Vinho, safra 2019
Em 2019, tínhamos um timaço. Mas não tínhamos tanto banco e elenco como temos hoje – e isso só eleva o que Jorge Jesus fez com aquele time. Hoje, o conceito de titular x reserva no Flamengo é mera folha de papel. Assim, rodar o elenco e evitar desgaste não é somente crucial como um imperativo categórico. E a dupla remanescente de 2019 gastou a bola ontem, contra o Independiente Medellín, no Maracanã. Na verdade, o Flamengo jogou como música, com rapidez e jogadas bonitas. Mas, para mim, Arrascaeta foi o grande destaque, com assistência e aquele toquinho de categoria no terceiro gol. Como é bom ver BH e Arrascaeta em campo, repetindo a comemoração que Bruno fazia com o Gabi, de se tocarem curvados com os dedos. Talvez só teremos dimensão do que esta dupla é para o Flamengo quando ambos se aposentarem. Então, vamos desfrutar.
Sobre o jogo, não tem muito o que falar a não ser elogiar. Vou até poupar as críticas que eu gostaria de fazer a Jorge Andrés Carrascal, que perdeu um gol inaceitável logo aos 3 min. de jogo (como eu disse na coluna anterior, gol difícil o colombiano até faz e gol fácil ele perde) e entregou a paçoca no improvável gol dos caras. O domínio rubro-negro passou pelo entrosamento no meio-de-campo e pela conexão com os jogadores de frente. Fora a dupla remanescente de 2019, Lucas Paquetá como segundo homem vai dando um problema super agradável ao Jardim quando Jorginho e Pulgar retornarem (e ainda tem o Nico neste miolo). Envolvente, entrosado e veloz, o Mengo inicia a Libertadores 2026 como não iniciava desde 2022, ano do tri.
E Pedro?! O que falar desse rapaz? Falarei no próximo tópico.
Pedra 90, só enfrenta quem aguenta
Como eu disse na coluna anterior, se tem um time em que eu gostaria de dar uma surra é o Fluminense. E toda vez que eu acho que essa surra vai acontecer, em razão da nossa superioridade técnica em determinado jogo, acaba que não acontece e às vezes ainda tomamos um gol. Amigos, amassamos o Fluminense. Como Fla-Flu evoca sempre o Sobrenatural de Almeida, o jogo poderia ter terminado com uma goleada para a gente ou com um empate com sabor de vitória para eles. No apagar das luzes, Carrascal fez um favor ao Flamengo, que foi dar uma tesoura por trás no jogador tricolor, ser expulso e, com isso, sendo desfalque, não vai atrapalhar no próximo jogo. Enfim, se o Flamengo puxa os adversários para cima, o Fluminense faz justamente o contrário e puxa os adversários para baixo, com catimba, reclamação, inversão dos pólos do discurso e sempre se achando maior do que realmente é.
É impossível falar deste Fla-Flu sem citar o grande destaque da partida, indiscutivelmente a nossa “Pedra 90”: sólido, firme e competente. QUER UMA PINTURA? TOMA UM GOL DO PEDRO POR COBERTURA! QUER UM GOL PERFEITO? TOMA UM GOL DO PEDRO DE PEITO! Pedro Guilherme, baita jogador, fez dois golaços, um de raríssima inteligência e o outro de raríssima arte, de peito, outra especialidade da casa. Destaco também a boa partida de Samuel Lino (finalmente!), jogador que pode, deve e está recuperanddo o bom futebol que apresentou na sua chegada ao clube. No esquema de Leonardo Jardim, os jogadores de lado precisam ter entrosamento com os laterais e a volta do Alex Sandro ajudou Lino nesse sentido, que interceptou muito bem, fechando os espaços na marcação, no primeiro gol, e deu um passe de cinema no segundo. No meio do 2º tempo, com as substituições, o jogo mudou pro lado deles, mas de forma insuficiente para alterar o curso da vitória. Belíssimo resultado, que, com um jogo a menos, deixa o Flamengo somente dependendo de si no Brasileiro – embora ainda haja muitas rodadas para se escalar.
Vencer Fla-Flu é normal, sim, só que pro Flamengo. Quando algum amigo tricolor vier com esse papo furado, do mesmo nível de “Ganso é melhor que Arrascaeta porque jogou com Neymar” ou “melhor ganhar uma Libertadores no Maracanã do que quatro“, apresente-lhe os números do confronto, os históricos e os recentes. Quem sabe assim ele não desce de Nárnia e aceita os fatos comprovados, como Pedro Pedreira da “Escolinha”.
Tufão, Nina e Carminha
A ferramenta de buscas é, certamente, uma das maiores invenções da internet. Pesquisando pelo Google, vemos que, no ano passado, o Palmeiras teve uma partida adiada contra o Santos, mesmo com o elenco já presente no país, em razão da Copa do Mundo de Clubes. Em meio ao adiamento de um dia do Fla-Flu, eis que entram em cena Tia Leila e Abel Ferreira, grandes fregueses e adeptos da obscura tática do “acuse-os daquilo que você faz”, uma derivação do lema no Palestra Itália, que é de pressão e formação de opinião, “jogar pra galera”. Entre ofícios e notas de repúdio, que certamente vão parar na lixeira, será campeão aquele que acertar mais vezes o gol, e não quem gritar mais alto. Por fim, que penaltizinho mandrake marcado ontem pros caras, contra o Sporting Cristal! É por isso que gritam alto?
Manto 2, agora “Manto 1 branco”
Sempre gostei muito das camisas da Adidas… até a Adidas vir pro Flamengo. Saiu o Manto 2, chamado de “Manto 1 branco”. No mesmo estilo de quase sempre, com aquelas faixas à la São Paulo de que eu, francamente, não sou fã. De vez em quando, vejo nas redes sociais ideias de camisas rubro-negras criadas por IA, por torcedores comuns. Geralmente, são muito melhores e mais bonitas do que os modelos oficiais aprovados. Acho que o Flamengo deveria oficializar o manto branco nos mesmos moldes do nosso Mundial de 1981, com as mangas rubro-negras. Pronto: está tombado. E, a partir daí, criar as variações que alteram as camisas anualmente. O que acham?
Isto posto,
SAUDAÇÕES RUBRO-NEGRAS.

Ricardo Santoro Nogueira, 39 anos, casado, nascido em Brasília/DF, é advogado e exageradamente flamenguista. Herdou de seu pai este viciante hábito de ocupar 90 min. assistindo ao Mais Querido. É fã de Zico, Adriano, Arrascaeta e Bruno Henrique, entre outros que também mereceriam destaque. Quase morreu em 2019, mas passa bem.