Sem batuques
Como todos sabem, jogo do Flamengo é uma efeméride e, portanto, um evento imperdível, que se sobrepõe a outras demandas sociais chatas da vida adulta, como festa de criança e levar a sogra para passear. Essa semana, me aconteceu um fenômeno raríssimo: eu achei que a partida contra o Vitória fosse na quarta-feira, e não ontem, quinta. Que erro crasso. Mas… Qual o porquê disto? Muito provavelmente porque jogar a Copa do Brasil não é como jogar o Brasileiro e a Libertadores, exceto em termos financeiros. Como competição menos afiada, o que não significa que não tenha importância, é natural os jogadores entrarem com pé mole, se preservar em certos lances, e a torcida se distrair sobre nome do adversário e local, data e hora da partida.
A eliminação foi, eu diria, inacreditável. Não me parece que o Flamengo tenha sido totalmente “perninha” ontem. Chegar fofo nas jogadas está dentro do subconsciente dos jogadores às vésperas de uma Copa do Mundo, em que boa parte do nosso elenco estará presente. O que sei é que o Flamengo pagou caro por ser “arame liso”, uma característica que vem desde há muito tempo e nenhum técnico conseguiu dar uma solução definitiva a esta nossa infame capacidade de não transformar posse de bola em gols. Como disse meu amigo Lemos, o torcedor fica dividido: não é agradável ser eliminado da Copa do Brasil, mas também não é ruim dentro do planejamento do ano.
Fora isso, o que dizer da partida em si?! O que dizer da atuação do nosso goleirão Agustín Rossi?! Vocês acham que o Rossi falhou no primeiro gol dos caras? Na minha opinião, Rossi estava no lado em que foi a bola e errou o golpe de vista, provavelmente por mérito do chutaço com efeito. Golaço. Em compensação, no segundo gol, é unânime que nosso arqueiro “muralhou”. O show de fezes começou com uma baboseira feita pelo Luiz Araújo, cedendo um contra-ataque ao Vitória, e terminou com o tapinha meigo do Agustín para cortar o cruzamento. Mesmo tapinha meigo que, por sinal, deu o Pedro já na reta final, em chance mais clara que o sol de levar a partida para os pênaltis. Poxa, Pedrão! Ali, eu perdi as esperanças. Não era dia. Tudo dava errado e a bola só teimou em entrar para o lado baiano, que, merecidamente, venceu o jogo, foi mais competente e fez uma marcação impecável sobre a gente.
Ah, o Flamengo e sua mania de puxar os adversários para um nível acima…
Calem-me!
Havia um tempo, não tão distante, em que o Flamengo no Rio Grande do Sul era igual o Rubens Barrichello nas corridas de F1: poderíamos até ter esperanças de vitória antes do embate, mas, no final das contas, quase sempre dava ruim. Isto mudou. Hoje, quando vamos ao “Uruguai do Norte” (é brincadeira, amigos gaúchos), sabemos que voltar com os três pontos é provável. E assim foi nossa última incursão por Porto Alegre, no domingo: vitória fáááácil contra o Grêmio, cujo placar não refletiu nosso domínio. Por quê? Porque o Flamengo continua abusando do seu direito de perder muitos gols. E perder gols é correr riscos – vide ontem. Vejamos que a diferença entre os dois últimos jogos nossos pelo Brasileiro é que o Vasco saiu pro ataque e o Grêmio, não. O Grêmio se mostrou totalmente entregue. Acho que aqueles “cincum” até hoje martelam na mente e geram pesadelos aos gremistas quando veem o Mengo pela frente.
O gol da nossa vitória surgiu a partir de três jogadores que eu venho criticando: Léo Ortiz, Emerson Royal e Carrascal. Eu quero mais é que eles calem minha boca e queimem minha língua. Se eu estiver errado e o certo favorecer o Flamengo, ótimo. Royal está até acertando cruzamentos. Está melhorando sim (ou “despiorando”, se achar melhor o termo). Já a escalação inicial foi proveitosa. Gosto quando o Carrascal atua pelo centro e o Plata como ala. Plata, que, aliás, deveria se chamar Oro, pois vem jogando bem. Se ele voltar ao tempo de malandragem e gazeio, vou rebaixá-lo para Bronce. Pedro não fez gol, mas também fez uma boa partida contra os gremistas. A meu ver, se o Pedro fosse um pouco mais rápido, seria um atacante de um nível bem mais acima do que ele já é. Jorginho foi um leão e, felizmente, está suspenso para a próxima partida, o que lhe permitirá jogar o jogo seguinte ao próximo, que é o mais importante até agora do campeonato, contra nosso freguês do treinador reclamão e da dirigente mecenas.
Antes dessa importante partida contra o futuro ex-líder do campeonato, teremos pela frente o “Sinthético” Paranaense, este time médio que se acha grande e andou se engraçando em mares que não lhe convêm de uns anos para cá, até voltarem à pestilenta Série B ano passado. Tal qual o Grêmio, havia um tempo, não tão distante, em que o Flamengo no Estado do Paraná também era igual o Rubens Barrichello. Ou até pior. Novamente, isto mudou. Por isso, mesmo com desfalques, vou confiante à Arena da Baixada, com “De La SUS” e “Better Call Saúl” no meio-de-campo (ou, se o Nico não puder jogar no gramado sintético, dada sua frágil condição física, eu avançaria o Ortiz), e, se Deus quiser, a volta já tarde e ansiosamente esperada de Lucas Paquetá.
O calendário solar
É unânime que o calendário do futebol brasileiro precisa de reformas. Diante disto, ano passado, a CBF achatou mais ainda os Estaduais, o que quase nos gerou complicações diante do pífio desempenho da garotada nas primeiras rodadas. Em contrapartida, recriou os Regionais para os times que não têm afazeres mais importantes por aí. Achei isso contraditório, mas tudo bem. Não afeta o Flamengo, então não é problema nosso. O que afeta o Flamengo é o desfalque programado da data-Fifa. Não adianta nada a CBF interromper o campeonato e inserir jogos no dia seguinte à data-Fifa: os desfalques permanecem. O que também afeta o Flamengo é uma sequência ora fácil e ora complicada no Campeonato Brasileiro. Não há, para isso, uma equação proporcional. Estamos, neste final de 1º turno, só pegando pedreira. E olha que a CBF até faz uma coisa lógica e bacana na tabela do campeonato: cada time só vai a determinada cidade a mesma quantidade de vezes por turno. Já repararam? Vou dar exemplos: no 1º turno, fomos a BH enfrentar o Atlético/MG e recebemos o Cruzeiro em casa; fomos a Salvador enfrentar o Vitória e recebemos o Bahia; fomos a Porto Alegre e a Curitiba enfrentar Grêmio e CAP e recebemos Inter e Coritiba; fomos a São Paulo enfrentar São Paulo e Corinthians e recebemos Santos e Palmeiras; por fim, fomos uma vez ao interior paulista (Bragança Paulista) e só voltaremos lá no 2º turno (Mirassol).
Com isso, o que quero dizer é que, se a CBF dá essa proporção de viagens aos clubes, poderia muito bem dar uma proporção também às sequências específicas, ainda que o fato de um adversário ser considerado mais forte ou mais fraco seja puramente na teoria (há fases, há desfalques, há arbitragens tendenciosas e etc).
Isto posto,
Saudações Rubro-Negras!

Ricardo Santoro Nogueira, 39 anos, casado, nascido em Brasília/DF, é advogado e exageradamente flamenguista. Herdou de seu pai este viciante hábito de ocupar 90 min. assistindo ao Mais Querido. É fã de Zico, Adriano, Arrascaeta e Bruno Henrique, entre outros que também mereceriam destaque. Quase morreu em 2019, mas passa bem.