Marcos Motta enfrenta pedido de afastamento de sócios por conflito de interesses

Sete grupos políticos rubro-negros protocolaram na secretaria do Mengão uma representação contra o vice-presidente Marcos Motta, solicitando seu afastamento preliminar de até 60 dias. O pedido, registrado em 20 de agosto, alega conflito de interesses entre o cargo na diretoria e a atuação simultânea no escritório Bichara e Motta Advogados.

A representação foi endereçada ao presidente Bap, ao presidente do Conselho Deliberativo Ricardo Lomba e ao presidente da Assembleia Geral Gustavo Fernandes, sob o título oficial de “representação com pedido de afastamento e impedimento estatutário”. Os signatários são: Flafut, NossoFLA, PróFla, Sempre Flamengo, Sinergia, Vanguarda e Vencer.

Segundo o documento, o escritório de advocacia teria participado de assessoria na implementação da SAF do Santos e na transferência do volante Zé Lucas do Sport para o Cruzeiro. Para os sócios, essa atuação simultânea cria um cenário inaceitável de conflito.

O conflito apontado pelos sócios

O núcleo da acusação repousa no argumento de que Motta teria acesso a informações confidenciais do Flamengo enquanto presta serviços a terceiros. Um trecho central da representação diz: “O exercício simultâneo de cargos de cúpula no Flamengo e da consultoria técnica em SAF e de negociação em atletas na linha de frente para outros clubes… cria um gravíssimo e inaceitável conflito de interesses.”

Os sócios apontam que essa situação coloca em risco direto a integridade das negociações do Mais Querido. A argumentação sustenta que o acesso a dados sensíveis — como estratégias de mercado, tetos salariais e informações sobre operações em andamento — poderia vazar para outras instituições nas quais o vice-presidente atua.

A representação ainda faz uma comparação com Rodolfo Landim, ex-presidente do clube. O texto registra: “Não há como perseguir o Rodolfo Landim e ignorar o Marcos Motta. São dois pesos e duas medidas.” Essa menção sugere que os sócios esperam coerência na aplicação das regras internas independentemente de quem ocupe o cargo.

O momento político no clube

O pedido chega em um período de tensão financeira e política na instituição. O Mengão divulgou um déficit de R$ 33 milhões no primeiro semestre de 2026, provocando críticas generalizadas à gestão de Bap. Soma-se a isso a reforma do estatuto promovida pela administração atual, que ampliou as causas de impedimento para membros da diretoria — justamente o argumento usado pelos sócios para fundamentar sua representação.

A dinâmica interna do clube reflete também pressões externas. Bap entrou com uma ação judicial contra Pedrinho, presidente do Vasco, após ofensas diretas durante o embarque da delegação vasca para Assunção. Pedrinho chamou o mandatário rubro-negro de “mau-caráter, arrogante, prepotente, soberbo e hipócrita”, disparada que motivou a busca por indenização por dano moral e responsabilidade civil.

Paralelamente, a administração rubro-negra continua gerando receitas expressivas. O Flamengo assegurou US$ 7,65 milhões — aproximadamente R$ 39,6 milhões — pela classificação às quartas da Libertadores ao eliminar o Cruzeiro por 3 a 1 no agregado. A estrutura de premiação da competição revela que o clube obteve US$ 3,7 milhões apenas em bônus por vitórias na fase de grupos, além de ganhos por avanços nas demais fases.

Procedimento e próximos passos

A representação não é automaticamente conclusiva. O documento será analisado pelos três dirigentes aos quais foi endereçado. A Lei de Segurança do Patrimônio do Flamengo e as cláusulas estatutárias recentes — reformadas por Bap — estabelecem que conflitos de interesse dessa natureza devem ser investigados.

O afastamento preliminar solicitado de até 60 dias funcionaria como medida cautelar enquanto a apuração ocorre. Caso seja deferido, Motta ficaria impedido de participar de reuniões, acessar documentos confidenciais ou tomar decisões que envolvam negociações do clube durante esse período.

A assinatura do pedido por sete grupos políticos distintos sugere que a questão ultrapassa divisões internas típicas. Organizações que costumam divergir em outras pautas uniram-se em torno do argumento de conflito de interesses. Isso indica preocupação generalizada entre a base de sócios com a situação levantada, independentemente de filiação política.

O caso exemplifica as tensões crescentes no Flamengo entre a administração Bap e segmentos da torcida organizada e sócios. Não é apenas sobre Marcos Motta, mas sobre a coerência na aplicação de regras de governança em um clube que debateu reformas estatutárias justamente para evitar conflitos similares.