José Boto colocou na mesa uma questão que ainda intriga a torcida rubro-negra: por que Filipe Luís saiu do Flamengo e como Leonardo Jardim conseguiu onde o ex-lateral não alcançou. Em entrevista à ESPN na véspera do duelo contra o Independiente del Valle, o diretor de futebol do Mengão traçou um paralelo direto entre os dois treinadores que revela mais sobre o que os separa do que aproxima.
Para Boto, a diferença fundamental está na rigidez metodológica. Filipe Luís carrega uma assinatura autoral que não abre mão facilmente — é um treinador que acredita em sua filosofia e a executa independentemente das peças disponíveis. Jardim, por sua vez, funciona como um camaleão: molda suas ideias ao grupo que tem em mãos. Essa distinção, aparentemente técnica, carrega consequências reais no elenco.
“O Filipe é um treinador de estilo autoral, ou seja, tem uma filosofia própria e raramente abre mão dessa maneira de pensar o jogo. Já trabalhei com treinadores desse perfil — talvez o maior deles tenha sido o Roberto De Zerbi —, que não abdicam do seu estilo por nada. Isso, às vezes, acaba prejudicando alguns atletas, pois eles levam mais tempo para absorver o que é exigido”, afirmou Boto.
O dirigente complementou o raciocínio com uma análise que soa como autocrítica velada. Jardim representa uma postura irredutível menos evidente, mais pronta a ceder quando necessário. Filipe Luís, aos olhos de Boto, carrega essa convicção metodológica característica de treinadores mais jovens — aquele que não quer nem consegue se moldar às limitações do grupo.
O preço que Alcaraz pagou
Quando Boto mencionou atletas prejudicados, o nome que vem à mente é Carlos Alcaraz. O meia argentino chegou ao Mais Querido em 2024 como a contratação mais cara da história do clube até então. Um investimento pesado, uma aposta de futuro. Um ano depois, saiu para o Everton (ING) porque não conseguia se encaixar no sistema exigido por Filipe Luís.
O próprio técnico reconheceu na época que não conseguia extrair o melhor do jogador, mas pediu uma segunda chance. O cenário ilustra exatamente o que Boto estava descrevendo: um meia com características ofensivas não encontrava espaço nem função em um esquema que prioriza rigidez tática acima da adaptação individual.
Alcaraz não foi um fracasso do jogador. Foi uma incompatibilidade entre sua qualidade e a inflexibilidade do sistema. Sob Jardim, a história talvez fosse outra — e isso não é especulação, é análise de estilo baseada no histórico dos dois comandantes.
Monaco: o laboratório europeu de Filipe Luís
Apesar da crítica velada, Boto reconhece que Filipe Luís encontrou solo fértil no Monaco. O clube do Principado, aos olhos do dirigente, oferece o ambiente ideal para um treinador autoral começar sua carreira europeia: menos pressão, menos torcida, expectativas controláveis. Um laboratório perfeito.
Filipe Luís assumiu em julho de 2024 e desde então o time acumula 100% de aproveitamento. A vitória sobre o PSG por 2 a 1 no Parc des Princes teve sabor especial: tornou-o o primeiro comandante da história do Monaco a vencer os cinco primeiros jogos. Um recorde que fala.
Boto acompanhou a trajetória inicial de perto. Admitiu que na pré-temporada algumas peças pareciam enfrentar dificuldade de adaptação — especialmente nos confrontos contra Sporting e Liverpool. Mas as coisas começaram a se encaixar. Não é coincidência: é o padrão de um treinador com filosofia clara que persiste até conseguir o resultado esperado.
“Acho que o Monaco é o clube ideal para ele começar no futebol europeu e se impor com mais facilidade, por ser um ambiente de menor pressão, com menos torcida e expectativas controladas, o que permite um trabalho progressivo”, comentou Boto, que ainda projetou o impacto dessa trajetória no futebol brasileiro. “É ótimo para ele e também para a projeção do futebol brasileiro na Europa, que há muitos anos tenta se firmar novamente no continente”, finalizou.
Jardim no presente, Boto olhando para o futuro
Enquanto Filipe Luís brilha em terras francesas, Jardim comanda o Mengão em uma fase sensível. Lidera o Brasileirão e agora enfrenta o grande teste que qualquer técnico adaptável teme: a Libertadores, onde não há espaço para improvisos. Nesta quinta-feira (10), às 21h30, o Flamengo enfrenta o Independiente del Valle no Estádio Olímpico Atahualpa, em Quito, a 2.850 metros de altitude.
Jardim escalou Pedro e Rossi como titulares, apoiando-se nos nomes que conhece bem e que conhecem sua filosofia. A escalação revelou: Rossi; Emerson Royal, Léo Pereira, Léo Ortiz e Ayrton Lucas; Pulgar, Jorginho e Arrascaeta; Carrascal, Samuel Lino e Pedro. Um time que reflete justamente o que Boto descreveu como a força de Jardim — o aproveitamento máximo das peças disponíveis.
Arrascaeta chegou a Quito com status de veterano confiável. O meia completará 70 jogos pela Libertadores caso entre em campo — atualmente com 69 aparições, 45 vitórias, 17 empates, 7 derrotas, 13 gols e 19 assistências. Nunca foi expulso na competição, acumulou apenas 10 cartões amarelos. É exatamente o tipo de jogador que funciona melhor sob uma abordagem menos rígida, porque oferece alternativas e lê o jogo de forma intuitiva.
A transmissão será pela ESPN e Disney+. O jogo de volta está marcado para 17 de setembro no Maracanã, onde o Nação rubro-negra terá a chance de reverter o resultado se necessário. Antes do apito final em Quito, porém, as declarações de Boto ecoam: toda a diferença entre ganhar e perder pode estar na capacidade de um técnico se adaptar ou em sua recusa em fazê-lo.

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