clube como o Flamengo, onde a obrigação é vencer constantemente. Ele ressaltou que, enquanto em clubes com menos exigência é mais fácil trabalhar, no Rubro-Negro a cada semana há cobranças e exigências que demandam decisões rápidas e precisas.

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