Leonardo Jardim enfrentará pela segunda vez na carreira um jogo em altitude elevada nesta quarta-feira, quando o Flamengo estreia na Copa Libertadores contra o Cusco, no Peru. O técnico subirá aos 3.350 metros do Estádio Inca Garcilaso de la Vega sem experiência acumulada em competições sul-americanas — apesar de ter nascido na Venezuela, sua carreira se desenvolveu majoritariamente na Europa, deixando-o relativamente novo em desafios como esse.
A estreia acontece às 21h30 (horário de Brasília), e Jardim já sabe o que o espera. Em 2025, quando dirigia o Cruzeiro pela Copa Sul-Americana, enfrentou o Mushuc Runa em Riobamba, no Equador, em uma cidade localizada a 2.754 metros de altitude. Na ocasião, apesar de escalar uma equipe reserva na quarta rodada da competição — quando os mineiros ainda somavam zero ponto — conseguiu um empate em 1 a 1, evitando a derrota longe de casa.
A experiência ficou marcada pela velocidade da bola em altitude. Em recente entrevista já como técnico do Flamengo, Jardim relembrou a sensação do duelo equatoriano e as adaptações necessárias.
Minha sensação naquele jogo foi a rapidez da bola. Muitas vezes, essas equipes têm um jogo muito mais direto e de duelos. Temos que colocar a bola no chão e tentar jogar com o nosso DNA. Na fase defensiva, precisamos de atenção. As situações que eles podem criar, como chutes de fora da área, bola parada, precisamos ter mais atenção pela velocidade da bola
A observação do treinador apontava para um desafio tático real: em altitudes elevadas, a bola sofre alterações aerodinâmicas que afetam sua trajetória e velocidade, exigindo ajustes defensivos mais atentos. Aquele jogo do Cruzeiro serviu como laboratório para Jardim compreender como equipes localizadas em regiões altas adaptam seu jogo para tirar proveito do ambiente.
Agora, na Libertadores, o desafio é significativamente maior. O Cusco fica 596 metros acima de Riobamba, intensificando os efeitos da altitude no rendimento físico e técnico. O Flamengo se preparou especificamente para essas condições, com Juan orientando a dosagem de ritmo, posicionamento e concentração. Danilo foi confirmado como titular na defesa, reforçando a estrutura defensiva que será essencial para lidar com as investidas diretas do time peruano em seu habitat.
Jardim não minimizou a dificuldade ao comentar sobre a estreia. Em entrevista recente, ressaltou que a Libertadores não oferece facilidades e que a altitude é apenas uma das variáveis.
Essa competição não tem facilidade. Tem jogo na altitude, tem equipes com futebol direto nos seus habitats que favorecem esse tipo de jogo. Temos que fazer uma mudança estrutural para jogadores que estão preparados para esse tipo de luta ao invés de um Maracanã. Não existe facilidade no futebol, todos os jogos são difíceis. O que fazer é a gente tornar o jogo fácil
A declaração revela a estratégia do técnico: adaptar a equipe não apenas às limitações físicas impostas pela altitude, mas também ao padrão tático que o Cusco explora em seu estádio. Cinco jogadores não viajaram ao Peru — Alex Sandro, Erick Pulgar, Jorginho, Saúl Ñíguez e Everton Cebolinha —, o que reduziu opções, mas permitiu uma seleção de elenco focada em durabilidade e adaptabilidade às condições extremas.
O histórico do Flamengo no estádio oferece uma pequena luz. Juan marcou gol na vitória por 3 a 0 sobre o Cienciano em apresentação anterior naquele local, único precedente do clube naquele estádio. O resultado sugere que é possível impor o futebol do Flamengo mesmo em condições desfavoráveis, desde que haja disciplina defensiva e clareza tática.
Para Jardim, trata-se de sua verdadeira primeira experiência em um palco continental de envergadura. A altitude deixará de ser um fator desconhecido — ele agora tem referência concreta do Cruzeiro — e passa a ser uma variável tática a ser gerenciada. A estreia na Libertadores marca o batismo do treinador na competição mais importante do continente, em um dos ambientes mais hostis que o futebol sul-americano oferece.

Edmilson Lani é o responsável editorial do Flamengo RJ. Atua na curadoria, revisão e publicação de conteúdos do site, acompanhando de perto o noticiário do clube, os bastidores, o mercado da bola, os jogos e as análises do dia a dia. O site também utiliza fluxos de automação e ferramentas de apoio editorial no processo de produção, sempre sob supervisão humana sobre o conteúdo publicado.