José Boto e o scout do Flamengo enfrentam teste decisivo contra Botafogo

José Boto chega ao clássico contra o Botafogo no Maracanã carregando uma responsabilidade que extrapola o resultado da partida. O diretor de scout do Flamengo enfrenta cobranças diretas pela falta de efetividade de um departamento que foi contratado para revolucionar a forma como o Mengão escolhe seus reforços, mas ainda não conseguiu entregar como prometido.

A análise feita pelo Jornal O Globo coloca lado a lado dois modelos completamente distintos de trabalho. De um lado, o Flamengo segue preso a contratações caras e pontuais, dependente de investimentos vultosos que nem sempre se traduzem em êxito. Do outro, o Botafogo transformou seu departamento de análise em uma máquina de seleção que funcionou em seis dos sete últimos reforços trazidos para o elenco.

O scout do Flamengo que ainda não começou a funcionar

Quando José Boto foi contratado no início de 2025 para liderar o scout do Clube da Gávea, a promessa era clara: modernizar o processo de recrutamento e reduzir a dependência de operações caras e desesperadas. Até agora, porém, o Flamengo não conseguiu cumprir esse roteiro. Na janela de meio de ano, o clube sequer trouxe reforços, enquanto a pressão sobre o departamento cresce.

O projeto ainda não saiu do papel da forma esperada. O departamento existe, tem profissionais dedicados, mas não se consolidou como instrumento decisório na escolha de novos atletas. Isso reflete diretamente nos números: o Flamengo segue apostando em nomes de alto custo e visibilidade, não raramente em mudanças desesperadas de rumo durante a temporada.

O maior símbolo dessa estratégia é Lucas Paquetá. O Mais Querido desembolsou R$ 315 milhões pela volta do meia, valor que representa recorde no futebol brasileiro. A operação não nasceu de uma indicação estruturada do departamento de scout, mas de uma aposta da gestão de Luiz Eduardo Baptista em um nome que poderia resolver questões pontuais do elenco.

Botafogo constrói diferente, com Brunno Noce no comando

No sentido oposto, o Botafogo investiu em um modelo que coloca o scout no centro das decisões. Brunno Noce lidera um departamento com mais de dez profissionais mapeando jogadores globalmente, analisando métricas e comportamentos antes de qualquer recomendação chegar à diretoria.

O resultado é mensurável: dos sete reforços trazidos pelo clube da General Severiano, seis vieram por indicação direta do setor de análise. Vitinho chegou por R$ 49,3 milhões. Thiago Almada entrou por R$ 120 milhões. Não são valores menores, mas cada um deles foi precedido por pesquisa, comparação e convicção técnica, não por urgência de nomes famosos.

Tiquinho Soares retornou ao clube, é verdade, por razões emocionais e históricas. Mas mesmo esse tipo de contratação não destoa do padrão: o atacante é um profissional que cumpre exigências técnicas claras do elenco, não apenas uma celebridade para vender ingressos.

A iminente chegada da GDA Luma, que assumirá 90% das ações da SAF do Botafogo, tende a reforçar ainda mais essa estrutura. O novo modelo acionário traz consigo a expectativa de que o scout continue sendo a bússola das decisões, não um departamento consultivo ignorado quando convém.

Números que revelam duas realidades

O Flamengo ocupa a 2ª colocação do Campeonato Brasileiro com 45 pontos, mas vem de derrota para o Cruzeiro na rodada anterior. O Botafogo está em 11º lugar com 30 pontos em 23 jogos disputados, acumulando duas derrotas consecutivas fora do Engenhão. A diferença na tabela é evidente, mas não encobre a questão estrutural que o clássico de hoje traz à superfície.

No Maracanã, o Flamengo mantém uma fortaleza relativa. Não perde para o Botafogo em casa há exatamente dois anos. Nos últimos 14 compromissos no estádio, teve apenas uma derrota. Nos cinco duelos mais recentes como mandante, venceu todos. Além disso, a Nação rubro-negra chegou a uma sequência de dez partidas marcando gols consecutivamente e permanece em cinco jogos seguidos anotando em casa.

São dados que sugerem um time competitivo no que importa: entrar em campo e vencer. Mas a análise do O Globo traz à discussão aquilo que não aparece nas estatísticas de resultado: a forma como se constrói um elenco competitivo de forma sustentável.

O clássico como vitrine das filosofias

A partida de hoje, 30 de agosto, pela 25ª rodada do Brasileirão, acontece às 16h no Maracanã, em um palco amplificado pela festa de um ano de patrocínio da Betano, que terá mosaico de 46 metros de largura por 25 metros de altura. O contrato com a empresa paga R$ 268,5 milhões anuais ao Mengão, reforçando sua estrutura financeira de elite.

Mas dinheiro, como sabe qualquer torcedor de futebol, não resolve tudo. A questão que paira sobre o clássico é simples: qual modelo de trabalho entrega resultados duráveis? O do Flamengo, que segue apostando em nomes caros e nem sempre refletidos? Ou o do Botafogo, que construiu uma engrenagem de scout capaz de trazer reforços comprometidos com objetivos coletivos?

José Boto e seu departamento têm a chance de começar a responder essa pergunta. A vitória de hoje, se vier, dirá pouco sobre a efetividade do scout. Uma derrota, porém, alimentará ainda mais o questionamento sobre se o Flamengo está realmente na direção certa quando o assunto é construir um elenco inteligente e competitivo.