Pobreza de espírito
Jogo mais importante do campeonato. Time da casa, Flamengo, melhor. Carrascal levanta o pé na disputa. Toca na bola primeiro, mas atinge o rosto do adversário. Dolo eventual ou culpa consciente?! Depois da prévia ênfase vitimista do técnico do Palmeiras, o árbitro passa a ter uma só solução: in dubio pro ruber, “na dúvida pró vermelho”. Ou pró verde. Pobreza de espírito, que destruiu o jogo e coloca em risco o campeonato! Se não estamos mais no tempo de Mário Soto x Anselmo, por que outros lances similares tiveram decisões diferentes pela arbitragem no futebol brasileiro, com a aplicação do cartão amarelo? Simples: porque não há consenso. E a pressão dos dirigentes nos bastidores, nessas horas, funciona. Isso não retira de Carrascal sua parcela de culpa, que é quase a totalidade. No mínimo, deu chance ao azar. Como diz meu amigo Lemos, “assim você acaba com o time, irmãozinho”. O colombiano tem tantas expulsões quanto gols neste ano. Quando o agente é reincidente, a culpa passa a não ser da polícia. Exceto, claro, se você for como Giay, que abusou do direito de parar jogadas até levar o amarelo depois da milésima “falta estratégica”.
E o que dizer de Agustín Rossi, que critiquei na última coluna, mas dei-lhe os devidos créditos pelos serviços prestados?! Ao menos dois dos três gols do Palmeiras foram totalmente defensáveis. Não seria hora de o Jardim dar mais chances ao Andrew? Não somente para dar forma ao goleiro reserva como também para dar um recado ao titular.
Falando no Jardim, também não posso deixar de mencionar a opção escolhida pelo nosso técnico no intervalo pro 2º tempo. Abriu demais o peito sem escudo. “Vencer, vencer, vencer”, ok, mas, para vencer a guerra, às vezes é importante recuar em uma batalha. Arrisco dizer que, com Filipe Luís, que tinha uma transição defensiva mais sólida (pô, seguramos o PSG e perdemos do Bayern em “erros forçados”), o 0x3 não teria acontecido! Ademais, penso que falta ao Flamengo ser menos bonzinho em determinados lances. Não digo ser violento ou oligofrênico como uns e outros, mas saber fazer faltas táticas, como o próprio Palmeiras faz. No segundo gol deles, eram sete nossos contra dois palmeirenses (Allan – baita jogador! – e Jhon Arias) e, ainda assim, saiu o gol de ombro! De ombro!!! Só o Pedro tem direito de fazer gols plásticos assim!
Enfim… Cada um dos aqui citados, na medida de sua culpabilidade, entre erros ou má escolhas, acabaram com o jogo mais importante do Campeonato Brasileiro até o momento, em que tínhamos prováveis condições de sair vitoriosos. Lino, Paquetá e Evertton ainda fizeram o favor de perder gols quando o jogo tava 11 contra 11. Desse jeito, meus amigos, de nada adianta culpar arbitragem ou o jogador X ou Y: o terror coletivo do Flamengo de perder muitos gols é um problema mais sério do que imaginávamos. Como nosso Gulliver, de Jonathan Swift, o Flamengo precisa se adaptar a adversários pequenos e também a grandes. E olha que atuamos melhor contra grandes do que contra pequenos. O futuro ex-líder do campeonato pode não ser não “ex” assim.
Agora é esquecer esse jogo, erguer a cabeça e pensar no Coritiba, amanhã, adversário que vem fazendo jogos melhor fora de casa do que no Couto Pereira, antes da pausa para a Copa do Mundo.
Noite de pisco sour
Pela Libertadores, abri um sorriso quando li a escalação alternativa do Mengo contra o Cusco, sobretudo com a entrada do Andrew, pedida por muitos torcedores diante das constantes e recentes falhas do nosso querido Agustín. Tá certo o Jardim: tem que botar essa turma para jogar e ganhar entrosamento. Só que o Cusco não fez o Andrew suar a camisa. Na verdade, somente em um chute a gol nosso goleiro precisou se esticar e fazer a defesa. Diante disso, o jogo pareceu aquele saboreio de drinks em que o garçom demora para te atender e só atende quando o gerente chama a atenção. No caso, o “gerente” português chamou a cavalaria e o Mengo fez 3×0. A vitória estava desenhada, mas eu palpitei que seria aquele um-a-zerinho chato. Felizmente, errei. Nem em “1 éon de anos” o Flamengo poderia se sujeitar a não vencer um time fraco, que só tem 1 ponto, em sua casa. Com o atraso do Flamengo em fazer o resultado, pagamos a conta do pisco sour alegres e satisfeitos, mas sem os 10%.
Não há muito o que falar deste jogo a não ser citar o notório desentrosamento visto no 1º tempo e reforçar que Bruno Henrique merece uma estátua na Gávea. É jogo grande? Chama o BH. O jogo tá embolado? Chama o BH. É clássico? Chama o BH. Quer ouvir entrevista engraçada? Chama o BH. O país entrou em recessão econômica? Chama o BH.
“Ninguém morre nos devendo”
Quis o sorteio das oitavas-de-final da Libertadores que reencontrássemos o Cruzeiro pela frente, mesmo adversário que, nesta mesma fase, nos eliminou em 2018, o último ano antes da Glória de Nosso Senhor Jorge Jesus. Parece-me um bom adversário, pois, afinal, é conhecido, viagem curta, falamos a mesma língua e as torcidas são amiguinhas. Mas não será fácil.
Isto posto,
Saudações Rubro-Negras!

Ricardo Santoro Nogueira, 39 anos, casado, nascido em Brasília/DF, é advogado e exageradamente flamenguista. Herdou de seu pai este viciante hábito de ocupar 90 min. assistindo ao Mais Querido. É fã de Zico, Adriano, Arrascaeta e Bruno Henrique, entre outros que também mereceriam destaque. Quase morreu em 2019, mas passa bem.