O fantasma que assombrou
Logo após a partida de ontem, na ESPN, um dos jornalistas falou que era preciso o Flamengo fazer muito esforço para recolocar o Del Valle na briga pela classificação. E esse esforço foi feito. Por sua vez, pouco antes do jogo, comentei com o xará Perez: seria necessário combinar incompetência, azar, um dia terrível nosso e uma dia perfeito deles para sermos eliminados. E, amigos, flertamos muito com esse fantasma do América do México. Quase que a vaca foi para o brejo.
Logo no início da partida, eu senti uma certa angústia. O Flamengo não estava inspirado nem parecia estar tão focado na partida. Nessas horas, sinto falta do Jorge Jesus maluco na beira do campo, dando esporro e mandando o time ficar pilhado. Em meio a essa apatia, veio o belo passe de Paquetá e o Bruno Henrique, cara a cara, finalizou todo troncho. Era a incompetência de que eu havia falado!
Instantes depois, gol dos caras. Ayrton Lucas defecou duplamente no mesmo lance (achei uma faltinha “marcável”), Rossi espanou igual na final do Intercontinental e 0x1 no placar. Era o azar de que eu havia falado!
À tal altura da partida, a escalação inicial já se mostrava equivocada. Não se deixa no banco jogadores no naipe de Pedro e Arrascaeta em partida eliminatória, somado ao fato de que Bruno Henrique, hoje, é uma “arma secreta” nem tão secreta assim, e não titular. Era o dia perfeito deles de que eu havia falado!
Segundo tempo. Nada do nosso gol. E eis que Jorginho, com quatro séculos de experiência, resolveu ser merecidamente expulso. Era o dia terrível nosso de que eu havia falado!
Gesù Bambino, o que estava acontecendo? Só faltava entrar Salvador Cabañas no Del Valle. E os equatorianos ainda tiveram um gol anulado, corretamente, por impedimento. Faltavam, ainda, pelo menos, uns 15 ou 20 minutos de jogo e estávamos negociando a derrota por um gol, em casa, ansiosos ao relógio, depois de uma belíssima vitória em Quito. Que absurdo era aquele?
E eis que a sorte de campeão apareceu. Um lançamento do Rossi direto pro Arrascaeta, o goleiro deles foi prejudicado pelo tempo da bola (credito isso ao jogo no nível do mar, hehehe) e a classificação, outrora em perigo, se consolidou.
Foi uma das piores partidas do Flamengo no ano. Talvez a pior. Demos muita chance para a tragédia. Subestimamos o perigo. Ignoramos a imprevisibilidade do futebol.
“Não há drama sem agonia”. Nem glória sem drama. Agora, a próxima escala é, novamente, na Argentina.
O fantasma que rondou
A partida contra os reservas do time dos habitantes de Corinto e escudo que mais parece um despertador de cabeceira é daquelas barbadas que deixam a gente com um pé atrás. Isto porque a freguesia corintiana e o fato de terem entrado com um time totalmente alternativo fez com que o favoritismo triplicasse a nosso favor. E eu odeio jogar com muito favoritismo, ainda mais contra time grande.
Não deu outra: outro velho fantasma surgiu, o do excesso de gols perdidos. Pedro em uma mistura de inhaca com displicência, uma overdose de escanteios sem perigo algum e, lá pelas tantas, como costuma acontecer desde 2020, Hugo Souza falhou, Paquetá abriu o placar e a coisa parecia estar tranquila para nosso lado.
Mas Diniz havia um plano. Abro parênteses: Diniz é daqueles caras que não pode ser criticado. É igual o PH Ganso: quando erra, passam pano; quando acerta o óbvio, vira gênio. Fecho parênteses. Quando o Corinthians colocou em campo quatro de seus ignotos titulares, em uma só jogada, empataram. Um lance bem trabalhado, mas nas costas do Alex Sandro, sem nenhum ritmo de jogo. Achei que o Jardim forçou a barra… Não era factível o Alex Sandro àquela altura.
O que esse gol traria de lamentação não foi apenas o empate e a dificuldade que um jogo, aparentemente fácil, se revelou. Foi que, na cabeça da turma da maloca, eles poderiam fazer frente ao Mengo com seus onze titulares. Mas o uso do futuro do pretérito do indicativo em “traria” e “poderiam” não foi à toa: o “Chorinthians” não se classificou para as semifinais na Libertadores, com requintes de crueldade, e, portanto, não os enfrentaremos mais no corrente ano. É claro que jogar em São Paulo é mais fácil do que em La Plata, mas confesso que eu ri à beça quando o Memphis mandou aquele pênalti para algum corpo espacial não revelado.
De toda forma, o que importa é o Flamengo. É que o Bruno Henrique, sempre ele, repetiu seu mais exitoso repertório e nos manteve na liderança isolada do campeonato. Mas o sinal de alerta daquele velho fantasma voltou: não podemos ter tanto volume e não o transformar em gols.
O fantasma que se consolidou
Abro uma discussão: por que raios ninguém consegue dar um jeito no gramado do Maracanã?! Ok, ok, tem jogo demais no relvado, tem o Fluminense também, tem o Vasco querendo meter o bedelho, tem a NFL, tem os shows de K-Pop e o escambau. Mas e os outros estádios, mundo à fora, que também recebem eventos em demasia?!
Para um time técnico como o nosso, que faz muitas trocas de passes, um gramado em más condições é uma autossabotagem. Basta lembrar: quem gere o Maracanã somos nós.
Isto posto,
Saudações Rubro-Negras!

Ricardo Santoro Nogueira, 39 anos, casado, nascido em Brasília/DF, é advogado e exageradamente flamenguista. Herdou de seu pai este viciante hábito de ocupar 90 min. assistindo ao Mais Querido. É fã de Zico, Adriano, Arrascaeta e Bruno Henrique, entre outros que também mereceriam destaque. Quase morreu em 2019, mas passa bem.