Leonardo Jardim apagou o fogo dos rumores. Após a Vitória por 2 a 0 sobre o Vitória, no Maracanã, o técnico do Flamengo foi direto ao rebater as especulações de mal-estar com a diretoria rubro-negra. Negou conflito com o diretor de futebol José Boto e com o presidente Luiz Eduardo Baptista, e marcou posição: o foco agora é desenvolver o elenco que tem em mãos.
A semana tinha sido tensa no Mengão. Duas transferências fracassaram — Luiz Henrique saiu do Zenit e Thiago Almada foi para o River Plate — enquanto o Palmeiras se distanciava na liderança. Parte da torcida e da mídia começou a teorizar sobre uma possível ruptura entre Jardim e a cúpula rubro-negra. O técnico abriu a mão em coletiva para esclarecer o assunto.
“Sobre o mercado, já falei que existem pessoas com responsabilidade sobre isso. Não vou falar porque se eu der uma opinião como fiz no passado sobre o mercado, necessidades, amanhã vai sair: ‘Jardim está contra o Boto, o Boto está contra o Bap’. E não. O que acontece é que neste momento temos o nosso elenco. Desde que cheguei estou agarrado ao elenco e tento desenvolver as ideias com o elenco. Ponto final. Não tem outra situação para expor”
A declaração deixou claro: Jardim não pretende alimentar teorias sobre conflitos internos. Reforçou que sua responsabilidade é trabalhar com o que tem à disposição. Afinal, o Mais Querido segue em busca de classificação nas competições que disputa, e o próximo compromisso é contra o Cruzeiro, rival que ocupará duas rodadas do calendário rubro-negro.
Ayrton Lucas e o time que jogou em Brasília
A vitória sobre o Vitória veio após dez dias de trabalho com o elenco praticamente completo. Jardim aproveitou esse período para reintroduzir jogadores que vinham de férias, lesões ou compromissos com as seleções. O técnico destacou a importância desses dias de treino integrado — algo raro no calendário brasileiro.
Um ponto de satisfação foi a atuação de Ayrton Lucas. Jardim o parabenizou no vestiário e fez questão de ressaltar a qualidade do lateral na entrevista coletiva. “Eu treinei alguns dos melhores laterais do mundo e é formidável. Fechei o vestiário e dei parabéns para ele. Fez um grande jogo. Ele tem qualidades para fazer um futebol de alto nível, é rápido, é bom tecnicamente, tem bom jogo aéreo. Queria ver mais vezes esse Ayrton no Flamengo”, afirmou.
O elogio soava também como um recado: há potencial na casa. Não é necessário buscar soluções externas se o que existe for bem desenvolvido. Essa foi a mensagem repetida por Jardim ao longo da entrevista — uma resposta indireta àqueles que contestam as frustrações do mercado.
A realidade do calendário e o otimismo com o Cruzeiro
Jardim abordou um incômodo estrutural do futebol brasileiro: a falta de tempo para treino. Com jogos a cada três ou quatro dias, fica difícil desenvolver ideias táticas e recuperar jogadores. O técnico comparou a situação a um aluno que precisa fazer prova a cada quatro dias sem frequentar aulas. “Eu venho de campeonatos, principalmente na Europa e na Ásia, que há tempo de treinar. Faço uma crítica ao Brasil que às vezes não temos tempo de treinar”, disse.
Apesar desses desafios, o técnico projetou otimismo para os duelos contra o Cruzeiro. Reconheceu a qualidade do adversário — “um dos três melhores elencos do Brasileirão” — mas acredita que o Flamengo tem individualidades e coesão para competir. “Temos que fazer o jogo do nosso lado, contar com nossas individualidades, mas fazer um jogo coletivo bom”, comentou.
O foco também recaiu sobre jogadores em processo de readaptação. Paquetá, que voltava de lesão, recebeu minutos para retomar ritmo. Outros que estiveram na Copa do Mundo ou de férias ainda precisam de tempo para reencontrar o melhor nível. Esse argumento integrou a resposta de Jardim às críticas sobre a intensidade intermitente do time.
Sobre a possibilidade de insatisfação no elenco com a falta de reforços, Jardim foi realista: nem todos estão contentes quando não jogam. “Vocês acreditam que em um elenco de 25 jogadores todos estão satisfeitos? Nem todos estão satisfeitos. Hoje, com a atitude do time eu não vi ninguém jogar de uma maneira que a gente não quer”, ponderou. Ainda assim, reconheceu que a rotatividade baixa é uma constante na história do clube — os mesmos nomes costumam estar em campo independentemente de quem esteja no comando.
A vitória sobre o Vitória e as declarações de Jardim marcam um ponto de inflexão. Sem reforços chegando, o técnico sinalizou que a saída está em otimizar o que existe e recuperar o ritmo de jogadores em processo de readaptação. O Cruzeiro, que vem forte na disputa, será o termômetro para aferir se essa aposta tem sustentação.

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