Baptista critica empréstimo da Crefisa ao Vasco e cobra transparência em liga única

Luiz Eduardo Baptista levantou questionamentos diretos sobre a operação de R$ 80 milhões que a Crefisa emprestou ao Vasco, apontando brechas para conflito de interesse e colocando em dúvida a solidez da negociação. Durante sua participação na segunda edição do CBC & Clubes Expo, em Campinas, o presidente do Flamengo não poupou críticas ao acordo, questionando as garantias oferecidas pelo clube cruz-maltino para justificar o empréstimo.

Baptista utilizou a metáfora do casamento para explicar sua posição contra o que chamou de desapropriação de direitos. “Quando você vai se juntar com alguém, quando vai casar, o casamento na comunhão parcial de bens funciona assim: o que você tem é seu, o que você vai construir de novo vai ser dividido de igual maneira. Quando você casa com alguém, e esse alguém quer invadir o que você tem, o nome disso é desapropriação ou invasão. O Flamengo é contra isso, é uma questão de princípio”, afirmou.

A crítica não se limitou à forma contratual. O presidente questionou a lógica financeira por trás da garantia solicitada. “Qual instituição financeira vai emprestar dinheiro para vocês e pedir como garantia o título da dívida? Quem faria isso? Só quem quiser tomar conta da sua casa”, disse Baptista, sugerindo que a Crefisa poderia estar buscando controle futuro sobre a SAF do Vasco.

Estádio de São Januário como ativo real

Na sequência, Baptista apontou qual seria, em sua visão, a garantia apropriada para uma operação dessa magnitude. “Se eu fosse banqueiro, pediria o estádio de São Januário, que é um ativo real, como garantia. Quem pediria as ações da SAF como garantia? Talvez quem queira assumir a SAF do Vasco”, afirmou o mandatário rubro-negro, reforçando sua suspeita sobre os reais objetivos da financeira na transação.

A operação da Crefisa ao Vasco ocorreu em 2024, com 20% das ações da SAF oferecidas como garantia do empréstimo. O contexto é mais delicado quando considerado o envolvimento de Marcos Lamacchia, enteado de Leila Pereira, presidente do Palmeiras, na negociação de compra de 90% da SAF do Vasco por pouco mais de R$ 2 bilhões. Isso cristaliza a preocupação de Baptista com possíveis conflitos de interesse no futebol brasileiro.

Além do empréstimo ao Vasco, Baptista abordou a recuperação judicial do Botafogo, outro exemplo que, segundo ele, demonstra fragilidades no modelo de SAF adotado no Brasil. O clube de General Severiano protocolou pedido de recuperação judicial em 22 de abril, com dívida total chegando a R$ 2,753 bilhões, dos quais R$ 1,643 bilhão vencido no curto prazo.

Dívida do Botafogo multiplica com SAF

Baptista afirmou que a dívida inicial do Botafogo, quando a SAF foi constituída, era de R$ 700 milhões, valor que, segundo ele, triplicou. “Posso estar equivocado na ordem de grandeza dos números, mas quando essa SAF foi constituída eram R$ 700 milhões de dívidas. Hoje, pelo que se lê na mídia, o valor é três vezes e meia maior que o inicial”, denunciou o presidente flamenguista, sinalizando que o modelo de Sociedade Anônima de Futebol precisa de reformulação.

O discurso de Baptista evidenciou preocupação com a falta de responsabilidade dos investidores. “SAF é válido, importante, mas tem que ter limites e obrigações em contrapartida”, apontou, sugerindo que o Brasil precisa de regulamentação mais rígida sobre quem pode investir em futebol e sob quais condições.

Baptista também reafirmou sua defesa pela criação de uma liga única de clubes brasileiros, mas sempre com ênfase na transparência. “Flamengo sempre foi a favor de uma liga nacional. Isso é bom que seja dito para todo mundo”, frisou. A posição flamenguista, porém, não é apoio cego a qualquer modelo, mas sim pressão por regras claras que impeçam a concentração de poder e conflitos de interesse.

Durante o mesmo evento, Baptista participou de palestra sobre a reforma tributária que pode impactar clubes associativos. A discussão gira em torno de aumento da carga tributária para associações sem fins lucrativos em relação às Sociedades Anônimas do Futebol, tema que o Flamengo acompanha de perto. Uma Audiência Pública na Comissão de Esporte está agendada para 28 de abril para debater o impacto dessa reforma nas organizações esportivas sem fins lucrativos.

O presidente também reiterou a posição histórica do Flamengo contra a utilização de gramados sintéticos. “Opinião do Flamengo sobre esse assunto é muito clara. O Flamengo entende que futebol de alto nível, e basta você ver as cinco maiores ligas do mundo, onde você tem campo de plástico?”, questionou. Para Baptista, escolher gramados sintéticos por economia contradiz o objetivo de criar competições de qualidade. “Quem quer ganhar dinheiro com futebol, com um futebol forte, devia defender campo natural de grama”, concluiu.